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O que está por trás do Delta E Imprimir E-mail
Escrito por Bruno Mortara   
Sáb, 01 de Novembro de 2008

Bruno Mortara discute a importância da precisão e da aplicação das normas no uso de espectrofotômetros.

Dois artigos publicados recentemente na revista The Seybold Report (link) me chamaram a atenção: Delta E Blues: The Science of Color Perception, escrito por Paul Lindström e Color Measurement: A Dissenting View, de Eddy Hagen.

Me interessei para o fato de as ferramentas e instrumentos de controle necessários para a adoção de boas práticas pela indústria gráfica estão sob a mira de antigas suspeitas de imprecisão e atendendo a diferentes padrões! Os instrumentos em questão são espectrofotômetros e os fabricantes são em número cada vez menor, uma vez que esse segmento sofreu um forte processo de consolidação.

A teoria

Em muitas gráficas os processos são controlados de maneira empírica ou artesanal, sem o uso de instrumentos como densitômetros ou espectrofotômetros. Nessas empresas ainda é a opinião do impressor ou de um supervisor que decide se o trabalho está bom ou não. Elas ainda não entraram na era da produção padronizada por normas e especificações. (Este artigo também se dedica a alertar as gráficas para a produtividade, economia e ganho de qualidade proporcionado pela adoção de normas internacionais).

Como funciona

Os espectrofotômetros são capazes de perceber as cores de maneira muito similar à visão humana e convertem os valores lidos em coordenadas no espaço de cores Lab, segundo especificações e padrões da indústria.

O espaço Lab distribui todas as cores visíveis (e algumas somente imagináveis) em três eixos: o eixo L (luminosidade), com valores de 0 (escuro absoluto) a 100 (luz máxima); o eixo a, com valores de - 128 (Verde limão) a 127 (Magenta) e o eixo b, com valores de - 128 (Azul) a 127 (Amarelo).

Os espectrofotômetros analisam amostras de cor de objetos opacos, através da emissão e captação da luz refletida, ou seja, possuem uma fonte de luz padronizada (D50) que é emitida sobre a amostra. Em seguida, analisam o espectro da luz recebida, também de acordo com o especificado na norma ISO 13655 - Graphic technology — Spectral measurement and colorimetric computation for graphic arts images".

A representação do espaço de cores Lab

 

Essa norma já prevê que existam discrepâncias entre diferentes instrumentos e lança mão de materiais de referência certificados (CRM) para a calibração inter-instrumentos.
Quanto à fonte de luz do espectrofotômetro, a norma ISO 3664 diz que “para minimizar as variações entre instrumentos devido ao uso de materiais branqueadores nos papéis (OBA- Optical Brightner Addictive) ou devido à fluorescência das tintas utilizadas e para dar consistência com as observações em estandes de visualização sob condições padronizadas na Norma ISO 3664, tanto a fonte de luz do estande de avaliação quanto do espectrofotômetro devem ter a mesma distribuição espectral, ou seja, do iluminante CIE D50”.

 

 

OS VALORES DE L,a E b
Os valores de a=0 e b=0 representam cinzas neutros



O alvo das medições - NBR ISO 12647

Isso significa que para fazermos os controles de cor dos impressos, além é claro do controle de processo executado no ato da impressão com a ajuda do densitômetro, é preciso que saibamos se o processo de impressão está respondendo colorimetricamente àquilo que foi especificado pela pré-impressão, ou seja, a norma de impressão NBR ISO 12647-2, quando se trata de offset plano ou rotativa com heatset.

Digo isso, pois a norma NBR ISO 12647 especifica padrões para os processos gráficos e as medições dos impressos feitos em nossas gráficas irão justamente em busca desses valores. O pressuposto fundamental neste processo é que as tintas e os papéis utilizados também estejam de acordo com o especificado. Veja a tabela resumida com os valores especificado nessa parte da norma.

VALORES DE L, a E b DAS CORES DE PRIMÁRIAS E

SECUNDÁRIAS SEGUNDO A ISO 12647-2


Os espectrofotômetros detectam todos os comprimentos de onda entre 385 e 720 nanômetros, assim como a visão humana. Cada cor é formada por uma mistura de diferentes estímulos de comprimentos de onda diferentes e o sistema numérico é a maneira de uniformizar e quantificar qualquer amostra de cor, inequivocamente. Quando temos duas cores e desejamos compará-las, o conceito utilizado é da distância entre dois pontos no espaço: a raiz quadrada da soma dos quadrados das diferenças em cada eixo, também chamada de ?E (Delta E). Diferenças entre duas cores de Delta E menor que 2 são quase imperceptíveis e até 5 são toleráveis nos processos gráficos. Acima de 10 o Delta E passa a ser gritante e percebemos que são cores diferentes.


 

DUAS CORES NO ESPAÇO lab E A DISTÂNCIA ENTRE ELAS É O QUE SE CHAMA DE DELTA E OU ?E.

Fórmulas de Delta E

Ao longo das últimas décadas, diferentes aprimoramentos de fórmulas de Delta E têm sido oferecidos especialmente devido a certa não uniformidade no espaço de cores CIELAB. Em 1976, os cientistas criaram a fórmula de diferença de cor CIE DeltaE*ab (CIE 1976). Em 2000, os mesmos cientistas criaram o DeltaE2000.

Há ainda outras fórmulas de cálculo de diferenças entre as cores e a discussão esquenta quando Eddy Hagen afirma em seu artigo: “Observando um impresso com 95% de amarelo e um chapado 100% amarelo. A diferença de cores é imperceptível a olho nu. As medidas são Lab 89, -5, 93 e Lab 89, -5, 88. O Delta E*ab (CIE 1976) é de 5,0 e o Delta E 2000 de 0,99”.

Na mesma linha, Paul Lindström afirma que as fórmulas de 1976 e anteriores são menos eficazes para julgar diferenças inferiores a 5 entre duas cores (isto é, Delta E menor que 5). Porém, os dois autores concordam ao afirmar que para diferenças maiores que 5 a fórmula de 1976 é superior.

E a norma de processo gráfico, qual fórmula utiliza?

Resposta: o Delta E*ab (CIE 1976) e suas tolerâncias são de 5!

Se por um lado os gráficos ainda não devem se preocupar com discussões teóricas sobre fórmulas que dão diferenças para Delta E menores que 5, por outro esses limites tendem a se estreitar.

A comunidade de especialistas espera que os cientistas e a ISO cheguem a um consenso e que possamos evoluir para uma fórmula consistente para permitir que sistemas automatizados dentro da nossa indústria (esses sim precisarão saber bem se o Delta E é 1, 2,3, 4 ou 5, por exemplo) possam medir e se corrigir adequadamente em relação a cores impressas e referências normalizadas.

Diferenças entre instrumentos

Outra discussão levantada nos dois artigos é sobre as inconformidades encontradas entre diferentes espectrofotômetros.

Quando imprimimos um ciã sobre o papel branco, inspecionamos o impresso com o nosso instrumento e esperamos ler os valores, segundo a tabela de Cores da ISO 12647-2, L=55, a=-37 e b=-50. Em outro local, com um espectrofotômetro modelo e/ou marca diferentes, podemos obter outras medidas da mesma amostra? A resposta teórica é não, mas na prática isso acontece.

Eddy Hagen nos traz a experiência executada no Flemish Innovation Center for Graphic Communication (VIGC), na Bélgica:

A partir de uma carta de cores NetProfiler da GretagMacBeth, foram feitas medições em nove diferentes espectrofotômetros. Iniciaram os testes com as calibrações de acordo com os fabricantes e fizeram as leituras da carta de cores em cada aparelho.

A Tabela 1 traz a diferença entre o material certificado e cada leitura de cada instrumento, em Delta E*ab (CIE 1976). Os valores chegam até 3,59! Já as mesmas leituras interpretadas pela fórmula de Delta E2000, ficaram com diferenças máximas de 1,32, na Tabela 2.

Leituras comparativas de nove diferentes instrumentos e diferenças expressas em DeltaE*ab (CIE 1976)

 

Leituras comparativas de nove diferentes instrumentos e diferenças expressas em Delta E2000. As diferenças são bem menores que na Tabela1


Conclusões

Essas observações nos levam a duas questões que nos demandarão um posicionamento:
A primeira, é que temos de trabalhar em cima de normas e padrões internacionais e, para a indústria gráfica, isso significa estar em conformidade com as normas de impressão e utilizar as normas de visualização e medição de impressos, para começar.

Já a segunda conclusão que tiramos é que no Brasil temos de fazer nossa lição de casa que é estar dentro das tolerâncias das normas de impressão (NBR ISO 12647 e suas partes) que é de 5.
Uma vez que estejamos com nossos processos controlados e normalizados dentro da tolerância de 5, aí então começaremos a nos preocupar com os problemas que têm aqueles que têm que controlar diferenças menores que 5.


Bruno Mortara é superintendente do ONS27 e coordenador da Comissão de Estudo de Pré-impressão e Impressão Eletrônica.

Texto publicado na Edição 63