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Resguardar a tipografia é preservar o conhecimento Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Sáb, 03 de Março de 2012

Nascido em 1957, aos 10 anos Claudio Rocha desenhava letras. Na escola era ele o responsável pela dia­gra­ma­ção do jornal do grupo de tea­tro e aos 17 já dia­gra­ma­va as revistas e materiais impressos do Idort. Ele estava na lida muito antes de surgir a denominação designer gráfico, à qual deu corpo e importância com seu conhecimento técnico e cria­ti­vi­da­de. Artista gráfico completo e grande conhecedor de tipos, Claudio Rocha atuou como catalisador para a primeira geração de typedesigners brasileiros em mea­dos da década de 90 com ini­cia­ti­vas como a revista Última Forma Typography, em 1997. Publicação independente, reunia pes­soas que tinham alguma relação com a cria­ção e o desenho de letras, como Rubens Matuck, Guto Lacaz, Arnaldo Antunes, Tide Hellmeister e Eduar­do Bacigalupo, figurando como um dos primeiros meios de divulgação da tipografia brasileira na comunidade in­ter­na­cio­nal do design.
Mergulhado na escassa literatura sobre o tema, Claudio, entre idas e vindas como free­lan­cer e pro­fis­sio­nal contratado (foi diretor de cria­ção na Seragini Design), virou designer gráfico es­pe­cia­li­za­do no segmento edi­to­rial. Ou melhor: tradutor vi­sual, nas suas pró­prias palavras, uma vez que sua função é entender uma necessidade mercadológica e ma­te­ria­li­zá-la em uma peça gráfica.
Da semente atirada pela Última Forma nasceu, em 2000, a revista Tupigrafia, trazendo um olhar instigante e sensível sobre as manifestações con­tem­po­râ­neas sobre a tipografia no Brasil e no mundo, idea­li­za­da em parceria com Tony De Marco. No pe­río­do que morou na Itália, entre 2007 e 2009, Claudio lançou a revista Tipoitalia, além de colaborar com museus, promover workshops e dar palestras.
Antes disso, em 2004, criou, ao lado de Claudio Ferlauto e Marcos Mello, a Oficina Tipográfica São Paulo com o ­ideal de recuperar a linguagem pe­cu­liar do sistema de impressão tipográfica e inserir esse meio de comunicação como um recurso de estilo dentro do universo digital. Agregando ateliê de composição ma­nual e impressão tipográfica, a oficina posicionou-se como um laboratório no qual se experimentava a linguagem dos tipos de metal e de madeira e onde acon­te­ciam workshops abertos aos interessados em conhecer essa técnica. Em 2005, a Oficina transformou-se em uma organização não governamental, sendo transferida pos­te­rior­men­te para a Escola Senai Theo­bal­do De Nigris, com a qual mantém um convênio com a missão de preservar a cultura gráfica no País.
Hoje Claudio Rocha, autor de livros como Projeto Tipográfico – Análise e Produção de Fontes Digitais e Tipografia Comparada: 108 Fontes Clássicas Analisadas e Comentadas, divide-se entre a rotina da Oficina Tipográfica, as aulas que ministra como professor de Tipografia e projetos pessoais.
Nesta entrevista, ele fala sobre a validade da tipografia como processo de impressão na atua­li­da­de e a possibilidade de combiná-la com as novas tec­no­lo­gias.

Qual o papel da tipografia hoje?
Claudio Rocha – A tipografia é uma tecnologia superada há duas gerações. Foi subs­ti­tuí­da pelo processo offset e agora pela impressão digital. Só que os parâmetros da tipografia, seus prin­cí­pios, foram preservados. Resguardar a tipografia é preservar o conhecimento. Nosso objetivo é cultural, didático. Quem cria ou produz peças em tipografia tem a oportunidade de desenvolver o ra­cio­cí­nio vi­sual, deve trabalhar com os aspectos físicos do grafismo e não grafismo, lidar com os espaços va­zios, ex­pe­riên­cias que a computação gráfica não possibilita. Na tipografia, o designer e o gráfico se complementam e o conhecimento da técnica amplia a bagagem profissional de quem se dedica a ela. Por suas características, a tipografia permite efeitos únicos que o gráfico pode explorar. Algumas editoras, como a Cosac Naify, utilizam a tipografia na impressão da capa de seus livros como um recurso de estilo, buscando a linguagem vi­sual própria desse sistema.
Ainda há gráficas produzindo impressos em tipografia no Brasil?
CR – O uso é marginal. A tipografia teve uma sobrevida com a impressão de ta­lo­ná­rios, hot stamping e para numeração de impressos. No in­te­rior e nas pe­ri­fe­rias ainda se faz envelopes e cartões de visita em tipografia, mas muitas impressoras estão sendo transformadas e utilizadas para corte e vinco. O uso co­mer­cial é bem restrito, mesmo porque muitos profissionais que pos­suíam o conhecimento dessa técnica já se aposentaram.
É possível unir a impressão tipográfica e a digital?
CR
– Um recurso é tirar uma prova de prelo de uma composição com tipos de metal ou de madeira e também de um clichê tipográfico e transformá-​­los em arquivo digital através do seu es­ca­nea­men­to. Fizemos isso recentemente aqui na Oficina Tipográfica para a programação vi­sual de uma exposição, compondo palavras com tipos de madeira, digitalizando as provas desse ma­te­rial e gerando arquivos digitais para impressão em offset. O inverso também é possível. Elaborar um projeto no computador, produzir um fotolito e a partir deste fazer um clichê para impressão em tipografia. O que determina é a linguagem que se pretende para o projeto, a proposta do trabalho.
Você citou uma editora que utiliza a tipografia em seus produtos. Como está a procura pela tipografia como um recurso vi­sual?
CR
– Nesse aspecto, o processo tipográfico é bastante valorizado. Existem oficinas tipográficas com uma nova proposta surgindo em São Paulo, em Goiânia, em Belo Horizonte e outras cidades. A tipografia virou um nicho de mercado e vem sendo utilizada, tanto no Brasil quanto em paí­ses como a Itália, na produção de livros, cartazes, convites, em peças com pequenas tiragens, em projetos culturais. Há mercado, porém limitado.
Quais são os planos da Oficina Tipográfica para este ano?
CR
– Estamos dando continuidade à catalogação do acervo da Oficina e da Escola Senai. No ano passado recebemos doa­ções importantes, como a do Sesc Pompeia, que repassou para a Oficina uma grande quantidade de tipos históricos. Estamos reor­ga­ni­zan­do todo esse ma­te­rial. Na área didática vamos manter os mesmos cursos que já estávamos oferecendo: Composição Ma­nual, no qual o Marcos Mello apresenta o sistema e a linguagem da composição com tipos móveis e da impressão tipográfica como recurso formal no design gráfico; Gravura Tipográfica, sob minha direção, onde exercitamos as possibilidades da linguagem tipográfica na produção de cartazes; e Técnicas de Encadernação para Designers, também conduzido pelo Marcos. Também pretendemos nos concentrar na experimentação e na busca da excelência técnica, ma­te­ria­li­zan­do produtos gráficos e editoriais da própria Oficina. A OTSP não tem fins lucrativos. Vivemos de apoios e dos produtos que desenvolvemos. Pretendemos aproveitar a vocação edi­to­rial da Oficina para dar corpo a projetos com caráter cultural.

Texto publicado na edição nº 81