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A nova ISO 12647‑2 (Parte III) Imprimir E-mail
Escrito por Bruno Mortara   
Ter, 21 de Outubro de 2014

Neste terceiro e último artigo passamos pelos requisitos para as curvas de TVI (tone value increase, antes chamado de ganho de ponto) aplicadas no CtP, a distância máxima entre elas, o registro e uma conclusão de sua aplicabilidade no mercado nacional.

No artigo an­te­rior, segundo da série de três artigos sobre a nova ISO 12647-2, foi mostrada a Tabela 7 da norma, que trás os requisitos de to­le­rân­cias colorimétricas durante a impressão. O que a tabela designa como desvio é a diferença colorimétrica das cores pri­má­rias entre a folha de máquina aprovada pelo clien­te, chamada de OK-​­print, e uma impressão an­te­rior utilizada como referência ou uma prova digital. No outro campo da tabela há o requisito va­ria­ção, que é a diferença entre 68% das folhas impressas e a folha de máquina aprovada pelo clien­te, a OK-​­print.


A primeira dificuldade na implementação da norma é que é preciso um controle de processo muito bem implantado, pois os limites de 4 Delta E 76 e até 3 ΔH para as pri­má­rias, durante uma tiragem, em uma máquina rodando acima de 10.000 folhas por hora, com tiragens cada vez menores, se­riam muito difíceis de serem implementados. A razão disso é que as correções manuais de entintagem feitas no console podem ser rea­li­za­das com sucesso, mas tomam um certo tempo para medição, digitação e estabilização da impressora. Tudo isso a 10.000 folhas por hora limita intervenções efetivas a não mais de uma a cada 10 minutos. Se a tiragem for de 1.000 folhas é praticamente impossível se fazer correções com sucesso, após a OK-​­print, sem causar um grande desperdício de materiais e tempo de máquina. Isso nos faz pensar que a norma tem uma aplicação mais eficaz em equipamento de impressão com um sistema de espectrofotômetro motorizado conectado ao console da máquina, para fazer as correções rapidamente durante a tiragem.
Na cláu­su­la 4.3.4.1 a norma traz os requerimentos importantes para as curvas de ganho de ponto, chamados atual­men­te de TVI. Pela primeira vez as curvas são definidas graficamente e também matematicamente. Isso dá a esta versão da norma a possibilidade de se saber exatamente qual deve ser o TVI a cada ponto da curva tonal, para cada cor de processo, CMYK. Segundo a norma, o aumento do valor de tom deve estar em conformidade com a Tabela 8.


Os valores indicados na Tabela 8 foram cria­dos utilizando-​­se medição densitométrica conforme a norma ISO 5-3 sobre tarja de controle, densitômetro com resposta status “E”, sem polarização, normalmente utilizado na Europa, que produz resultados similares em cia­no, magenta e preto, e diferentes para o amarelo, em comparação com o status “T”, mais utilizado nos Estados Unidos.
A norma indiretamente estimula o uso dos densitômetros para o controle de processo, afirmando categoricamente que, apesar de ser possível e comum a obtenção de valores de TVI através de espectrofotômetros ou dados colorimétricos, eles “tendem a ser diferentes dos valores de tons densitométricos”. Além disso, aponta como referência para esta relação a norma ISO/TS 10128, da qual falaremos em artigo em breve na revista Tecnologia Gráfica.
Mostramos as curvas da Figura 3, ou TVIs esperados, conforme a tabela de curvas naturais, para as impressões nos substratos descritos. As curvas de ganho de ponto podem ser descritas como as curvas de ganho de ponto (TVI), medidas densitometricamente, em folhas impressas. É claro que as impressoras offset têm um TVI “natural”, sempre determinado pelo sistema mecânico, blanqueta, rolaria, tintas, sequência de impressão, solução de molhagem e substrato utilizado. Porém, se observarmos um ganho de ponto sem nenhuma correção feito sobre a medição de uma escala de tons gravada em chapa de forma li­nea­ri­za­da (chapas sem compensação), ele terá uma aparência muito pe­cu­liar:


Para que as curvas fiquem, no nosso exemplo, como a curva “A” da Figura 3, devemos introduzir no sistema de CtP, mais precisamente no RIP (raster image processor), responsável pela rasterização das páginas a serem gravadas em chapa no CtP, valores que façam com que essas curvas “feias e mal comportadas” fiquem belas e bem similares às da Figura 3.
Como exemplo de uso da Tabela 1, se utilizarmos um substrato couché premium de alta gramatura e dentro das características do PS1 (ver a segunda matéria desta série), a condição de impressão é a PC1 (condição de impressão 1), que usa a curva de TVI, de acordo com a Tabela 1, “A”, quando se utiliza retícula AM, con­ven­cio­nal entre 60 e 80 lpc (150 e 200 lpi). Neste mesmo caso, se for utilizada retícula não pe­rió­di­ca (FM ou híbrida), então o tamanho do ponto menor na chapa deve ser de 25 µm e a curva de TVI será a “E”.

Na Tabela 9 da norma há uma descrição numérica dos pontos das curvas para facilitar a sua digitação em sistemas de RIP que gravam as chapas nos CtPs, como “valores-​­alvo” para os TVIs de impressão. Observe que nos 50% os valores são 
sempre inteiros.

Vendo a Tabela 8, os TVIs máximos de 16% para PC1, de 19% para PC2, 3 e 4, e 22% para PC5, 6, 7 e 8.
Na cláu­su­la 4.3.4.2 a norma estabelece o controle sobre as curvas de TVI, em que a tolerância de TVI nos 50% entre uma OK-​­print e os valores especificados pela condição de impressão (PC1 a PC8) não deve exceder as to­le­rân­cias especificadas na Tabela 11. Para a impressão de produção, em pelo menos 68% das impressões, as diferenças entre o impresso e a OK-​­print não devem exceder as to­le­rân­cias de va­ria­ção da Tabela 11.

Entendendo a Tabela 11
A Tabela 11 introduz um novo conceito de curvas de TVI, diferente das versões an­te­rio­res da 12647-2. Primeiro, para cada condição de impressão há somente uma curva de TVI indicada, que deve ser idêntica para CMY e preto (na versão an­te­rior era permitido que o preto fosse até 3% su­pe­rior). Segundo, para todas as cores é regulamentada a va­ria­ção de TVI nas luzes (abaixo de 30%), de até 3%; para os meios tons (30 a 60%), de até 4%; e para as sombras (acima de 60%), de até 3%. Além disso, a Tabela 11 também requer que a diferença (­spread) entre os picos das curvas cromáticas (CMY), que ocorrem normalmente entre 40% e 50% de valor tonal, tenha abrangência menor do que 5% entre a mais alta e a mais baixa.
CURVA MAIS ALTA máximo [(50% cia­no¹ 16%²), (50% magenta¹ 16%²),(50% amarelo¹ 16%²)]
menos
CURVA MAIS BAIXA mínimo [(50% cia­no¹ 16%²), (50% magenta¹ 16%²),(50% amarelo¹ 16%²)]
onde
¹o medido na folha de impressão
²o 50% da curva “A”, ver Tabela 9

No quadro Curvas de TVI de Impressão, a título de exemplo, é apresentado um modelo retirado da vida real, com a dedução do ­spread e das to­le­rân­cias entre uma OK-​­print e os valores especificados 
pela condição de impressão PC1.
Em relação ao registro das imagens impressas, diferenças entre o po­si­cio­na­men­to das imagens das quatro cores de processo, a cláu­su­la 4.3.5 impõe uma tolerância que não deve exceder 0,10 mm, como maior desvio entre duas cores impressas. Para se ter uma ­idéia, o Ma­nual de Ava­lia­ção Técnica de Não-​­Conformidade em Impressão Offset da ABTG/ONS27 tem a mesma tolerância para produtos de alta qualidade e boa qualidade e para os produtos de qualidade básica os valores são de 0,2 mm a 0,3 mm.
No final da norma há um resumo de conformidade, a título de guia para o implementador.

Impressão em conformidade com a ISO 12647-​­2:2013
Para que uma tiragem seja em conformidade com a norma ela deve:
1) Ter uma tarja de controle, em conformidade com a norma ISO 12647-1, po­si­cio­na­da perpendicularmente à direção de impressão, que cubra todas as zonas de tinteiros, usados durante a impressão
2) Cores pri­má­rias chapadas de acordo com 4.3.2.3
3) TVI e ­spread de acordo com 4.3.4
4) O registro esteja dentro da tolerância 4.3.5
5) Um mínimo de 68% das amostras de impressão, se­le­cio­na­dos alea­to­ria­men­te ao longo de toda a tiragem, deve obedecer a todos os cri­té­rios normativos.
Além disso, recomenda-​­se que:
a) Os valores de totais de tinta não ultrapassem aqueles de 4.3.3

Conclusões
Podemos reforçar a conclusão da parte 2 deste artigo onde aparece como pontos fortes desta nova versão da 12647-2 a definição clara do que é uma condição de impressão, uma nova categorização de pa­péis por grupo nos quais podem ser agrupados outros existentes no mercado, a atribuição de um papel couché com b* azulado e tolerância am­plia­da para quatro unidades de b* — o que facilita a inclusão de muitos pa­péis revestidos existentes no Brasil. Além disso, vimos que os controles de TVI se tornaram bastante complexos, reforçando a ideia de que uma produção pode ser controlada em sua va­ria­ção com sucesso se o impressor tiver acesso a um instrumento motorizado e for rápido nas mudanças de ajuste da 
máquina de impressão.
Observamos também que a nova versão da 12647-2 reforça o papel da folha aprovada, chamada de OK-​­print, referência a ser seguida assim como os cri­té­rios de va­ria­ção para a produção em relação às cores e TVI das pri­má­rias.
Se colocarmos na balança as vantagens e as dificuldades adicionais desta versão em relação às versões de 1996 e 2004 percebemos que os es­pe­cia­lis­tas da ISO tentaram atua­li­zar a norma para aplicação na Ásia, Europa e Américas, porém atendendo a necessidades dos mercados mais avançados. No Brasil, a adoção desta versão da ISO 12647-2 dependerá de uma demanda clara do mercado e da disponibilidade de conhecimento e ferramentas entre 
colaboradores, gestores e consultores e auditores.
Economicamente falando, a versão de 2004 apresenta de­sa­fios similares para implantação, e os be­ne­fí­cios colhidos para quem já adotou com sucesso a versão an­te­rior são claros e de rápida adoção. Para quem deve ini­ciar o processo de conformidade procurando um aumento de qualidade e satisfação dos clien­tes é recomendado que comece pela NBR 15936-1, que contém os requisitos da ISO 12647-2:2004 e, depois de estabilizada a produção, começar 
a pensar na adoção desta nova versão.


Bruno Mortara
é superintendente do ONS27 e coordenador da Comissão de Estudo de Pré‑Impressão e Impressão Eletrônica e professor de pós‑graduação na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Artigo publicado na edição nº 90