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Arte ou indústria? De que lado você está? Imprimir E-mail
Escrito por Marcos Nepomuceno Duarte   
Sáb, 01 de Março de 2008

O começo

Quem é o profissional que cria impressos? Por mais simplista que pareça a pergunta, ela já traz uma questão polêmica. Volta e meia se debate a regulamentação profissional da atividade dos designers, o que geraria determinadas regras e reservas sobre essa atividade profissional. Pessoalmente, acredito ser uma discussão pouco produtiva, pois numa economia de mercado as regras tendem a sucumbir diante das forças econômicas e só sobrevivem aqueles que conseguem se inserir de forma eficiente nas cadeias produtivas da sociedade. E aí os publicitários — e, nesse caso, mais precisamente os diretores de arte — estão certamente mais bem posicionados. Porém, isso não nos importa agora; a questão que quero levantar é: os profissionais que elaboram projetos gráficos têm as mais diversas formações, sendo graduados em publicidade, design, arquitetura, jornalismo — e muitos são autodidatas, formados no dia-a-dia de agências, escritórios de design e editoras.

Mas, qual o problema nessas origens tão diversas? Nenhum. No entanto, uma característica se torna perceptível: muitas vezes falta um conjunto de informações técnicas para embasar a elaboração dos projetos gráficos desses profissionais, que durante suas formações tiveram ênfases em outros assuntos pertinentes às suas áreas iniciais. No aprendizado de metodologias de projeto, quando estudamos questões estéticas ligadas à criação, na maioria das vezes trabalhamos as abordagens formais e compositivas separadas dos aspectos técnicos e materiais.

Arte e indústria

A expressão arte e indústria é quase uma epígrafe para a indústria gráfica, e com incontestável grau de eficiência. Porém, se pensarmos isoladamente em cada um desses termos, vamos logo perceber que existe certo antagonismo. Afinal, a arte é uma ação humana tão antiga que nem sabemos precisar exatamente onde começou; tão difícil de definir e avaliar que aceitamos centenas de definições e nenhuma nos satisfaz plenamente. Diante de um objeto artístico que nos sensibilize perdemos a noção da passagem do tempo… quando ouvimos uma música que gostamos, torcemos para que ela não acabe.
Por outro lado, indústria é também uma atividade humana, porém, associada à precisão, marcada pela ausência de dúvidas, pela busca incessante da produtividade, do melhor resultado no menor tempo possível.

Arte e indústria é mais que um slogan ou um chavão. Essa expressão é a síntese de uma das questões centrais na elaboração de um projeto gráfico: “o domínio das técnicas de produção de impressos”. Quem, ao menos uma vez no decorrer da carreira, não passou pela frustração de receber da gráfica um material que, apesar de correto, estava abaixo das expectativas idealizadas?! Uma frase do personagem Giotto (pintor renascentista) extraída do filme Decameron, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, pode nos confortar: “Por que criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce?”.
E de que lado designers gráficos e diretores de arte (enfim, todo profissional que responde pela criação de produtos impressos) estão? Estamos do lado da arte ou da indústria?

A criação, por natureza, exige inconformismo e experimentação. Lembro-me dos versos de Fernando Pessoa no poema Lisboa Revisitada: “Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito de sê-lo”. E quantas vezes designers e diretores de arte são chamados de doidos pelos fornecedores de produtos e serviços gráficos?

Alto lá! Nós não somos exatamente artistas, não temos tanta liberdade de criação como possa parecer… diversas situações na produção de um trabalho acabam limitando nossas intervenções. É mais correto nos apresentarmos como profissionais da linguagem gráfica. Veremos que essa mudança de definição nos ajudará a esboçar uma resposta para as questões colocadas nesse texto. Afinal, como muito claramente percebeu o poeta e crítico Ferreira Gullar: “A existência do mundo é um fato sem explicação e que independe disso. A explicação de sua existência é uma necessidade exclusivamente do ser humano. Valendo-se de diferentes linguagens, o homem tenta explicar o mundo ou aplacar-lhe a presença enigmática, absurda. De certo modo, a linguagem é uma espécie de tradução do sistema de coisas — sem sentido — num sistema com sentido, sistema de sinais”. É mais ou menos isso que tentamos fazer com o projeto gráfico: “explicar o mundo”, mesmo que seja o pedacinho de mundo que diz respeito exclusivamente ao nosso cliente.

E se entendemos o projeto gráfico como a aplicação de uma linguagem específica (gráfica) devemos observar que toda linguagem deve ser aprendida, aprimorada e exercitada. “Cria-se com o trabalho, os domínios dos meios de expressão, a acumulação gradativa da experiência vivida que se transforma em sabedoria técnica”, afirma ainda Ferreira Gullar. Ou seja, toda vez que projetamos um impresso empregando certo suporte, um recurso específico de acabamento, etc., estamos nos exercitando e aprendendo um pouco mais. Toda linguagem possui uma estrutura, elementos que a compõem; quando somos alfabetizados juntamos letras e formamos sílabas, de sílabas construímos palavras, daí frases e das frases textos… Com a gráfica, também precisamos entender sua estrutura (as partes que a compõem), praticar a melhor forma de articulá-las (sempre existem suportes mais adequados para determinados sistemas de impressão, por exemplo), e ao final, comunicar melhor.

E então?

Para designers e publicitários não existe lado a escolher entre arte e indústria. Não existem dois lados. O projeto de um impresso exige a solução, no ato da criação, de seus aspectos expressivos e técnicos. Por sinal, é importante que o criador saiba que suas decisões mais que influenciam, elas determinam toda a cadeia produtiva a seguir. A opção por este ou aquele tipo de acabamento — um verniz localizado, por exemplo — tornará uma empresa mais apta a fornecer o serviço que outra, pois dependendo de sua estrutura produtiva (equipamentos, tecnologia e mão-de-obra) alcançará melhor equação de custo/benefício/prazo.

E então? Penso que dá para afirmar que o bom aprendizado da elaboração de projetos gráficos passa não só pelo domínio dos aspectos estéticos (cromatismo, tipografia, construção de grid, etc.), mas também dos aspectos técnicos (recursos de impressão, acabamentos, suportes, entre outros, e suas implicações na hora da produção). Por sinal, uma metodologia do projeto deve trabalhar com arte e indústria simultaneamente, pois esse é um só fenômeno. E é isso que todos nós publicitários, designers, artistas gráficos, arquitetos e autodidatas precisamos entender e praticar: projetar se valendo da estética e da técnica como uma coisa só.

A cultura material é indispensável para um criador. Um escultor só conhece a potencialidade expressiva do barro quando põe as mãos sobre ele e o modela. Então precisamos incluir, nos nossos estudos de formação profissional, o entendimento das matérias-primas — suportes de impressão, tintas, vernizes —, das características e recursos dos sistemas de impressão, das adequações das modalidades de acabamento. Porém, tudo isso deve ser aprendido pelo criador, mas sempre direcionado ao projeto gráfico. Nunca a técnica pela técnica.

Como lidar com tantos saberes? No dia-a-dia realizamos projetos tão diferentes, que envolvem os mais variados fornecedores, sendo impossível conhecer tudo em profundidade. Isto é fato. Porém, não podemos esquecer que a criação e a produção de um impresso se fazem coletivamente. Com maior ou menor grau, todos influenciam na criação de um impresso. A saída está numa questão de postura diante dos projetos, envolvendo todos — e seus saberes e contribuições — como criadores. Nosso conhecimento deve ser o suficiente para nos permitir conduzir o processo.

 

 

Criação e produção

O conceito do novo portfolio da Talent se viabiliza através da junção de esforços e competências

Talent Nano, o novo portfolio da agência Talent é um bom exemplo de como o projeto gráfico, para alcançar maior expressividade, necessita aliar criação e técnica. O conceito da peça é estimulante: reproduzir, de maneira aproximada, as dimensões de um dos mais inovadores produtos da cultura digital dos últimos tempos — o iPod —, através de um meio tradicional como o gráfico. Os conteúdos da peça são as produções recentes da agência, como anúncios, filmes e materiais promocionais. Léo Macias respondeu pela direção de arte e Diogo Piccinino de Almeida pela produção gráfica. Os problemas não tardaram a aparecer, começando pela dimensão de 3,5×3 cm, idealizada pelo criativo, tornando inviável o acabamento pretendido, que era a lombada quadrada. Foi preciso encontrar um formato que não desvirtuasse a idéia original, porém, permitisse uma produção tecnicamente adequada. Na entrevista a seguir, Diogo — técnico formado pela Theobaldo De Nigris e aluno do curso de pós-graduação em Planejamento e Produção de Mídia Impressa — comenta o desenvolvimento do trabalho.

Como o departamento de produção gráfica encarou o desenvolvimento de um impresso com formato tão pequeno?
Como ponto de partida para a concepção do projeto, o pessoal da criação se baseou em tendências tecnológicas, como a nanotecnologia, que está presente na sociedade e sendo bastante discutida na mídia. Para dar forma a esse conceito, buscamos um formato final bastante reduzido. O projeto inicial era desenvolver uma peça com 3,5×3 cm, mas o acabamento se tornou inviável. De certa maneira o acabamento condicionou a escolha do formato, que acabou ficando em 5,5×4 cm.

Quais as dificuldades encontradas em produzir uma peça com formato “nano”?
A etapa mais importante de todo esse processo foi definir a pós-impressão. Realizamos estudos e pesquisas para escolher o melhor tipo de acabamento, que uma vez definido determinou todos os passos e etapas seguintes do projeto, inclusive a finalização dos arquivos. Devido ao formato e à quantidade de páginas, o uso do hot-melt e de costura foi inviabilizado por restrições técnicas. A solução que encontramos foi refilar o material quase três vezes maior que seu formato final para poder montar os cadernos e, ainda, tivemos de usar uma cola especial, a PUR. A flexibilidade dessa cola permite um manuseio constante, sem danificar o impresso e diminuindo o desgaste do material. Já os outros acabamentos, como a laminação fosca e a aplicação da corrente para chaveiro, tiveram como objetivo protegê-lo, enobrecendo-o e agregando valor, além de facilitar o manuseio.

Como foi o trabalho de finalização dos arquivos, tendo em vista que praticamente todo o material já existia e teve que ser adaptado?
Como se trata de um portfolio de trabalhos da agência, a grande maioria dos arquivos já havia sido finalizada para outras condições técnicas. Originalmente, estavam em formatos maiores, como anúncios de páginas duplas de revistas, porém, acreditamos equivocadamente que bastaria reduzi-los para o formato da peça. Como vários dos materiais foram reduzidos em até 10 vezes, uma margem de segurança para o corte, que era de 1 cm passou, em seu formato final, a apenas 1 mm, correndo sério risco de cortar informações e textos no refile. Assim, tivemos de finalizar novamente todos os materiais apresentados no portfolio, deixando margens mínimas de 3,5 cm, que após a redução evitaram perdas de informação na hora do refile.

E a relação, ao longo do trabalho, entre a criação e a produção gráfica?
Desde o início do projeto houve uma importantíssima e constante troca de informações entre criação e produção. Fomos ativados no momento em que a criação sugeriu a peça. Para chegar nesse resultado, estudamos conjuntamente todas as possibilidades, consultamos diferentes gráficas, apresentamos bonecos com soluções variadas: furado com rebite, grampeado e empastado, e até com capa em acetato. A interação entre criação e produção foi de fundamental importância para alcançarmos o resultado esperado. Nosso objetivo na produção gráfica é buscar soluções técnicas adequadas aos projetos idealizados pela criação, o que de certa forma nos torna co-autores.

Marcos Nepomuceno Duarte é técnico em Artes Gráficas formado pela Escola Senai Theobaldo De Nigris, graduado em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da Unesp e mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde é coordenador do curso de Propaganda, Publicidade e Criação. Leciona no curso de pós-graduação Planejamento e Produção de Mídia Impressa da Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na Edição 60