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Wilson Troque. Entre o impresso e o digital. A virtude está no meio Imprimir E-mail
Escrito por Tania Galluzi   
Qui, 29 de Janeiro de 2015

Com 30 anos de ex­pe­riên­cia nos segmentos gráfico e edi­to­rial, Wilson Troque, diretor de Supply Chain do Grupo Santillana Brasil1, é responsável pela direção da cadeia de abastecimento e distribuição do grupo espanhol no Brasil, coo­pe­ran­do em projetos internacionais da companhia, que está presente em mais de 20 paí­ses. Em 2009, o engenheiro mecânico, administrador e mestre em Engenharia de Produção iniciou o projeto de produção de baixas tiragens com o uso da impressão digital no Brasil como piloto para o Grupo Santillana. Hoje, Wilson Troque trabalha na produção de con­teú­dos personalizados em livros impressos. Nesta entrevista, o executivo fala do mercado de livros digitais e do re­la­cio­na­men­to da Santillana com os
fornecedores de impressão.
Em palestra recente sobre o mercado edi­to­rial e o uso das novas tec­no­lo­gias durante o Ds­coop Days Latin America o senhor comentou que as crian­ças, sobretudo as bem pequenas, estão lendo menos em dispositivos móveis. Por quê?
Wilson Troque – Esses números foram apresentados pela principal as­so­cia­ção de editores norte-​­americana, a AAP. A venda de livros digitais para crian­ças caiu 40% em 2013 quando comparada aos resultados de 2012. O mercado de ­ebooks possui uma grande incerteza quanto aos caminhos que seguirá. No começo, como uma novidade, desperta muita cu­rio­si­da­de, e depois vai se adequando aos usos e costumes. Temos que esperar os números de 2014 para ter uma ideia mais clara do que acontecerá com o livro digital infantil.

1 Criado na Espanha em 1960, o Grupo Santillana é o braço editorial do Grupo Prisa, um dos principais conglomerados de comunicação em língua espanhola. Presente na América Latina desde 1964, a Santillana iniciou seus negócios no Brasil em 2001, ao adquirir as editoras Moderna e Salamandra.


Como tem sido a ex­pe­riên­cia da Santillana com livros digitais?
WT – Temos investido muito na cria­ção de livros digitais, o que é diferente de ­ebooks. Os livros digitais não são somente uma réplica do livro impresso. Eles incorporam uma série de recursos visuais e animações que, em tese, promovem um maior nível de absorção dos con­teú­dos. No entanto, ainda não está claro em que medida essa maior assimilação acontece. Os resultados obtidos com esses investimentos ainda não podem ser mensurados separadamente, pois, para as escolas, oferecer con­teú­dos digitais está se tornando um fator qualificador, não um di­fe­ren­cial. Existe uma forte demanda das instituições de ensino por con­teú­dos digitais e se a editora não tiver ma­te­rial digital a escola decidirá por outro fornecedor. Apesar dessa exigência, muitas escolas ainda não estão preparadas para trabalhar com esse novo meio de transmissão de conhecimento. É um processo demorado de aculturamento.

Dentro do segmento edi­to­rial, qual perfil de produto tem evo­luí­do mais rapidamente nessa área?
WT – Os livros de trade (literatura geral) são os que apresentam maior independência do papel em função da disseminação dos tablets e dispositivos móveis de leitura, que popularizaram as novas formas de acesso aos con­teú­dos. Já nos livros educacionais há a questão da escrita, da feitura dos exer­cí­cios. Em todo o mundo o segmento de publicações pe­rió­di­cas é onde temos observado a maior mudança por conta da perecibilidade do con­teú­do. Mesmo assim as editoras ainda estão obtendo um retorno abaixo do esperado com essa nova
forma de venda de con­teú­do.

Durante a palestra do Ds­coop Days o senhor comentou que a melhor saí­da em se tratando da transmissão de conhecimento tem sido o uso das duas mí­dias, digital e impressa. Por quê?
WT – Estudos preliminares têm demonstrado que a combinação da mídia impressa com a digital pode trazer ao aluno um nível de retenção melhor, porque une a maior concentração e di­re­cio­na­men­to pro­pi­cia­dos pelo livro impresso com a amplitude que o con­teú­do digital pro­por­cio­na, com ví­deos, animações, infográficos dinâmicos etc.
Paí­ses que tentaram substituir totalmente o con­teú­do impresso por digital, como a Coreia do Sul, não observaram me­lho­rias significativas no nível de ensino. Por outro lado, paí­ses que pos­suem métodos tradicionais de educação, pautados em excelente formação dos professores, con­ti­nuam tendo os melhores índices no Pisa [Programa In­ter­na­cio­nal de Ava­lia­ção de Estudantes].

A Santillana optou por um parceiro externo para a digitalização de seus con­teú­dos. Qual a razão?
WT – Sim. As editoras atual­men­te não têm condições de digitalizar uma grande quantidade de seus con­teú­dos e existem algumas empresas es­pe­cia­li­za­das nesse segmento.

Esse formato vai con­ti­nuar?
WT – Acredito que sim, pois esse processo é rea­li­za­do por empresas es­pe­cia­li­za­das em publicações digitais, que transformam nossos con­teú­dos para que possam ser disponibilizados em uma livraria, em um CD ou em uma plataforma na internet.

Como diretor de supply chain, como é fazer o meio de campo entre fornecedores de soluções digitais e impressas?
WT – Acredito que nosso maior desafio não é in­ter­me­diar essas empresas, mas sim acompanhar a evolução da tecnologia para dar a resposta que o mercado demanda. Está claro para nós que as soluções digitais têm papel mais importante na am­plia­ção do mercado do que como substituto da mídia impressa. As pesquisas mostram que quanto maior o acesso ao con­teú­do digital, mais se amplia o mercado total das mídias, pois parte dos consumidores não tinha acesso a esses conteúdos.

Na sua opi­nião, a indústria gráfica vem evoluindo na área de logística?
WT – Infelizmente poucas empresas da indústria gráfica conseguem entender o quanto a logística, interna e externa, é fundamental para o aumento da efi­ciên­cia e da eficácia. O olhar da maior parte das empresas está nos equipamentos e não no processo e nas pes­soas. No entanto, acredito que isso é parte da evolução natural das empresas por uma questão de prio­ri­za­ção dos temas a serem aprimorados. O amadurecimento das empresas, forçado pelo aumento da concorrência, as levará a um estágio em que começarão a atentar para essas questões.

Quais são as principais demandas e os de­sa­fios de um grupo como a Santillana no contato com fornecedores de impressão?

WT – O Grupo Santillana é particularmente uma companhia que tenta construir uma relação de longo prazo com os fornecedores. Isso pode ser observado pelo tempo de re­la­cio­na­men­to que temos com vá­rias empresas no Brasil e em outros paí­ses. Alguns dos nossos fornecedores estão há 10, 20 ou 30 anos conosco. Primamos, antes de tudo, pela se­rie­da­de na conduta dos temas ligados ao atendimento dos prazos e à postura na solução dos problemas. Não nos encantamos por equipamentos ou soluções milagrosas, mas sim pelas soluções que atendem nossas necessidades de qualidade
e tempos de entrega.

Artigo publicado na edição nº 91