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A nova ISO 12647‑2 Imprimir E-mail
Escrito por Bruno Mortara   
Ter, 22 de Abril de 2014

As principais novidades da nova versão são os novos papéis em linha com os existentes no mercado, a nova metodologia de medição (condição “M1”), a modificação de curvas de ganho de ponto para refletir o uso generalizado do CtP (em substituição ao fotolito) e as curvas idênticas para as quatro cores de processo.

A ISO 12647 é uma família que contém oito partes: parâmetros e metrologia, offset plana e rotativa com heat­set, coldset ou jornais, rotogravura, serigrafia, flexografia, 
provas contratuais e provas de validação.
A versão 2013 da ISO 12647-2 foi publicada em dezembro passado e, em breve, será traduzida para português. Sendo a mais importante norma da indústria gráfica é importante com­preen­der as novidades trazidas na norma e os impactos sobre o setor, em es­pe­cial para as empresas que já adotaram a versão an­te­rior ou estão em vias de adoção. No cenário na­cio­nal, a versão an­te­rior é coberta pela NBR 15936-1, com certificação executada pela ABTG Certificadora e acreditada pelo Inmetro. Assim que a norma for traduzida e as implicações de sua adoção ava­lia­das, a NBR 15936 será atua­li­za­da.
A primeira publicação da ISO 12647-2 data de 1996 e foi um marco na normalização de processos offset comerciais. Com abrangência in­ter­na­cio­nal, a norma se disseminou e tornou-​­se parâmetro para as transações na cadeia gráfica na Europa, Estados Unidos e Ásia. No Brasil, a indústria gráfica ainda não compreendeu inteiramente as vantagens na sua adoção, na medida em que aumenta a qualidade e a economia na produção gráfica in­dus­trial, tendo a norma, até o momento, pouca adoção. A ABTG e a ABTG Certificadora, apoiando os esforços do ONS27, organismo da ABNT que faz as normas gráficas no Brasil, suportam a produção normalizada, incluindo a normalização até mesmo como categoria no Prêmio Fernando Pini. In­ter­na­cio­nal­men­te a norma está consolidada e é utilizada como requisito básico para exportação de produtos gráficos da China, Tailândia e outros paí­ses asiá­ti­cos. Além das vantagens econômicas, as empresas gráficas devem entender que a ISO 12647-2 é um requisito mínimo in­ter­na­cio­nal­men­te adotado e, como tal, é a condição es­sen­cial para participar 
do competitivo mercado mun­dial.
Uma das razões da boa adoção in­ter­na­cio­nal é que a norma ISO 12647-2 determinou parâmetros iguais para todas as empresas do setor, tornando os resultados previsíveis e repetíveis na impressão offset. Entre os parâmetros estão: substrato, tinta de impressão, sequência de cores na impressão e a reticulagem. Eles têm relação direta com as características visuais da imagem final e são chamados de condição de impressão. Os substratos, nas versões de 1996 e 2004, são chamados de tipos de papel (PT): PT1/2 papel couché brilho ou fosco; PT3 papel LWC (revestido de pouco peso); PT4 papel branco, não revestido; e PT5 papel amarelado, não revestido.
Além do substrato é cru­cial o controle do ganho de ponto, agora denominado TVI (Tone Value In­crea­se), e as cores dos chapados, definidas em termos colorimétricos (Cie­lab) e não em densidade. As curvas de TVI estão especificadas na norma e devem ser seguidas através de ajustes no sistema de RIP (Raster Image Processor) da gravadora de chapas (CtP). Em 2004 houve uma atua­li­za­ção da norma com pequenos ajustes nas cores sólidas (chapados CMYK e RGB) e eliminando re­fe­rên­cias aos fotolitos.
A atua­li­za­ção de 2013 tem como conceito de condição de impressão as variáveis: substrato, pri­má­rias, TVI e balanço de grises. As condições de impressão levam ne­ces­sa­ria­men­te a uma aparência vi­sual previsível, simulável em prova física ou vir­tual e repetível em futuras tiragens. Portanto, veremos que a versão 2013 mantém o espírito das versões an­te­rio­res, renovando detalhes que a indústria global solicitou. Na ISO, o grande debate foi travado entre alemães e norte-​­americanos, pois nos Estados Unidos é utilizada a técnica chamada de G7, ou acerto por balanço de cinzas, que não é ne­ces­sa­ria­men­te compatível com a ISO 12647-2. Os novos dados de caracterização e perfis as­so­cia­dos serão desenvolvidos pela ECI (Fogra 51, 52 . . .) e o ­atual perfil para pa­péis Tipo 1 e 2, couché, ISO Coa­tedV2 será subs­ti­tuí­do pelo PSO Coa­ted V3 (ECI — ver em www.eci.org).

Novas condições de impressão
Os membros da ISO, entre eles o Brasil, decidiram que, como os pa­péis estão cada vez mais carregados com alvejantes óticos (OBA) — o que lhes confere uma aparência “mais branca” que, na verdade é azulada —, isso deveria estar refletido na nova versão da ISO 12647-2. Por isso foram definidos novos substratos de impressão. Com o apoio da indústria papeleira, presente no TC130 como o Paperdam Group, foi possível reunir diferentes tipos de papel em oito novos substratos de impressão, representando mé­dias de substratos similares, de 
diferentes fabricantes.
Uma das principais demandas do mercado era o número limitado de pa­péis nas versões an­te­rio­res da ISO 12647-2, todos com valores Cie­lab que desconsideravam os valores encontrados nos mercados, com cores sempre mais azuladas. O problema enfrentado pelos gráficos era como controlar seu processo com a versão da ISO 12647-2 que desconsiderava os alvejantes ópticos e, no final, os clien­tes observavam seus produtos sob iluminação natural ou ar­ti­fi­cial, que contém UV, e vi­sua­li­za­vam cores diferentes daquelas controladas na gráfica.

Curvas de compensação de ganho de ponto (TVI) para chapas
Em 2012 e 2013 foram rea­li­za­dos testes de impressão e controle de ganho de ponto (TVI) por diversas organizações na Europa e Ásia e se percebeu que, para cada condição de impressão da nova norma, há uma curva de TVI média. Além disso, se observou uma va­ria­ção media de 5% (nos meios tons) entre pa­péis de uma mesma categoria. Isso é reflexo da mudança do fotolito (versão de 1996 e 2004 da norma) para CtP, versão 2013. Por isso, foram cria­das cinco novas curvas de TVI, no­mea­das de A a E, representadas por meio de funções matemáticas, o que garante, pela primeira vez, a obtenção precisa de valores de saí­da para cada valor de entrada.
Um outro avanço em relação às versões an­te­rio­res é a obri­ga­to­rie­da­de da utilização de uma mesma curva para todas as cores de processo (CMYK), numa certa condição de impressão. Isso já era permitido an­te­rior­men­te, porém valores de até 3% acima de TVI, para o preto, foram amplamente utilizados e acabaram gerando bastante confusão 
entre os es­pe­cia­lis­tas.

Harmonização entre visualização e medição instrumental
Em 2009 foram revisadas as normas ISO 3664 de vi­sua­li­za­ção e iluminação, que se aplicam aos consoles de máquinas offset e cabines de iluminação, e a ISO 13655, que estabelece as me­to­do­lo­gias, unidades, geo­me­trias e métricas de medição colorimétrica. As duas normas passam a contar com iluminante com excitação na faixa não visível (UV), resultando em vi­sua­li­za­ções e medições mais precisas, quando feitas sobre pa­péis com elevados teo­res de alvejantes óticos, fato corriqueiro no mercado mun­dial. Nas novas cabines de vi­sua­li­za­ção, compatíveis com a ISO 3664:2009, a iluminação contém uma fonte D50 com con­teú­do UV, e os novos espectrofotômetros, compatíveis com a condição M1 da ISO 13655, também usam fonte D50, com certa quantidade de UV. Isso faz com que pa­péis com alto con­teú­do de alvejante ótico não mais provoquem resultados diferentes, quando vi­sua­li­za­dos e medidos. A ISO 12647‑­2:2013 traz essas mudanças, notadamente ao fornecer valores objetivos de cor, sob condição M1 para base branca (white backing) e para base preta (black backing).
Com a consolidação dos fabricantes de instrumentos, o mercado de espectrofotômetros ficou dividido entre poucas marcas e alguns modelos, sendo que o X-​­Rite iOnePro predomina entre os modelos utilizados. O problema que se apresenta agora está no fato de os modelos iOnePro 1 pos­suí­rem fonte de luz incandescente, M0. No modelo ­atual, iOnePro 2, a fonte de luz foi melhorada para se comportar dentro das to­le­rân­cias de M1 (Iluminante D50 com con­teú­do UV). Ainda é cedo para sabermos quais serão as consequências do uso de diferentes modelos de instrumentos (iOnePro 1 e iOnePro 2 etc) nos controles de cadeias produtivas onde as modificações da norma introduziram mais incerteza instrumental, forçando os compradores e clien­tes a especificarem se utilizaram M” ou M1.
Uma novidade positiva na nova versão é a possibilidade do uso da metodologia DeltaE 2000 para aferir as diferenças de cor. Essa metodologia é bem mais fiel à percepção humana do que a an­te­rior­men­te utilizada, DeltaE 76. Infelizmente os es­pe­cia­lis­tas da ISO legislaram que tal metodologia pode ser utilizada apenas informativamente.
Nessa versão da norma ficou definitivamente requerido um balanço de grises, levando em consideração a coloração do papel. Esses valores podem ser usados durante o processo de calibração.
Gostaria de terminar este primeiro artigo sobre a nova versão da ISO 12647-2 comentando sobre a importância da folha de máquina aprovada, chamada de OK-print. Durante a execução de uma impressão em conformidade, os alvos colorimétricos das condições de impressão devem ser atingidos pela folha aprovada, com tolerância de DeltaE76 de 5. A partir daí, durante a produção, pelo menos 68% das folhas devem estar a uma tolerância de DeltaE76 de 4 para CMY e 5 para K, da folha aprovada, OK-print. Apesar de o Brasil ter se colocado contra essa prática, a maioria dos paí­ses se colocou a favor da OK-print e de dupla tolerância. No cenário pessimista, uma folha impressa em conformidade poderia estar até 9 unidades de DeltaE 76 do alvo da tabela de valores da norma. Isso é bastante preo­cu­pan­te!

Conclusões
Apesar dos problemas apontados, a produção offset é, sabidamente, sujeita a muitas variáveis e o processo é de difícil controle. Se foram melhoradas as condições em relação aos pa­péis existentes no mercado, continua existindo o critério da folha de máquina aprovada, OK-print, que fragiliza, a meu ver, o controle de processo. Se foi feita uma importante atua­li­za­ção de harmonização entre o aspecto vi­sual e a medição por instrumento (espectrofotômetro), a confusão entre instrumentos antigos e novos pode ser problemática, es­pe­cial­men­te nos mercados emergentes.
No próximo artigo vamos investigar os requisitos da nova versão da norma, passo a passo, de forma a entender as etapas ne­ces­sá­rias para a implementação e as principais dúvidas geradas durante o processo.


Bruno Mortara é superintendente do ONS27 e coordenador da Comissão de Estudo de Pré‑Impressão e Impressão Eletrônica e 
professor de pós‑graduação na Faculdade 
Senai de Tecnologia Gráfica.

Artigo publicado na edição nº 88