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Fugir da padronização é preciso Imprimir E-mail
Escrito por Aline Valli   
Sex, 18 de Junho de 2010

Claro, muitas vezes o custo de produção de algo mais elaborado é o grande inimigo da inovação e da realização de projetos diferenciados, e a opção por simplificar e continuar a produzir os livros dentro dessa padronização acaba sendo o único caminho viável. No setor dos livros infantis, para sorte das crianças, essa realidade é diferente e os livros ganham muitos recursos interessantes, como pop-​ups, facas especiais, substratos diferenciados, acabamentos mais elaborados e cores, muitas cores.
Mas mesmo diante dessa realidade há exceções, e algumas editoras, com o objetivo de seduzir leitores, apostam em projetos gráficos inovadores mesmo para a literatura geral, procurando trazer para os livros de texto recursos gráficos surpreendentes que dialogam com o conteúdo, aumentam o valor percebido do produto, torna-​o irresistível.
Ousar na produção gráfica não torna necessariamente o projeto do livro mais caro, e os recursos gráficos aplicados também não exigem grandes investimentos ou requintes técnicos das gráficas. O segredo está em fazer uso dos recursos existentes de forma pouco convencional.

 


O livro Flores tem entre os personagens centrais um cientista que descobre um fármaco que causa deformações físicas, além de gêmeos que são encontrados sem braços nem pernas. Essas aberrações do texto foram transferidas para o projeto gráfico: o livro não tem capa e vem dentro de um saco plástico, como se fosse um teste de laboratório. O que seria a orelha do livro foi encartada nesse saco plástico, solta, como se estivesse mutilada também. O livro foi impresso em papel offset 120 g/m² e, por não ter capa, a espinha onde os cadernos estão costurados fica aparente. Suas páginas foram impressas com duas cores: preto para o texto e um Pantone verde bem claro, lembrando o ambiente hospitalar.

O livro Zazie no Metrô é um romance que narra as andanças da desbocada Zazie por Paris nos anos de 1950. O sonho de Zazie é andar de metrô, mas bem no dia em que ela vai realizar o seu sonho o metrô entra em greve, o que a impede de fazer o seu passeio subterrâneo. Para transpor isso à produção gráfica do livro, suas páginas são duplas e, por trás de todas elas, foram reproduzidos cartazes da época, como fragmentos urbanos, fazendo assim quase que literalmente um pano de fundo para a narrativa. O livro foi produzido em papel bíblia e os cartazes são visíveis somente por causa da transparência do papel. Por ter as páginas duplas, o livro foi encadernado com cola PUR. Os textos estão em preto (frente das páginas) e o verso traz as cores azul e vermelho (onde estão impressos os cartazes franceses).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A obra Bartleby, o Escrivão incorpora em seu projeto toda a negatividade do personagem central, um copista num escritório em Wall Street que responde “acho melhor não” para todos os pedidos de seu patrão. O acabamento foi feito com costura tipo Singer, tanto na encadernação das páginas quanto na sua abertura, e o primeiro desafio do leitor é descosturar o livro para chegar ao seu interior. Ao se deparar com o miolo do livro, ele encontra páginas duplas onde estão impressas paredes de concreto que atravessam o livro do início ao fim. O segundo desafio então é rasgar todas as páginas com uma régua de plástico que acompanha a publicação para que possa, então, encontrar o texto. O livro foi impresso a uma cor em papel offset 56 g/m² para facilitar a abertura das páginas e, além do uso da serigrafia, a capa foi produzida utilizando um material chamado junta mecânica. Trata-se de um produto à base de celulose, altamente resistente e normalmente empregado no isolamento de peças em motores de veículos.
Os projetos dos livros apresentados são alguns exemplos que ilustram a fuga da padronização em busca da inovação. E nos fazem um convite para buscarmos novidades usando a criatividade e sem nos perdermos no orçamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aline Valli é produtora gráfica na editora Cosac Naify e técnica gráfica formada pela Escola Senai Theobaldo De Nigris.

 

Texto publicado na edição nº 72