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ZéCar. Design brasileiro e preocupação ambiental Imprimir E-mail
Escrito por Vivian de Oliveira Preto   
Seg, 18 de Junho de 2012

 

Durante os últimos seis anos tenho frequentado palestras e exposições de trabalhos de designers renomados com o intuito de agregar repertório e de mostrar para os meus alunos a importância de um projeto bem elaborado, com conceito e planejamento de produção bem de­li­nea­dos. De todas as palestras e exposições a que assisti, a que mais me impressionou foi a do designer e escultor Chico Bicalho, no evento Boom SP – Design.
O trabalho desse designer tem uma preo­cu­pa­ção am­bien­tal perene em todas as etapas do processo. O conceito do produto passa uma imagem positiva de baixo impacto am­bien­tal para crian­ças e adultos. A produção do ma­te­rial e da embalagem é planejada para ser ecologicamente correta e uma porcentagem do lucro da venda é revertida para projetos de reflorestamento. Uma cadeia produtiva perfeitamente focada no meio am­bien­te.
Chico Bicalho é um designer conhecido mun­dial­men­te pelos seus projetos de “brinquedos de corda”, que com o tempo se tornaram itens de co­le­cio­na­dor. A sua história pro­fis­sio­nal teve início em Nova York, em uma loja de sobras industriais do pós-​­guerra, onde ele passou a utilizar os motores amon­toa­dos para fazer brinquedos. No início de carreira ele chegou a fazer 150 peças por dia, montadas à mão. Hoje uma empresa chinesa produz os brinquedos em escala in­dus­trial. Suas peças são dis­tri­buí­das em vá­rios lugares do mundo, entre eles o museu Guggenheim.
Todos os brinquedos fabricados por Bicalho são à corda e isso já reflete sua preo­cu­pa­ção com o meio am­bien­te. “Detestaria saber que milhares de pilhas se­riam usadas e descartadas para dar movimento a esses brinquedos. As engrenagens e mecanismos são para mim como órgãos em movimento e o fato de que a corda dura um tempo limitado é importante. À pilha, eles per­de­riam a graça rápido, porque se­riam muito ‘automáticos’. Movidos à corda, eles forçam a atenção e a participação ativa das pes­soas, porque a duração é limitada, ela acaba aos poucos, como uma ‘vidinha’ curta, e a gente tem que interagir para que haja movimento de novo. Quan­do alguém dá corda, de uma maneira, dá vida a esses bichos, e, de uma certa forma, todo brinquedo de corda é um encantamento nesse sentido”
(Chico Bicalho, palestra Boom Design – SP).
Além do conceito do brinquedo, o artista participa também da cria­ção das embalagens para os seus produtos. No início, eles eram vendidos em sacos de papel azul, com o nome do brinquedo em letras grandes. O problema era que em certas cir­cuns­tân­cias o produto não vendia, uma vez que não se sabia do que se tratava. A embalagem escondia o produto e as pes­soas acabavam não se interessando. E quem comprava jogava a embalagem fora porque ela não tinha nenhum valor agregado.
Após alguns estudos o designer chegou à conclusão de que uma embalagem transparente seria a melhor solução para a revenda em lojas e museus. As pes­soas vi­sua­li­za­riam o produto e fi­ca­riam cu­rio­sas para ver como o brinquedo fun­cio­na. Além disso, o produto é co­le­cio­ná­vel, e para este público é importante ter embalagens duráveis, práticas e que permitam a vi­sua­li­za­ção. A ideia é que a embalagem interfira pouco no produto e permita a vi­sua­li­za­ção do brinquedo exposto. O ma­te­rial escolhido na época foi o PVC, que, com o tempo, foi trocado pelo PET.
Em 1996, o designer se envolveu em um projeto de reflorestamento com um grupo de amigos na tentativa de recuperar uma área devastada da Mata Atlântica. Foram muitas ações para an­ga­riar fundos para o projeto e uma delas foi a cria­ção de um brinquedo chamado ZéCar. O objetivo é que os ro­yal­ties sejam 100% revertidos para o projeto Mil Folhas, que envolveu a comunidade de Petrópolis, alunos de escolas públicas e pes­soas de outras partes do mundo. Hoje a área está recuperada e o projeto está se preparando para ­criar um banco genético de bro­mé­lias. O projeto rendeu um ma­nual de reflorestamento para pes­soas leigas que pode ser baixado gratuitamente do site www.projetomilfolhas.com.
O case do ZéCar serve como referência para todos no mercado. É uma demonstração de que é possível ­aliar conceito ecologicamente correto, processo de produção e lucratividade. Em 2011 a fabricante dos brinquedos Kik­ker­land solicitou a alunos participantes do World­skills (competição in­ter­na­cio­nal de formação pro­fis­sio­nal) que fizessem novas propostas para a embalagem do brinquedo.



Vivian de Oliveira Preto é professora de Design Gráfico e coordenadora de formação continuada da Escola Senai Theobaldo De Nigris.

 

Texto publicado na edição nº 82