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Quer entrar no mercado de livros digitais? Capacite sua equipe. Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Qua, 27 de Novembro de 2013

Com formação humanística, José Fernando Tavares cursou Filosofia, Teo­lo­gia e Ciên­cias da Comunicação na Itália, onde viveu por 19 anos, atuan­do como gráfico e dia­gra­ma­dor. Dedicando-​­se ao mercado de livros digitais e às técnicas de produção do formato ePub há cinco anos, fundou, em 2010, em so­cie­da­de com Eduar­do Melo, a Simplíssimo Livros, focada na produção de ­ebooks para editoras, da qual é diretor de operações e responsável técnico. Ministrando cursos de produção de ­ebooks no formato ePub, já formou mais de 700 profissionais. Nesta entrevista, Fernando fala de mercado, dos entraves à disseminação dos livros digitais e das características da produção de um ­ebook.

Muitas pes­soas ainda confundem o livro digital, ­ebook, com o próprio dispositivo de leitura, o erea­der. Como o senhor 
define o ­ebook?
José Fernando Tavares – O ­ebook é um livro em uma plataforma diferente do impresso. Se você pensar, vai perceber que o livro é digital faz tempo. Em todo o processo produtivo, desde o momento em que o autor começa a escrever o texto, passando pela dia­gra­ma­ção, até o instante an­te­rior ao início da impressão, o livro só existe digitalmente. Nessa última etapa, ao invés do arquivo seguir para as máquinas impressoras, ele passa a estar acessível a vá­rias plataformas, tendo a tela ao invés do papel como interface entre ele e o leitor. A diferença fundamental com relação ao impresso é que no livro digital a vi­sua­li­za­ção é flexível. Ela muda conforme o aparelho que está sendo usado. O con­teú­do é consumido em um dispositivo eletrônico, que pode ser um tablet, um smartphone, um leitor de livros digitais, o erea­der, mudando o modo como usu­fruí­mos esse con­teú­do.

A quantas anda o mercado de livros 
digitais no Brasil?
JFT – Devemos estar perto dos 30.000 títulos em português, com um ritmo crescente de lançamentos. Em agosto, a CBL divulgou os números de 2012, e as editoras pesquisadas venderam quase 250.000 livros digitais. Considerando que foram vendidos mais de 400 milhões de livros no ano passado, a parcela de livros digitais ainda não chega a 1%.

Por que o lançamento de novos títulos não avança mais rapidamente por aqui?
JTF – Primeiro, você tem de convencer as pes­soas a comprarem um produto cujo preço médio ainda é alto. Segundo, temos certo “analfabetismo” no que diz respeito à informática. Terceiro, temos dificuldade ou receio em usar o cartão de crédito, que é a forma mais utilizada para a compra de um ­ebook. Além disso, enfrentamos problemas na produção, o que faz com que o número de títulos à venda no mercado seja baixo. Entre outras questões temos a do direito autoral, por exemplo, que está longe de ser resolvida. Os novos contratos entre os autores e as editoras começam a contemplar o livro digital, mas acordos antigos têm de ser revistos. A produção em si demanda tempo. Vá­rias editoras têm problemas em migrar o con­teú­do para a plataforma digital. Faltam profissionais es­pe­cia­li­za­dos. O que muitas vezes acontece é o seguinte: como as editoras pre­veem um retorno pequeno com o livro digital, querem pagar pouco para quem faz a produção, o que desestimula os designers a investirem nessa área. É um círculo vi­cio­so.

Voltando à parte técnica, quais são os principais formatos para os ­ebooks hoje e qual o mais utilizado?
JTF – O ePub é o mais popular, sobretudo nas obras onde o texto prevalece. Ele é flexível, adapta-​­se a qualquer formato, ou seja, um arquivo em ePub pode ser dis­tri­buí­do em todas as plataformas. Em 2012 foi lançado o ePub3, que possibilita maior interatividade, como a inclusão de ví­deos. O ePub3 desfruta melhor das tec­no­lo­gias da web porque usa como base o HTML5. Mas os editores ainda não enxergam vantagens em adi­cio­nar áu­dios e ví­deos por representarem um custo maior. Hoje, só a Apple trabalha com ePub3. Sei que a Kobo deve passar a utilizá-​­lo também até o final do ano, assim como o Goo­gle, com a sua loja Goo­gle Play. As editoras estão usando o ePub e o Mobi, desenvolvido pela Amazon para o Kindle. Além deles, temos o PDF Interativo, que está em declínio, o Folio, da Adobe, voltado para a produção de revistas digitais e que a Adobe está querendo expandir para os livros didáticos, e ainda um formato pro­prie­tá­rio da Apple, o ­iBooks, que usa um soft­ware chamado ­iBooks Author. Este é um formato bem “amarrado” com o sistema da Apple, mas é muito simples de ser operado.

E entre os dispositivos de leitura, qual o mais usado?
JFT – Os dispositivos ba­sea­dos no sistema Android, sejam smartphones ou tablets, são os mais utilizados hoje. Mesmo porque temos uma grande oferta de dispositivos que usam Android. Pes­soal­men­te uso um tablet Android para a leitura, o Nexus 7, combinado a um soft­ware chamado Mantano Rea­der. É um ótimo aparelho. Pena que no Brasil vendeu bem pouco. O iPad é su­pe­rior em algumas funções, como por exemplo con­teú­do interativo. Mas aqui precisamos fazer um adendo. Na rea­li­da­de, mais do que o hard­ware, é o soft­ware da Apple, o ­iBooks, que tem mais recursos. O iPad é pesado quando se quer uma simples leitura. Talvez o iPad mini seja a melhor escolha se queremos ler e ter uma aparelho multifunção. No Brasil, os tablets dominam quando se fala em livros digitais.

Mas como ficam os leitores de ­ebooks como o Kin­dle e o Kobo?
JFT – Eu não os colocaria no mesmo patamar dos dispositivos móveis. Esses leitores são pensados para um único fim, a leitura. Ví­deos, por exemplo, não fun­cio­nam. As pesquisas ainda são in­ci­pien­tes nesse campo, mas se por um lado temos uma queda na venda desse tipo de dispositivo, por outro sabemos que os pro­prie­tá­rios de leitores de livros digitais compram mais ­ebooks. Porém, de fato há mais tablets do que erea­ders no Brasil.

Produzir e converter um livro para a versão digital também são coisas bem diferentes, certo?
JFT – Sim. Chamamos de conversão quando a editora já tem o livro pronto, pensado e dia­gra­ma­do para ser impresso, e quer passá-​­lo para o digital. Esse arquivo vai carregar todos os ví­cios do impresso, como cabeçalhos, cores de fundo, imagens em P/B, limites que não valem para o livro digital. Quan­do estamos falando de um livro digital não podemos mais pensar no conceito de página. Não há numeração fixa. O leitor pode aumentar ou diminuir a fonte como quiser. Um erro muito comum, por exemplo, é manter as mesmas fontes. Post­Scripts antigas não fun­cio­nam bem. A questão é que a conversão pura e simples é mais barata.
Já a produção de um livro digital envolve um projeto gráfico voltado para essa linguagem. Algumas características da versão impressa podem ser mantidas, mas ex­cluem-​­se itens que não fazem sentido no digital e, principalmente, acrescentam-​­se elementos que só existem no mundo digital, como links para ví­deos e imagens. E nem estou entrando no campo da interatividade, que pode tornar o livro uma ex­pe­riên­cia única. Em termos de custo, o investimento na produção de um ­ebook é maior do que na conversão pura e simples, porém é mais barato pensar na produção antes do projeto estar pronto do que depois. Pode ser até mais produtivo fazer a produção do digital primeiro e depois partir para o impresso.

Qual deve ser a primeira preo­cu­pa­ção de uma gráfica que está pensando em oferecer a produção de ­ebooks para 
seus clien­tes?
JFT – Capacitação. Ter em sua equipe alguém que conheça editoração eletrônica e também saiba lidar com códigos de internet como HTML e XML, pode ajudar a 
otimizar o processo.

Com relação ao fluxo de trabalho, o 
que muda?
JTF – Vai acrescentar um setor. Se a gráfica já adota boas práticas na pré-​­impressão terá poucos problemas. O InDesign já prevê a exportação de arquivos para ­ebook e um fluxo ba­sea­do no InDesign fun­cio­na bem, desde que o arquivo tenha sido bem preparado. Por bem preparado eu entendo o bom uso dos recursos de estilo de caractere, de parágrafos, de objetos; a cria­ção de tabelas no modo correto; o uso correto das fontes, sem itálicos forçados; o uso de fontes OpenType ou TrueTy­pe (não as Post­Scripts); o tratamento das imagens feito pelo Pho­to­shop. Enfim, detalhes que deixam até mesmo o trabalho impresso melhor e mais rápido.

Além do InDesign, quais são os outros programas mais utilizados na produção de livros digitais?
JTF – Esse é um dos problemas. Temos poucos soft­wares profissionais nessa área. O principal é o Sigil, editor de ePub de código aberto, utilizado depois do InDesign, para os ajustes finais. Alguns utilizam o Dream­wea­ver, da Adobe, que é uma ferramenta de web design, e o Notepad++, um editor de texto, mas esses não fazem a edição do ePub. Ainda está faltando no mercado um bom programa, pro­fis­sio­nal, que permita a cria­ção de um arquivo ePub de modo fácil e bem feito.

Na Simplíssimo, além da produção de ­ebooks para as editoras, vocês dão cursos técnicos. Como é a procura por 
parte de profissionais gráficos?
JFT – Em geral vejo uma baixa participação das gráficas. A maioria do pes­soal trabalha em editoras ou são designers autônomos, que atendem editoras e gráficas. É um processo novo e ainda não consolidado e é cu­rio­so como, a princípio, o designer se desespera com o fato de as escolhas dele terem de mudar. É preciso pensar no livro líquido, que não tem forma e se adapta aos vá­rios tipos de re­ci­pien­tes, aprender a lidar com as vantagens e desvantagens dos vá­rios dispositivos. Porém, tenho vá­rios casos de designers que enfrentaram essas dificuldades iniciais e hoje estão produzindo os arquivos ePub das principais editoras brasileiras. Com o objetivo de incentivar a formação dos profissionais, estamos organizando uma conferência na­cio­nal sobre produção de ­ebook no formato ePub. A intenção é trazer os profissionais que estão efetivamente trabalhando neste setor e motivar os designers a conhecerem melhor essa tecnologia.

Durante o 4º Congresso In­ter­na­cio­nal CBL do Livro Digital, rea­li­za­do em junho, foi apresentada uma pesquisa rea­li­za­da pela GFK, consultoria es­pe­cia­li­za­da em pesquisas de mercado, sobre o consumo de livros no Brasil. Ela apontou que dos 10 títulos mais vendidos em 2012, todos tinham versões digitais. Contudo, no segmento de didáticos ocorreu o inverso. Dos 10 mais vendidos, nenhum pos­suía versão digital. Isso parece estar mudando. Em agosto, a FTD entrou no mercado de livros digitais lançando a primeira coleção de livros didáticos brasileiros a ser co­mer­cia­li­za­da na iTunes Store. Que impacto isso pode trazer para esse segmento?
JFT – Esse é um dos mercados com maior po­ten­cial e também um dos mais complicados. Certamente é um dos setores que vai jogar para cima o segmento de livros digitais. Por suas pró­prias características, o livro didático se presta muito ao formato digital. A interatividade que o formato digital possibilita é muito útil ao didático. Um dos entraves para o seu desenvolvimento é a indecisão quanto ao formato mais adequado. Enquanto o ePub é uma boa solução para os livros de ficção, de texto, ele não atende às necessidades dos didáticos. O ePub3 está sendo experimentado pelas universidades. Talvez o Folio ou o PDF Interativo sejam uma saí­da, mas ainda não há 
um caminho definido.

Artigo publicado na edição nº 87