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A influência do design gráfico na atribuição de sentido em notícias de jornal Imprimir E-mail
Escrito por Vivian de Oliveira Preto   
Qua, 28 de Outubro de 2015

Segundo o his­to­ria­dor francês Roger Char­tier, a leitura repousa sobre duas ideias essenciais: a primeira diz que um texto sempre está revestido de sentidos atri­buí­dos pelos autores, editores, tradição e suporte no qual ele chega às mãos do leitor. A segunda reconhece que o texto só existe porque há alguém para lê-​­lo. Dentro dessa perspectiva, podemos dizer que o homem vem desenvolvendo diferentes maneiras de ler, as quais são também con­di­cio­na­das pelas técnicas e tec­no­lo­gias inventadas, inclusive o design gráfico. De acordo com Char­tier, a procura de uma linguagem não verbal permite a comunicação de emoções e do sentido do discurso.
Nesse sentido, o designer tem o papel de ­criar e utilizar tais configurações, de acordo com o público alvo e com o tipo de impresso que está dia­gra­man­do. Por meio de uma perspectiva histórica ele analisa a forma como o público poderia decodificar mais rapidamente as informações. São regras de percepção vi­sual, que remontam aos monges copistas no século XV e adaptadas às necessidades das so­cie­da­des con­tem­po­râ­neas.
Para Itanel Qua­dros, autor do estudo “Uma introdução ao jornalismo vi­sual ou à tessitura gráfica da notícia”, as pes­soas raramente leem o que é desconhecido. A maneira como a página de um jornal é configurada leva o leitor a formular hipóteses sobre o que ele vai ler, com base em convenções que ele reconhece a partir de ex­pe­riên­cias an­te­rio­res na decodificação de textos. A dia­gra­ma­ção deve conduzir o leitor a atingir sua expectativa com relação ao texto. Sem fa­mi­lia­ri­da­de não há leitura. O jornal, assim como o livro, foi se estruturando em função da cultura e do nível so­cioe­co­nô­mi­co de cada público. No decorrer da história foram sendo cria­das pequenas regras de composição que fazem com que o leitor se identifique com o enfoque a que o jornal se propõe.
Essas regras se manifestam na composição vi­sual de textos, imagens, infográficos e do grid construtivo que di­re­cio­na o olhar do leitor. O projeto gráfico no jornal fun­cio­na como um mapa de leitura, e para cada público esse mapa pode ser feito de forma distinta. Por exemplo, um jornal asiá­ti­co possui uma estrutura de leitura totalmente diferente do que os ocidentais estão acostumados.
Mesmo entre os ocidentais há uma diferença grande em função dos valores de cada público.
Com o advento do computador e da internet as formas de leitura estão em processo constante de mutação. As pes­soas desejam ter a informação rapidamente e isso se reflete na comunicação vi­sual de pe­rió­di­cos, principalmente dos jornais. Atual­men­te a maioria das pes­soas não lê a reportagem inteira do pe­rió­di­co, mas faz uma leitura fragmentada, como ao ler uma
página de internet. Essa tendência também aparece nos jornais brasileiros. Os jornais O Estado de S. Paulo e Agora refletem na sua dia­gra­ma­ção a leitura fragmentada e in­fluen­cia­da pelo meio eletrônico.

Das tábuas ao grid
Segundo alguns his­to­ria­do­res, o primeiro jornal surgiu em Roma em 59 a.C., cria­do por Júlio César com o intuito de divulgar para a massa acontecimentos políticos e sociais do governo. Esse jornal era feito em tá­buas brancas e pendurado por toda a cidade. Logo após a invenção dos tipos móveis começaram a circular na Europa boletins informativos, geralmente com caráter sen­sa­cio­na­lis­ta. Mas somente no século XVII é que os jornais tornaram-​­se publicações pe­rió­di­cas. Nessa época sua função era levar as populações a agir de acordo com os interesses das classes dominantes. Como exemplo dessas publicações podemos citar Avisa Re­la­tion oder Zeitung, Gazzette, Nieuwen Tijdingen, entre outros.
Como argumenta Itanel Qua­dros, nos primeiros jornais diá­rios as no­tí­cias eram salpicadas nas páginas. Não havia preo­cu­pa­ção com o desenho e com a interpretação que o leitor teria da notícia. Somente com o passar dos anos é que foram cria­das formas para organizar essas informações. Foi algo muito gra­dual. Aos poucos o jornal se tornou um enun­cia­do. O enun­cia­do, segundo o filósofo e pensador russo Mikhail Bakhtin, é composto de con­teú­dos temáticos, estilo e construção com­po­si­cio­nal. O jornal, por meio desses elementos, assegura a comunicação com o leitor. O designer di­re­cio­na o sentido do enun­cia­do através de experimentações visuais aplicadas ao projeto gráfico. Entre elas podemos men­cio­nar a estruturação do grid de dia­gra­ma­ção e a disposição dos elementos componentes — texto, imagens, in­fo­gra­fias, logotipos etc.
Como o jornal precisa favorecer a comunicação rápida com o leitor, um bom desenho de página é como um mapa, que permite ao leitor navegar por caminhos estabelecidos. Alguns elementos são essenciais para facilitar esse processo, tais como o uso de logotipo, que demarca os pontos de entrada de uma página; os gráficos ou infográficos, que agilizam a percepção da informação ao leitor; e os índices, que fazem re­fe­rên­cias a outras páginas e ajudam a guiar os leitores para mais informações. Kevin Barhunrst, autor do livro Newspaper as Twen­tieth-​­Century Texture, classificou a dia­gra­ma­ção dos jornais segundo os estilos clássico, protomoderno, clássico moderno, alto moderno e tardo moderno. Segundo o designer Alexandre Wollner, considerado um dos principais nomes na formação do design moderno no Brasil, a grande maioria dos jornais alemães utiliza o estilo protomoderno, que aposta na claridade e na ordem da página. Esse modo de dia­gra­ma­ção surgiu durante os anos da primeira guerra mun­dial. Apresenta uma tipografia única para os títulos, combinando caixas altas com caixas baixas e alinhamento à esquerda. A página é vi­sua­li­za­da de cima para baixo, tendo uma estrutura completamente vertical.
Já o estilo clássico tenta assumir uma estrutura mais horizontal de leitura e passa a utilizar caracteres romanos para compor seus textos. Um exemplo dessa vertente é o jornal O Estado de S.Paulo. Voltado para um público mais conservador, esse pe­rió­di­co mudou recentemente seu sentido de leitura. Antes utilizava um grid completamente protomoderno, estruturado na leitura vertical. Com a tendência da informatização, as páginas de abertura passaram a serem estruturadas em quadrados e a leitura na horizontal. No grupo alto moderno o grid também é horizontal e os su­má­rios e índices se po­si­cio­nam em quadrados na parte su­pe­rior da página. Na primeira página as imagens dominam o formato e os cabeçalhos são simples e coloridos. Há muito uso de infografia e pouco texto. A maioria dos jornais americanos se enquadra dentro desse estilo. No Brasil o maior exemplo desse estilo é o Jornal Folha de S.Paulo.
Segundo Qua­dros, os jornais que pertencem ao grupo tardio moderno apresentam muitos gráficos, títulos chamativos e fotos impactantes, porém, todos esses elementos são colocados de forma muito rígida na página, não dando muita liberdade de cria­ção para o designer.

Vivian de Oliveira Preto, pedagoga e tecnóloga em Produção Gráfica, é coordenadora pedagógica da Escola Senai Theobaldo De Nigris.


Referências bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. A estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BARHURST, Kevin G. – Newspaper as Twentieth-​­Century Texture. In: The News Aesthetic. New York: Lawrence Mirsky & Silvana Tropea, 1995. p. 22-​­35.
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: UNESP, 2002.
CHARTIER, Roger; CAVALLO, Guglielmo. História da leitura no mundo ocidental. São Paulo: Ática, 1998.
GRUSZYNSKI, Ana. Retórica Tipográfica e Leitura. In: Produção Editorial
– Congresso Brasileiro de Ciencias da Comunicação, 27., 2004., 2004, Porto Alegre, Anais . . . Porto Alegre: Intercom, 2004. p. 1-​­10.
MEGGS, PHILIP B. History of Graphic Design. 4.ed. Londres: John Wiley Professio, 1998.
QUADROS, Itanel. Uma Introdução ao jornalismo visual ou à tessitura gráfica da notícia. Temas Livres – Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 27., 2004., 2004, Porto Alegre, Anais . . . Porto Alegre: Intercom, 2004. p. 1-​­10.
WOLLNER, Alexandre. A formação do desenho moderno no Brasil. 1.ed. São Paulo:
Cosac & Naif, 2005.

Artigo publicado na edição nº 94