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O novo papel do comprador de produtos gráficos Imprimir E-mail
Escrito por Maíra da Costa Pedro Nogueira da Luz   
Ter, 18 de Agosto de 2015

A quem se di­re­cio­nam as normas gráficas? Aos gráficos ou aos compradores do mercado gráfico? Para poder responder a essa pergunta, há dois anos o Comitê Técnico In­ter­na­cio­nal de Tecnologia Gráfica, ISO/TC 130, criou uma comissão es­pe­cial, a TF3, que possui como principal objetivo encontrar essa resposta. Atual­men­te as normas elaboradas pelo TC 130 são di­re­cio­na­das às empresas que elaboram produtos gráficos, sejam elas fabricantes de tintas, de papel, ou gráficos pro­pria­men­te ditos. Entretanto, a indústria em geral está se organizando, através de as­so­cia­ções ou de forma direta, e começa a exigir que os gráficos atendam às suas necessidades e que sejam desenvolvidas normas que possam ser verificadas por aqueles que compram serviços de impressão. Esse movimento advém da capacitação do próprio comprador gráfico, que começa a entender mais tecnicamente o produto adquirido, especificando melhor o que será comprado. Como essa é uma fase ini­cial, ele precisa de normas que suportem sua especificação e melhorem o diá­lo­go entre ele e a indústria gráfica, pois esse pro­fis­sio­nal não conhece profundamente o processo produtivo. Tal fato foi comprovado durante a última reu­nião do ISO/TC 130, rea­li­za­da de 11 a 15 de maio em Bologna, na Itália, por meio de dois fatos interessantes.

Uma visão internacional: o que querem os print buyers fora do Brasil.
O primeiro fato foi a manifestação de um gerente técnico da Glaxosmithkline, indústria far­ma­cêu­ti­ca inglesa que anual­men­te compra impressos de 400 gráficas ao redor do mundo. Ele participou da reu­nião do grupo de pré-​­impressão que está definindo as especificações para o novo formato PDF. Ele pôde contribuir dando a visão do comprador gráfico no processo e enfatizando como a simplicidade pode ajudar na utilização das normas.
O segundo fato foi a Print Buyers’ Conference. Tentando repetir o evento que aconteceu durante a Ipex 2014, em Londres, em 15 de maio foi rea­li­za­da a conferência ita­lia­na de compradores de produtos impressos. O objetivo foi entender o papel do comprador gráfico na cadeia de suprimento e identificar suas principais necessidades. Participaram do evento figuras como Bruno Arruda Mortara, diretor técnico da ABTG Certificadora; Edwin Collela, ex-​­diretor de mar­ke­ting da Ferrari; e Andrea Casadei, gerente de pré-​­impressão da Tetra Pak. Todos os palestrantes destacaram a importância do uso das normas no processo gráfico e o fato de que hoje não basta imprimir bem — o comprador espera que o gráfico ofereça serviços adicionais. Um exemplo foi mostrado pelo Grupo Sinergia, que iniciou atividades como gráfica, mas percebeu que poderia lucrar mais oferecendo serviços de logística ao clien­te.

ISO/TC 130 Grupo TF3 vs. compradores gráficos: o que eles possuem em comum?
O ISO/TC 130 tem trabalhado ativamente e já desenvolveu cerca de 70 normas, sendo que as mais conhecidas são as normas de processo de impressão (série 12647) e as que trazem requisitos para o arquivo PDF (série 15930). Embora o trabalho tenha sido extenso, ele foi feito de maneira que a consulta e o uso das normas continua sendo complexo para um leigo no processo de normalização.
Para melhor dirimir essas questões, o TF3 apresentou um esquema que contempla todos os atores envolvidos no segmento gráfico e um detalhamento do papel de cada um. Esse detalhamento permitiu analisar quais são os principais atores do mercado e, principalmente, quais são os aspectos e/ou requisitos mais importantes para cada um deles
dentro do processo gráfico:
Comprador gráfico: responsável por comunicar-​­se com o designer sobre a expectativa do clien­te; em alguns processos, comunicar ao impressor alguns parâmetros técnicos; responsável também por aprovar as impressões de validação e provas, aprovar as folhas ok e aprovar o trabalho final.
Designer: responsável por planejar a aparência e/ou estrutura do projeto gráfico antes de ser produzido. O seu papel não é coberto pelas normas ISO/TC 130 existentes.
Operador de pré-​­impressão: pessoa ou organização que permitem a impressão de um projeto gráfico genérico usando um processo de impressão específico.
Preparador de matriz para impressão: pessoa ou organização responsável por preparar as matrizes de impressão nos processos de impressão convencionais.
Impressor: responsável por imprimir o con­teú­do de um arquivo digital em um processo digital ou o con­teú­do de uma forma de impressão num processo con­ven­cio­nal.
Operador de pós-​­impressão: responsável por receber ma­te­rial impresso para ser con­cluí­do.
A figura da página de abertura deste artigo apresenta os atores e a interrelação entre eles.
Nesse contexto ficou claro que os requisitos esperados pelo comprador gráfico no momento de ava­liar o produto adquirido não podem ser facilmente verificados. Ele espera que, ao receber o produto gráfico, possa ser rea­li­za­da a conferência em relação a uma norma pre­via­men­te estabelecida. Contudo não existem especificações padronizadas/normalizadas para o produto final, porque, até o momento, o ISO/TC 130 especificou requisitos apenas para o processo de impressão, embutindo em alguns casos requisitos de produtos. Esses requisitos pree­xis­ten­tes também auxiliariam no momento que ele fosse validar os requisitos do clien­te a serem informados ao gráfico. Isso também gera alguns ruí­dos no momento em que o produto final possui algum desvio relativo ao processo produtivo, mas que não está claramente definido, impossibilitando que o gráfico dialogue com o comprador gráfico de uma
forma mais clara e transparente.

ISO 12647-​­2:2004 versus ISO 12647-​­2:2013
Para exemplificar algumas das dificuldades mais presentes, na antiga versão da norma 12647-​­2, publicada em 2004 com emendas efe­tua­das em 2007, eram definidos cinco tipos de pa­péis, os valores colorimétricos das cores pri­má­rias e as suas to­le­rân­cias durante o processo produtivo. Exis­tiam muitos problemas na aplicação dessa versão, pois, do ponto de vista dos gráficos, havia uma dificuldade muito grande de encontrar pa­péis em conformidade com tal norma, além da ausência de to­le­rân­cias para as cores se­cun­dá­rias e ter­ciá­rias. Já da parte do comprador gráfico, era difícil saber se o produto final estava em conformidade com a norma, pois ao recebê-​­lo ele não pos­suía mais as escalas de controle, não podendo assim efe­tuar as medições, além do que os requisitos definidos eram apenas para o processo, não para o produto final. Também havia o fato de que um mesmo produto poderia ser produzido por diversos sistemas de impressão, questão irrelevante para o produtor gráfico, ao qual o que real­men­te importa é a qualidade e o aspecto vi­sual do produto final. Ele ainda esperava que essa ava­lia­ção fosse feita apenas no produto através de critério de aprovação/reprovação. Adi­cio­nal­men­te, ao se trabalhar com CMYK+, não se tinha nenhuma referência de como efe­tuar a ava­lia­ção da cor es­pe­cial, sendo a única exceção o processo de impressão flexográfico, onde já era feita referência às cores especiais na norma ISO 12647-​­6:2012.
Contudo, na nova versão da ISO 12647-​­2, publicada em 2013, existe uma maior flexibilidade, possibilitando que a gráfica e o comprador de produtos gráficos acordem alguns requisitos que não estejam explícitos na norma. A única exigência é que os requisitos alterados sejam pre­via­men­te acertados. Outra novidade é a inclusão de oito condições de impressão de acordo com oito tipos diferentes de pa­péis e oito descrições dos colorantes. Nesse item também existe a possibilidade de alteração. Caso a gráfica e o comprador optem por uma condição de impressão que seja divergente das apresentadas, eles poderão ainda estar em conformidade com a norma através do estabelecimento de um acordo entre as partes e atendimento dos demais requisitos.

Uma mudança necessária
Não existe previsão de quando serão elaboradas normas voltadas para o comprador gráfico, porque, embora ele tenha um papel decisivo na indústria gráfica, sua presença é pequena no universo da normalização. De qualquer forma, alguns passos foram dados nessa direção e já se tem o entendimento da importância desse ator. Contudo, ele vem utilizando outras ferramentas para que o gráfico atenda suas exi­gên­cias. Uma delas é a certificação. É importante que o gráfico brasileiro esteja atua­li­za­do e atento a tudo que acontece no contexto in­ter­na­cio­nal, porque podem vir a ser pre­cio­sas ferramentas no mercado na­cio­nal. Normalmente, momentos de crises oferecem oportunidades para quem consegue pensar fora da caixa. Torna-​­se fundamental preparar-​­se e adaptar-​­se a esse novo modelo de compra, onde o clien­te será mais exigente, as to­le­rân­cias tendem a ser cada vez menores e o erro não poderá ser barganhado com descontos. Só os mais competentes sobreviverão.

Maíra da Costa Pedro Nogueira da Luz é técnóloga gráfica, especialista em qualidade e produtividade para a indústria de impressão. Atualmente é representante italiana no ISO/TC 130 e coordenadora de projetos internacionais da empresa italiana Wide Gamut.

Artigo publicado na edição nº 93