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Quem serão os líderes do futuro na indústria gráfica Imprimir E-mail
Escrito por Flávio Botana   
Sex, 18 de Junho de 2010

Em seu livro Administração por Processos, Djalma de Pinho Re­bou­ças de Oli­vei­ra apresenta no capítulo ini­cial o que ele chama de Evolução da Administração e das Empresas. Nele são abordados alguns tópicos que mostram um cenário, já nem tão novo assim, que tem sido a referência para os projetos de mudança e evolução das empresas no século XXI. Eis alguns dos componentes desse cenário:

 

  • A globalização, que teve como consequência o acelerado crescimento da concorrência
  • A qualidade, deixando de ser diferencial e passando a ser obrigação
  • Evolução técnica acelerada
  • Ciclo de vida dos produtos mais curto
  • Necessidade crônica de menos desperdício
  • O poder no mundo dos negócios caminhando na direção do consumidor final
  • A discussão entre a validade de ser o maior versus ser o melhor
  • Novos conceitos de responsabilidade ambiental e social

Esse cenário cria novas necessidades para as empresas e seus líderes, pois os clien­tes demandam decisões ­ágeis e com qualidade dos seus fornecedores, assim como uma estrutura enxuta, à medida que não podem suportar altos custos de produção, e pro­fis­sio­nais altamente qualificados para garantirem, além da qualidade necessária dos produtos e serviços, um suporte técnico efi­cien­te que alavanque novas ­ideias e assessore futuros projetos conjuntos. Isto sem falar que as empresas em si demandam um comprometimento absoluto com os resultados, em todos os ní­veis.

Deve-​­se reparar que, apesar de esse livro ser de administração geral, aplica-​­se literalmente à indústria gráfica, que está completamente enquadrada nesse cenário e convive com tais necessidades. Tem-​­se com isso uma comprovação de que o futuro das empresas gráficas tende a ser turbulento e ­cheio de alternativas, exigindo de seus líderes uma competência ímpar para manter as suas empresas sau­dá­veis e prósperas.

O futuro começa agora

Se uma empresa não está preo­cu­pa­da com o seu mercado ­atual e futuro e com sua estratégia, pode estar sendo lentamente consumida pela espiral negativa da comoditização. De que forma?

A empresa tem convivido com um am­bien­te de altíssima concorrência e precisa tomar decisões; a única saí­da que parece viá­vel para enfrentar a concorrência é bai­xar os preços. Só que evidentemente isso leva a uma redução das margens de lucro, o que nenhuma empresa quer. Portanto, é necessário que se tomem novas decisões; o caminho a ser escolhido passa a ser a mudança nas ma­té­rias-​­primas, alterações no processo, afrouxamen­to nos cri­té­rios de qualidade etc.

Essas medidas acabam por afetar em ­maior ou menor escala algumas das características dos produtos (qualidade, durabilidade, consistência etc) e, como não há ou­tra saí­da, testa-​­se o nível de acei­ta­ção do clien­te. Se não hou­ver grandes reclamações, cria-​­se um novo patamar de produtos um pou­co pio­res com preços mais bai­xos. No entanto, se hou­ver reclamações ou devoluções, o processo deve con­ti­nuar até que seja atingido o nível de acei­ta­ção, em que é necessário satisfazer o clien­te com preços bai­xos e com lucratividade. Se isso não é atingido, é o fim.

Mesmo quando tudo dá certo, a satisfação é temporária, pois dali a algum tempo alguém fará um produto tão ra­zoá­vel quanto o seu pelo mesmo preço ou menor (uma vez que ele também está nesta espiral), e o ciclo recomeça com produtos cada vez pio­res, com preços cada vez mais bai­xos, clien­tes cada vez mais in­sa­tis­fei­tos e lucros cada vez menores.

É fácil perceber que quem cai nessa espiral terá sé­rios problemas e tem uma grande chance de desaparecer mais cedo ou mais tarde.

Assim sendo, o desafio das empresas e de seus líderes ­atuais e futuros é estruturar uma empresa sau­dá­vel nesse am­bien­te de constantes mudanças. O líder do futuro precisa gostar de mudanças, entender seu processo e saber tirar pro­vei­to dele. É o exercício contínuo de lidar com incertezas e tomar decisões importantes ba­sea­das nelas! O que deve ser analisado é o processo de mudança que vem acontecendo no mundo, de forma particular no mundo dos ne­gó­cios, de forma mais particular ain­da no mundo da comunicação e, finalmente, entender a mudança na indústria gráfica.

Uma forma interessante de analisar as mudanças é tentar entender que processos, con­cei­tos e valores provavelmente não serão modificados com o tempo e ­quais serão. Em alguns casos, os con­cei­tos permanecerão, mas a forma será ou­tra. Em ou­tros, já se tem uma ­ideia do que possa vir a acontecer no futuro; em mais uma porção, não há pistas. Esse quase-​­cenário é o norte da bússola de orien­ta­ção para os futuros líderes da indústria gráfica.

Vamos analisar pri­mei­ra­men­te alguns desses aspectos sus­ce­tí­veis às mudanças e, pos­te­rior­men­te, tentar apontar algumas características que tendem a ser um fator crítico de sucesso para os líderes do futuro.

Mudanças

1) Comunicação

A comunicação, na essência, não vai dei­xar de acontecer! O escritor con­ti­nua­rá escrevendo para os seus lei­to­res, o jornalista con­ti­nua­rá en­vian­do suas no­tí­cias para o público, o artista con­ti­nua­rá a querer mostrar a sua obra para o público, o publicitário con­ti­nua­rá mandando suas mensagens para os seus clien­tes ou prospects, as empresas e as pes­soas irão se comunicar cada vez mais…

As ten­dên­cias que se consegue perceber no processo de comunicação mostram que ele está sendo cada ver mais personalizado. Busca-​­se falar o que interessa para quem interessa e, além disso, o processo de comunicação está se tornando cada vez mais uma via de mão dupla: a integração entre o emissor e o receptor da mensagem é de uma relevância crescente. O emissor não se contenta mais em simplesmente falar o que pensa; ele quer o feed­back do receptor. E o receptor está sedento para participar do processo.

Mas, se por um lado a comunicação não dei­xa­rá de existir, a forma como ela será fei­ta con­ti­nua­rá a sofrer profundas transformações. Boa parte das bru­tais mudanças tecnológicas a que temos assistido afeta diretamente o processo de comunicação. E, como consequência, todas as empresas que lidam direta ou indiretamente com isso serão afetadas e provavelmente terão de se repensar estrategicamente. Um dos maio­res exemplos disso é a nossa indústria gráfica, que vem se transformando rapidamente, e esse processo não parece que vai perder força nos próximos anos.

Uma boa referência bi­blio­grá­fi­ca sobre o tema é Renewing the Printing Industry: Stra­te­gies and Ac­tion Items for Success, de Joseph W. Webb.

2) Gestão

Num mundo em constante transformação, a gestão está sempre se modificando. As empresas e os líderes precisam se adaptar, e quando as coi­sas parecem se ajei­tar surgem novas mudanças, novos con­cei­tos e se faz necessário começar tudo de novo. “A única coi­sa fixa é que tudo muda”.

3) Mercado

Aqui a lista de transformações é imensa. Apenas para citar alguns tópicos, temos a globalização am­plian­do os horizontes do mercado; o e-​­commerce fazendo com que comprar produtos na nossa cidade ou do ou­tro lado do mundo não seja mui­to diferente; a disponibilização de informações na internet, que mudou radicalmente, por exemplo, o mercado fonográfico; a pirataria; o au­men­to rápido e intenso da produtividade das fábricas, am­plian­do a oferta dos produtos; as crises reduzindo a procura; a imitação in­dus­trial cada vez mais rápida, visível nos produtos eletrônicos, dos ­quais, alguns meses (ou dias) após um lançamento inovador, já se encontram as imitações dis­po­ní­veis no mercado a preços atraen­tes.

Percebe-​­se, como foi citado no início deste artigo, um processo de comoditização dos produtos, que afeta intensamente a forma de fazer ne­gó­cios e a rentabilidade das empresas. Sobre este assunto, recomendo a lei­tu­ra da entrevista de Ricardo Cavallini para a revista HSM Management, edição 78 (Modelo de Negócio Beta).

4) O trato com o meio ambiente

Parece que finalmente o mundo vem percebendo que nossos recursos são finitos. O nosso planeta é único, o nosso corpo é único e precisamos cui­dar deles para o nosso próprio bem e para o bem das próximas gerações.

Essa visão saiu das rodas dos ecologistas e hoje está na mesa dos governos e das empresas. A responsabilidade am­bien­tal e a responsabilidade so­cial estão em destaque nas empresas e passam a ser ponto de referência importante no julgamento dos clien­tes para a escolha das com­pa­nhias para as ­quais eles querem trabalhar.

Na indústria gráfica em particular, o crescimento da importância das certificações é clara demonstração desse movimento. Vá­rias empresas estão engajadas no sentido da obtenção dos selos e, consequentemente, ajustando- se para fazer parte de uma ca­deia produtiva que preserva o meio am­bien­te e as pes­soas de uma forma geral. E isso é mui­to bom!

5) Relações trabalhistas

Cada vez mais se percebe o valor do capital in­te­lec­tual das empresas. Ele deve ser tratado como patrimônio e valorizado como tal. O capital in­te­lec­tual, com a ajuda importantíssima da tecnologia da informação, tem-​­se mostrado o grande intensificador dos di­fe­ren­ciais competitivos das empresas. Com todas essas evi­dên­cias, é ra­zoa­vel­men­te óbvio que se espere uma mudança nas relações trabalhistas de uma forma geral. Os fun­cio­ná­rios dei­xam de vender seu tempo e passam a vender resultados. Mudam os contratos, as remunerações, as relações hierárquicas, a alocação de recursos, o am­bien­te físico e tudo o mais. Imagina-​­se que os próximos anos serão de grandes transformações nessa área.

6) A ordem mundial (política/economia/poder)

A crise de 2008 define, ou exemplifica, claramente o que se quer dizer com transformações no mapa político/econômico/so­cial do mundo. Europa e Estados Unidos em crise, grandes empresas à bei­ra da falência, efei­tos mui­to menores em paí­ses em desenvolvimento (como o Brasil), o crescimento da importância da China nas relações co­mer­ciais, a Índia como destaque em tecnologia.

Nas mãos de quem estará o poder político e econômico daqui a 20 anos? Como isso afetará o nosso país, a nossa empresa, o nosso emprego?

7) Educação

A forma de ensinar e de aprender num mundo que muda a todo instante também tem que mudar. Terão de surgir novos modelos para criar­mos pro­fis­sio­nais que se adaptem a esse mundo. Existe uma apresentação disponível no YouTu­be (e cuja origem desconheço) chamada “Informações que precisamos”, que postei no meu blog (http://flaviobotana.wordpress.com), que reflete bem esse novo am­bien­te de aprendizado ao qual precisaremos nos adaptar: professores e alunos, líderes e comandados, pais e filhos, governantes e cidadãos.

Com todas essas mudanças, é fácil con­cluir que a liderança nas empresas será completamente diferente do que é hoje. O objetivo agora deve ser a procura das características básicas de um bom líder, que con­ti­nua­rão sendo importantes num am­bien­te em constante mutação. Veremos a seguir que, mais do que perfis de liderança, o que precisaremos é de líderes com perfil flexível, com alta capacidade de adaptação a si­tua­ções novas, porém com con­cei­tos fortes. É sobre esses con­cei­tos que vamos falar agora.

O líder do futuro vai saber administrar seu tempo

Uma coi­sa que não vai se modificar no futuro é o fato de o dia ter 24 horas. E, no mundo da internet, sofremos o problema de excesso de informações. Filtrar essas informações, dispensando e não dedicando tempo ao que não interessa, focando no que é real­men­te importante vai ser um ponto de destaque dos bons líderes.

O bom não será trabalhar 15 ou 16 horas por dia. O bom será fazer o que deve ser fei­to no tempo dedicado ao trabalho.

O tempo será o recurso mais escasso a ser administrado pelo líder. Quem sou­ber administrá-​­lo com mais competência será mui­to mais eficaz!

O líder do futuro vai cultivar re­la­cio­na­men­tos

Podemos dizer, em ou­tras palavras, que o líder do futuro vai gostar de gente. Pes­soas de verdade expressando suas opi­niões, discutindo assuntos e dando sugestões. O líder do futuro vai gostar de conversar com seus fun­cio­ná­rios e com seus clien­tes, vai gostar de trabalhar e de incentivar o trabalho em grupo, o trabalho participativo e será um grande ne­go­cia­dor. Em função disso, o grande líder certamente terá que ser um bom ou­vin­te. As pes­soas irão se expressar cada vez mais à medida que encontrarem quem as ouça com atenção. O poder e a in­fluên­cia estarão cada vez mais em quem ouve do que em quem fala.

O líder do futuro vai gostar de tecnologia

Não dá para ser líder num mundo tecnológico sem gostar de tecnologia. Ele estará antenado nas novidades para entender o que acontece e o que vai (ou pode) acontecer. É inevitável.

O líder do futuro con­ti­nua­rá sendo ético

Num mundo em que se res­pei­tam as pes­soas e o meio am­bien­te, a ética vai ser fator de di­fe­ren­cia­ção de lideranças. Não bastará vencer; será necessário vencer em um am­bien­te ético e de forma ética. A visão do sucesso du­ra­dou­ro será cada vez mais fortalecida, em contrapartida ao sucesso ime­dia­to e a qualquer preço.

O líder do futuro será ou­sa­do

Não existe liderança sem decisões. Não existem decisões sem riscos. E, num am­bien­te de mudanças constantes, os riscos serão maio­res.

Quem não tiver estrutura emo­cio­nal e in­te­lec­tual para encarar tal am­bien­te, decidindo com uma boa ava­lia­ção dos riscos e acertando mais do que errando não será um bom líder.

A melhor forma de não correr riscos é não decidir. Só que o fato de não decidir também já é uma decisão. Não tem jei­to. O mundo será mesmo dos ou­sa­dos competentes.

O líder do futuro será estratégico e focado

Um dos grandes segredos do líder do futuro será conseguir pensar grande e pequeno ao mesmo tempo. Verificando tudo o que foi mostrado neste artigo, é fácil perceber que as es­tra­té­gias mudarão mui­to ao longo do tempo. Os líderes precisarão pensar e repensar sempre as es­tra­té­gias, porém não se pode dispersar as ações e alocar esforços onde não é necessário. É preciso foco. Pode-​­se resumir dizendo que serão ne­ces­sá­rias ações focadas mas com visão estratégica, sempre.

O líder do futuro gostará de mudanças

O cenário irá mudar, surgirão novas necessidades, o líder comandará um processo de análise e adaptação ao novo am­bien­te. Implementa-​­se, avalia-​­se, faz-​­se as devidas correções e finalmente atinge-​­se os resultados esperados. E aí começa tudo de novo. Uma coi­sa que o líder precisará praticar hoje e sempre é o desapego. Se o líder passar a gostar de­mais das mudanças por ele implementadas, ini­cia­rá o processo de resistência para as próximas mudanças que serão ne­ces­sá­rias. Deve-​­se sempre lembrar que o resistente de hoje foi o implementador de ou­tros tempos.

O líder do futuro vai ser equilibrado e talentoso

Não dá para negar. Não existirão mui­tas vagas para líderes. Portanto, não haverá vagas para pes­soas me­dia­nas, nem para pes­soas ins­tá­veis e sem controle emo­cio­nal. Para se tornar um líder no futuro, serão ne­ces­sá­rias mui­ta dedicação, mui­ta au­toa­va­lia­ção e uma busca incessante pela melhoria.

O líder do futuro será culto

Ser líder não será uma dádiva! Será preciso ler mui­to, estudar mui­to, atua­li­zar-​­se sempre. E não só em assuntos pro­fis­sio­nais do seu ramo. Ter uma boa cultura geral será um pré-​­requisito para ocupar com destaque uma vaga de líder.

O líder do futuro será honesto e con­fiá­vel

Sem grandes co­men­tá­rios. O mundo só será melhor se o comando estiver nas mãos de seres humanos honestos e con­fiá­veis. Mais do que uma
expectativa, é uma esperança!

Termino este estudo de futurologia com uma frase cujo au­tor desconheço, mas que me agrada mui­to: “O passado já passou e o futuro não chegou ain­da. Só nos resta fazer algo no presente”.

É importante que todos os líderes ­atuais e aqueles que pretendem ser líderes no futuro estejam mui­to preo­cu­pa­dos em entender o que ocorreu no passado, para que possam repetir os acertos e evitar os erros e que estejam também acompanhando e estudando as ten­dên­cias do futuro e suas pro­vá­veis in­fluên­cias no mundo dos ne­gó­cios. Contudo, como “só nos resta o presente”, não vale a pena ficar apenas olhando e tentando entender.
É preciso se preparar para ele.

As fa­mí­lias têm de educar cada vez melhor seus filhos. As escolas têm de formar cada vez melhor seus alunos. As empresas têm de capacitar cada vez mais e melhor os seus fun­cio­ná­rios. E os governos têm de nos dar um am­bien­te sadio e honesto para que tudo isso aconteça.

Flávio Botana é professor de graduação e de pós-graduação na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na edição nº 72