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“A falsa segurança é muito pior que a insegurança” Imprimir E-mail
Escrito por Tania Galluzi   
Qui, 13 de Agosto de 2015

Antonio Rebouças de França Filho é administrador de empresas e gerente na­cio­nal de vendas da RR Donnelley, em Osasco. Com certificado em Segurança de Documentos e Operações de Pagamento pela Universidade Es­ta­dual do Cea­rá e es­pe­cia­li­za­ção em Logística pela Universidade de Santa Catarina, Rebouças é expert em impressos de segurança, tendo inclusive colaborado com a revisão da Norma ABNT NBR 15540, que cuida de sistemas de segurança. Otimista em relação ao futuro do setor, Rebouças acredita que a certificação não basta. É preciso ajudar o clien­te a trilhar o caminho da segurança.

A RR Donnelley está entre as primeiras empresas certificadas pela ABTG Certificadora com a norma NBR 15540. Qual a importância dessa certificação para a empresa?
Antonio Rebouças – A RR Donnelley foi efetivamente a primeira gráfica brasileira que se certificou com a ABTG na norma 15540. Nós tínhamos um bom histórico de segurança, reconhecido pelo mercado, porém ficava a critério da empresa estabelecer os parâmetros. Quan­do em 2007 saiu a norma 15540, identificamos que seria uma forma objetiva de mostrar ao mercado a diferença entre uma gráfica-​­padrão e uma gráfica de segurança. Percebemos que, com a norma, os cri­té­rios ficavam claros e que com isso o mercado responderia positivamente ao saber que nós não só tínhamos a segurança tra­di­cio­nal da RR Donnelley no Brasil e no mundo, mas que se­guía­mos os preceitos da norma.

Quais be­ne­fí­cios são gerados para a empresa e para seus clien­tes com a adequação à norma?
AR – Uma gráfica de segurança faz tudo o que uma gráfica-​­padrão faz. Mas, para manipular informações sigilosas com segurança e con­fi­den­cia­li­da­de, é necessário que se estabeleçam regras para evitar a concretização dos riscos. Além disso, nossos clien­tes pos­suem exi­gên­cias de governança corporativa em dois aspectos: a garantia da origem das informações e a integridade desses dados. A gráfica é um meio de comunicação muito forte, com vá­rias mí­dias. E a gráfica de segurança precisa trafegar nessas vá­rias mí­dias. Nesses aspectos, os padrões de segurança da 15540 atendem muito bem.

Isso quer dizer que, com o cumprimento da norma, a empresa está garantindo
as duas pontas?

AR – Sim, a garantia da origem das informações e a sua integridade. Quan­do os clien­tes passam dados para a gráfica, ela passa a ser corresponsável pela governança corporativa tanto no tocante à garantia de origem quanto à integridade das informações. Digamos que você seja um clien­te e quer publicar um ma­te­rial técnico e altamente sigiloso que vai ser vendido por R$ 1.000,00. Você manteve sigilo de tudo e quando entrega o ma­te­rial para a gráfica ela coloca-​­o num servidor que não tem a mínima segurança e um fun­cio­ná­rio pode levar inadvertidamente uma cópia para casa, para terminar o trabalho, por exemplo. A segurança tem de estar em todos os lugares. Seja durante o processo informatizado, na manipulação da informação, seja no processo de impressão. Por exemplo, como você cuida de um refugo de um impresso de segurança, uma sobra? A norma contempla isso e dá regras isonômicas, sem margem para interpretações diferentes. A regra é muito clara e a revisão pela qual passou em 2013 deixou-​­a melhor ainda.

Como foi o processo de certificação na RR Donnelley?
AR – O processo foi bastante árduo, em face da necessidade de adaptação aos detalhados requisitos da norma. Como fomos pioneiros, o processo era novo para todo o mercado e foram ne­ces­sá­rios investimentos em in­fraes­tru­tu­ra, em guaritas blindadas, em treinamento, capacitação de pes­soal e dos vigilantes. Mesmo sendo vigilantes, eles não tinham capacidades específicas para as nossas necessidades, e tivemos de treiná-​­los para saberem quais são os riscos no acesso à informação em um processo gráfico. Fazemos grandes operações sigilosas, como o Enem e os selos de 100% dos car­tó­rios de São Paulo, e somos líderes no fornecimento
para car­tó­rios de todo o Brasil.

Quan­to tempo levou esse processo?
AR – Cerca de um ano. Fomos certificados em 2010 pela ABTG Certificadora. Fundamental nesse processo foi a decisão estratégica de investimento, essencial para uma gráfica de segurança.

Com relação à produção, houve aplicação de recursos também na gráfica em si?
AR – Sim. O processo produtivo em uma gráfica tem de fluir da forma mais rápida possível e a integração dos setores é uma premissa tecnológica. Lamentavelmente na RR Donnelley, ao ini­ciar­mos um sistema de segurança, houve a necessidade de compartimentar as ­­áreas, o que acabou limitando os fluxos. Foi preciso alterar lay­outs sem pre­juí­zo da produtividade, tivemos de segmentar e compartimentar cada um dos processos, reduzindo os riscos de vazamentos de informações. Tivemos de separar departamentos, colocar alambrados e controles de acesso entre ­­áreas. Instalamos um número elevado de câmeras, cobrindo entradas e processos. Outro investimento significativo foi na automação dos processos, fazendo com que o homem seja mais um gestor do que um operador, a ponto de em uma prova o fun­cio­ná­rio não ter nenhum acesso ao con­teú­do.

Como a RR Donnelley vê o envolvimento de toda a cadeia de produção de impressos de segurança na disseminação dessa norma?
AR – Não há como dis­so­ciar nenhuma etapa do processo, incluindo a logística, seja quando a matéria-​­prima está vindo para nós, seja quando o produto está seguindo para o clien­te, e muito breve quando o produto acabado estiver indo para o descarte. Esse conjunto não pode ser separado e a cadeia produtiva também não, porque não pode haver vulnerabilidade em nenhum ponto sob o risco de comprometer o processo como um todo. Somos uma corrente e qualquer elo mais fraco tem de ser tratado, porque o elo que rompe é sempre o mais fraco. Temos clien­tes em que colocamos ras­trea­do­res nos produtos. O ma­te­rial já está entregue, mas para que nós, RR Donnelley, tenhamos certeza de que o ma­te­rial chegou ao ponto final, tomamos essa precaução.

Existe também a preo­cu­pa­ção com relação aos fornecedores, como papel e tinta?
AR – A RR Donnelley não coleta preços sem antes o fornecedor passar por um processo de homologação. A empresa é vis­to­ria­da, temos um gestor de segurança que tem um checklist à luz da norma 15540. Se o fornecedor não cumprir os requisitos o parecer do gestor é para que a cotação não seja feita. Isso além dos requisitos técnicos referentes à tecnologia gráfica. O processo de homologação antecede qualquer cotação.

Vocês têm clien­tes que estejam exigindo a norma 15540?
AR – Nem sempre o clien­te sabe o nível de segurança que ele precisa ter, apesar de inúmeros clien­tes já exigirem a 15540. Nos editais, temos uma quantidade imensa de empresas que pedem. O que é lamentável é que os bancos exigem par­cial­men­te a norma, sem efetivamente solicitar a certificação. E aí vem a história do elo fraco. A falsa segurança é muito pior que a insegurança, porque se eu estou inseguro com relação a um fornecedor eu sei que não posso contratá-​­lo. Mas se uma gráfica me diz que é uma gráfica de segurança, contudo de fato não está preparada com todos requisitos ne­ces­sá­rios, o processo fica mais vulnerável, e o histórico disso é o que vemos no mundo da fraude. A fraude existe porque os recursos que foram usados para fazer aquele ma­te­rial foram de­fi­cien­tes. Por exemplo, o pes­soal tenta falsificar selos de cartório e não consegue. Nós já fornecemos há muitos anos. São centenas de milhões de selos fornecidos e a tentativa do fraudador acaba resultando em punição para ele, porque a gráfica evidencia qualquer tentativa. Ao passo que uma empresa que não está dentro da 15540 e nem cumpre a 15368, que é a norma de itens de segurança, pode ter seu produto fraudado e o pre­juí­zo será do clien­te e muitas vezes da so­cie­da­de.
As gráficas de segurança, para cumprirem sua missão de agirem segundo a 15540, devem orien­tar os clien­tes sobre os requisitos mínimos tanto de produtos quanto de processos de segurança. Não basta ser certificado. É preciso orien­tar os clien­tes, indicando que recurso ele precisa colocar em seu produto, que item de segurança deve ser incorporado ao processo produtivo dele, para que ele saiba contratar melhor. Porque nem sempre contratar melhor é comprar mais barato. Muitas vezes, em se tratando de impressos de segurança, o barato sai enormemente caro. Temos inúmeros casos de fraude, em que o produto foi especificado fora das normas de segurança e produzido de forma ina­pro­pria­da, e o resultado foi uma avalanche de problemas para o clien­te e para a própria gráfica.
Para mim há duas coisas em segurança gráfica que o clien­te deveria fazer: exigir a certificação 15540 e vis­to­riar as instalações.

Por que essas vis­to­rias não são feitas com mais frequência?
AR – A RR Donnelley é considerada pelos bancos a empresa mais segura do mercado e foi a primeira a se certificar. Mesmo assim, recebe comitivas para inspeções, sem infringir a segurança. Creio que seria uma boa prática a ser replicada no mercado. O que acontece conosco é que no ato da vistoria mantemos distância dos con­teú­dos. Quan­do alguém quer ver algum detalhe do processo produtivo, levamos para a sala de segurança, que tem centenas de imagens para ele verificar. Não há nenhum impedimento para que uma gráfica de segurança receba uma vistoria. Basta que a inspeção cumpra o que está na norma. O clien­te, mesmo o presidente de uma grande empresa, não pode pegar em produto, não pode atravessar certas ­­áreas. A RR Donnelley só não pode receber gente de fora quando está rodando provas porque seus contratos proibem. Mas, mesmo assim, só alguns setores são vetados. Tenho vistoria direto quando estamos imprimindo o Enem.

Falando agora sobre o mercado de impressos de segurança. A quantas anda no Brasil?
AR – O mercado está sentindo as repercussões de um início de ano bastante recessivo. Ele sofre também pela necessidade de investimento vir na contramão de um momento em que as empresas estão segurando custos. Quem compra também busca preço. Mas, com o apoio da certificação e com o trabalho de consultoria que a empresa de segurança presta aos seus clien­tes, esse mercado passa a ser bastante interessante por dois fatores: ele evita que o clien­te perca dinheiro com fraudes e faz com que ele lucre com o aumento do valor agregado aos seus produtos. Apesar das restrições, quem está conseguindo di­men­sio­nar soluções que ajudem o clien­te a ganhar dinheiro está produzindo muito. Para quem está preparado, há mais demanda do que capacidade produtiva. E quem não se adequou está com alto nível de ocio­si­da­de.

E fora do Brasil? Qual é o cenário?
AR – Os impressos de segurança no mundo, principalmente no que tange à ras­trea­bi­li­da­de, representam um mercado extremamente crescente. E no Brasil idem. Identificação de bebida, de cigarro, de medicamentos, de produtos ali­men­tí­cios, de confecção. Não dá para fazer tudo isso numa gráfica que não seja de segurança, porque arquivos importantíssimos da produção dos clien­tes estão envolvidos em recursos de ras­trea­bi­li­da­de que são produzidos e manipulados pelos fornecedores de impressão.

Qual é a participação da gráfica no processo de ras­trea­bi­li­da­de?
AR – O setor gráfico de segurança garante o sigilo e a con­fi­den­cia­li­da­de das informações. Os arquivos de todo o processo produtivo e logístico que são inseridos nesses selos ou na marcação direta dos produtos precisam de segurança. Por exemplo, um fun­cio­ná­rio não pode sair com as informações de toda a venda de uma grande loja, sob pena de vazar informações. As etiquetas inteligentes, com códigos bidimensionais ou radiofrequência, ou mesmo uma numeração simples, carregam informações sigilosas. Daí a necessidade de ser uma gráfica de segurança. A gráfica de segurança lida, sobretudo, com fluxo de informações. Para você ter uma ideia, na RR Donnelley os arquivos só entram. Depois eles são totalmente des­truí­dos dentro de cri­té­rios técnicos. E todos que trabalham com arquivos o fazem dentro de ­­áreas segregadas, sem acesso à internet ou ao uso de celulares. Enfim, mesmo o mercado de impressos de segurança estando em crise, quem está conseguindo buscar diferenciais, principalmente ligados a sigilo, con­fi­den­cia­li­da­de e, sobretudo, ras­trea­bi­li­da­de, tem serviço. A ras­trea­bi­li­da­de para conectar a indústria com o consumidor final, para garantir a procedência e, muito em breve, a logística reversa, é um campo imenso que já vem
gerando ne­gó­cios vultosos.

Qual a participação do segmento de segurança no faturamento da Donnelley como um todo?
AR – A RR Donnelley tem três fábricas no Brasil. Duas são certificadas na 15540 e outra se preparando para tal. Juntando segurança e tecnologia de informação, essas soluções con­tri­buem com metade do faturamento no Brasil. Eu não consigo dis­so­ciar na RR Donnelley segurança e tecnologia da informação. Vale saber que um formulário de uma companhia de seguro, por exemplo, que não tem informações de segurança agregadas, é produzido na unidade que está se preparando para a certificação. Já um extrato bancário é tratado como um impresso de segurança e vai para a fábrica de segurança.

Quais são os principais de­sa­fios para o setor hoje?
AR – A atua­li­za­ção tecnológica, que já citamos, não só na engenharia gráfica quanto na engenharia de segurança, e a necessidade crescente de velocidade na resposta aos anseios do mercado. Uma dessas demandas refere-​­se a soluções de segurança para os novos meios de comunicação. A gráfica de segurança não entrega só um impresso. Uma vez que faz a gestão das informações, é de sua responsabilidade entregar, por exemplo, uma imagem para que o clien­te do clien­te possa imprimir uma segunda via de uma conta de telefone. A grande vantagem da RR Donnelley é que nós temos uma atua­ção mun­dial, o que facilita a aplicação aqui no Brasil do que começa a ser usado lá fora.

Quais as principais ten­dên­cias no que se refere a produtos e aplicações?
AR – A tendência desse mercado é ser multicanal. A gráfica de segurança não pode se limitar exclusivamente ao papel e tinta. E não estou aqui dizendo que o papel vai acabar. Tenho absoluta certeza de que meus netos vão ver papel tranquilamente. Mas a grande tendência é fornecer soluções de uso fácil, amigável, e respostas rápidas, principalmente voltadas para dispositivos móveis como os smartphones. As gráficas de segurança que não estiverem preparadas para interagir nesse cenário vão sofrer. Elas não precisam parar de produzir papel. De jeito nenhum. A produção de impressos pode até aumentar, desde que esteja integrada ao uso fácil e rápido dos dispositivos portáteis. Eu tenho de estar preparado, por exemplo, para atender um clien­te que deseja en­viar a fatura impressa para os seus clien­tes, mas também disponibilizá-​­la pela internet. Ou que peça para ser avisado quando o produto chegar ao clien­te dele. É possível nesse caso colocar um QR Code, que captura a localização geo­grá­fi­ca do produto por meio do celular, en­vian­do-​­a para o meu clien­te. Eu diria que o papel não deve ser estático, apenas com dados variáveis, tem de ser dinâmico, com a capacidade de interagir com diversos dispositivos. Esse cenário multicanal já é rea­li­da­de na RR Donnelley nos Estados Unidos e está em evolução aqui no Brasil. E quando há a oferta do multicanal, o papel vai junto.

Artigo publicado na edição nº 93