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“A impressão em tecido no Brasil está apenas começando” Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Seg, 12 de Agosto de 2013

 

Há 20 anos, Evando Abreu deixou Belo Horizonte para trabalhar no Studio Alfa, nome forte no segmento de fotocomposição no Rio de Janeiro. Alguns anos depois, ele e Paulo Rufino adquiriram a empresa, mudando o foco para sinalização e investindo em equipamentos de impressão para grandes formatos. Em pouco tempo, a empresa saiu do centro do Rio para instalar-se em um espaço maior, um galpão de 1.200 metros quadrados em São Cristóvão, e pos­te­rior­men­te mudou-se para a sede própria no antigo edifício da Fleischmann Royal (­Kraft ­­Foods), com 5.000 metros quadrados.
Acompanhando a evolução tecnológica, o Studio Alfa tornou-se referência no segmento de comunicação vi­sual, po­si­cio­nan­do-se como uma das primeiras empresas no Brasil a imprimir em su­per­fí­cies rígidas como madeira, pedra, vidro, couro e tecido com tecnologia UV. Estilistas e confecções como a Alessa e a Maria Bonita começaram a valer-se da impressão UV para fazer seus pilotos em tecido. A tecnologia ainda não permitia o uso das peças como ves­tuá­rio, mas o resultado era su­fi­cien­te para fazer as primeiras provas e edição de fotos para catálogos.
A partir desses contatos, Evando e Rufino tiveram a ideia de montar uma empresa voltada quase que exclusivamente para a impressão têxtil, munindo-se de equipamentos e corantes adequados. Visitaram feiras internacionais e adquiriram as impressoras DuPont-​­Ichinose, juntamente com equipamentos de pré-​­tratamento, fixação por vapor e acabamento por enxágue. Tudo voltado à impressão em fibras naturais, algodão, seda e viscose, dentre outras. Antes de os equipamentos serem instalados no Rio, Evando e sua esposa, Andrea, resolveram voltar para Belo Horizonte por motivos pessoais. Ne­go­cia­ram sua participação acio­ná­ria no Studio Alfa, com os equipamentos fazendo parte do acordo. Dessa ex­pe­riên­cia de duas décadas nasceu, há seis anos, a Cria­ta Estamparia Digital, es­pe­cia­li­za­da no tingimento e impressão de tecidos para uso têxtil, publicitário e digital. De lá para cá a empresa tem apresentado crescimento consistente, chamando a atenção para a capacidade de seus gestores em tirar o melhor proveito das ferramentas digitais e para as oportunidades da impressão em tecido.

 

Quan­tos fun­cio­ná­rios tem a Cria­ta e qual a ­atual capacidade produtiva?
Evando Abreu – Somos em 32 colaboradores, produzindo cerca de 30.000 metros por mês em média. Essa produção ainda não nos deixa confortáveis. Na verdade, está aquém das nossas necessidades. Após a compra dos novos equipamentos, que serão instalados nos próximos meses, devemos superar os 100.000 metros até o final deste ano.

Em sua palestra no Fórum Brasileiro de Comunicação e Impressão Digital, o senhor comentou que hoje 90% de sua produção vai para a segmento de moda. Quan­do esse mercado tornou-se tão atrativo?
EA – Quan­do trouxemos o projeto da Cria­ta para Belo Horizonte não tínhamos a pretensão de crescer. Fa­ría­mos as pequenas produções digitais, deixando as maiores para o pes­soal de São Paulo, que já atendia esses clien­tes. Então, o desenho que fizemos foi para trabalhar exclusivamente para o segmento de moda. O primeiro ano foi um desastre e vimos que estávamos no caminho errado. O processo de impressão para fibras naturais é dis­pen­dio­so, arriscado, requer muito conhecimento técnico. Não era nada parecido com o que tínhamos trabalhado até então na área de sinalização. Vimos, após um ano, que, se a empresa não crescesse e buscasse o seu espaço, concorrendo com as empresas existentes, não iría­mos durar. Adquirimos outro equipamento para impressão em fibras, dobrando a nossa produção neste segmento, e também voltamos nossa atenção para a impressão em po­liés­ter com outros tipos de equipamentos, mas ainda nessa época trabalhávamos exclusivamente para a área têxtil de moda. O crescimento contínuo nos forçou a mudar de uma área de 600 m2 para os atuais 1.800 metros quadrados.
O segmento têxtil com baixa produção não é rentável, pois fun­cio­na como uma commodity, com preços pré-​­fixados por metro li­near, rea­jus­ta­dos para baixo, estação após estação. Refizemos o perfil da empresa e hoje, além da área têxtil que ainda é o nosso carro-​­chefe, atendemos com volume crescente as ­­áreas de decoração, pro­mo­cio­nal e publicidade. Essas ­­áreas permitem trabalhar “por projetos”, com maior valor agregado. Também desenvolvemos produtos pró­prios pa­ten­tea­dos, como a Lona Têxtil, que hoje é utilizada pela Petrobras nas faixas aé­reas dos postos de gasolina, e o AdTex, tecido autocolante para revestimento de paredes, além do RevTex, para revestimento de mo­bi­liá­rio.

Corrija-​­nos se estivermos errados: os quatro processos com os quais a Cria­ta trabalha são impressão direta com corantes, impressão direta com tinta à base de látex, impressão direta por sublimação e impressão em papel para sublimação. Qual deles é o mais utilizado pela Cria­ta?
EA – Está correto. Neste momento, o que mais usamos é a impressão em papel para sublimação. É o processo mais amigável de impressão têxtil, pois permite que você imprima primeiro em papel para transferir depois, mudando os tecidos de acordo com a sua necessidade. Na impressão direta no tecido, seja qual for o processo, a troca da mídia é bem mais complicada, onerosa e não permite tiragens mínimas, como de um metro, por exemplo. Além disso, caso você cometa um erro, já perdeu o tecido, enquanto no papel, se puder revisar, vai perder apenas essa mídia, além da tinta e do tempo, claro.

Quais são as principais características de cada um desses processos?
EA – Esses processos são definidos pela sua utilização final: ves­tuá­rio, decoração, pro­mo­cio­nal, publicidade. A Cria­ta, como empresa es­pe­cia­li­za­da na impressão em qualquer tipo de tecido, se obriga a ter todas as opções. Para fibras naturais (algodão, lycra, viscose, seda) é preciso usar a impressão direta com corantes e lidar com suas vá­rias etapas: pré-​­tratamento do tecido, impressão, vaporização e acabamento por enxágue, incluindo o ama­cia­men­to para que o tecido volte à sua condição natural, ou seja, sem resquícios perceptíveis ao toque. Os equipamentos de impressão látex têm a grande vantagem de imprimir diretamente (sem pré-​­tratamento) sobre vá­rias mí­dias além de tecido, incluindo lonas e vinis, e também em tecidos como algodão, voile etc. A Cria­ta utiliza um equipamento de 3,20 metros para imprimir cortinas, materiais para revestimento de sofás e mí­dias para moda e decoração, como o corino. A impressão direta no tecido, com corante dispersivo ou pigmento, é mais di­re­cio­na­da para quem trabalha com poucos tipos de tecidos na confecção de banners e bandeiras, entre outros produtos. Imprime-​­se direto no tecido e o acabamento é por termofixação ou calandragem. Não se consegue imprimir pequenas metragens, com dois, três ou cinco metros, uma vez que é necessário colocar o tecido ten­sio­na­do de ponta a ponta.
Em função das diferenças entre processos e produtos, acabamos crian­do três empresas dentro da Cria­ta: a Cria­ta Têxtil, que imprime para o segmento de moda; a Cria­ta Decoração, produzindo tecido autocolante, revestimento de mo­bi­liá­rio e cortinas; e a Cria­ta Pro­mo­cio­nal, que imprime faixas para a Petrobras, banners, ce­ná­rios etc.

Qual tem mais chance de crescer?
EA – Apostaria nas ações da Cria­ta Pro­mo­cio­nal, depois na Cria­ta Decoração e por último na Cria­ta Têxtil. A Cria­ta Pro­mo­cio­nal, com equipamento látex e papel para sublimação, vai atender ao mercado que o gráfico já conhece: agên­cias de publicidade, empresas de mar­ke­ting etc. Esses clien­tes têm a mesma linguagem, trabalham com todas as modalidades de impressão digital, em resumo, dão menos trabalho de finalização. A Cria­ta Decoração terá que atender um segmento complicado, com os mesmos equipamentos, mas com comunicação diferente da área gráfica tra­di­cio­nal. São clien­tes que não estão acostumados a ­criar, finalizar. A Cria­ta Têxtil exige dedicação exclusiva, com pes­soal técnico que envolve não só conhecimento digital, mas também química e processos de finalização têxtil. Contudo, acreditamos que o po­ten­cial de crescimento para as três ­­áreas é excelente, pois o segmento de impressão em tecido, com todas as suas nuan­ças, está apenas começando no Brasil. Voltando à Cria­ta Pro­mo­cio­nal, quase toda a comunicação vi­sual, atual­men­te feita em lona vinílica, será trocada por impressão têxtil pelo simples fato de ter melhor vi­sual e também ser ecologicamente correta. Comece a observar nos shopping centers. Já não se está mais usando lonas vinílicas. Em termos de tecnologia, apostaria minhas fichas nas tec­no­lo­gias de sublimação e látex.

Quais são os equipamentos que a Cria­ta está recebendo neste ano?
EA – Investimos alguns milhões em impressão em fibras naturais para a área de moda. Adquirimos um equipamento in­dus­trial, a Kappa, da Durst, que produz de 250 a 500 metros por hora. Isso nos dá uma capacidade produtiva para esse segmento de 60 a 80.000 metros por mês. Como disse an­te­rior­men­te, trata-se de uma commodity, portanto precisamos imprimir volume. Ao mesmo tempo, estamos comprando novos equipamentos para impressão sublimática, di­re­cio­na­dos para as ­­áreas de decoração e para o mercado pro­mo­cio­nal. A nossa capacidade ­atual de produção está quase toda tomada pelo segmento têxtil e por esse motivo temos que investir para am­pliar e atender esses segmentos.

Na indústria gráfica tra­di­cio­nal, o acabamento sempre foi um gargalo na produção. Isso também acontece na impressão digital em tecido? Quais são os principais de­sa­fios na gestão da produção dentro da Cria­ta?
EA – Na área têxtil não existe acabamento como se fosse uma gráfica. Imprimimos o tecido que recebemos em um rolo e o entregamos da mesma forma. Na área de decoração exige-se o refile do tecido, mas também não se trata de um grande gargalo, até mesmo porque a nossa produção ainda é pequena se comparada ao têxtil. No setor pro­mo­cio­nal temos problemas de acabamento dependendo do volume. Já fizemos uma bandeira de 800 metros quadrados com pedaços que foram costurados. Banners exigem refilo, bolsas com costura para colocação de madeira e ponteira. Enfim, é gargalo. Existem equipamentos que simplificam tudo isso, como a linha de corte da Esko que estamos adquirindo.

Com relação à mão de obra, há oferta de profissionais no mercado?
EA – Nós treinamos o nosso pes­soal. É um procedimento que adotamos desde o Studio Alfa. Não buscamos profissionais de outras empresas. Preferimos formá-​­los e fazemos de tudo para mantê-​­los em nossa empresa, com bom am­bien­te e bons sa­lá­rios. Nossa rotatividade é muito pequena e até hoje, nestes seis anos, não perdemos nenhum colaborador para os concorrentes. A mão de obra está escassa atual­men­te no Brasil. Por isso não somos muito exigentes na contratação. Não exigimos diplomas ou alguma formação técnica, treinamos todos em casa. Temos poucos fun­cio­ná­rios. Talvez quando atingirmos a nossa meta de crescimento e produção a coisa se complique um pouco.

O senhor acabou de visitar a Fespa 2013, rea­li­za­da em Londres no final de junho. O que achou da feira no geral? Pode compará-la a edições an­te­rio­res?
EA – A melhor Fespa foi a de Barcelona, no ano passado. Até então as Fespas eram exclusivamente voltadas para a área de sinalização ou impressão de grandes formatos. Naquela edição foram apresentadas novas máquinas de impressão têxtil para fibras naturais com alto desempenho de velocidade e qualidade. A Fespa Londres 2013 foi pequena, mas apresentando me­lho­rias para esses equipamentos, além de novidades em corantes que vão nos auxiliar 
no processo de impressão.

Quais tec­no­lo­gias chamaram mais a sua atenção na feira?
EA – Assim como na indústria gráfica, a qualidade de impressão já é quase homogênea. No nosso caso não existe equipamento que imprime melhor ou pior, e sim com maior velocidade, mantendo a qualidade em 100%. O que pude notar são as mudanças nas ferramentas, ou seja, nas cabeças de impressão, que vão permitir menos trocas, extremamente dis­pen­dio­sas. O nosso segmento é altamente perecível. Somos obrigados a participar de diversas feiras por ano, ob­via­men­te bem escolhidas, para não perder atua­li­za­ções, pois tudo acontece muito rápido no mundo digital.
O que mais me chamou a atenção na feira foi a preo­cu­pa­ção dos fabricantes de tintas em minimizar processos de impressão. Talvez em pouco tempo não seja mais necessário o pré-​­tratamento químico para imprimir em fibras naturais.

Uma de suas afirmações de maior repercussão durante o Fórum Digital foi a recomendação para que as empresas evitem trabalhar dentro do conceito de metro quadrado ou li­near. Por que essa prática deve ser evitada? O que tem sido feito na Cria­ta para fugir desse padrão na apresentação de seus custos?
EA – Quis dar um conselho. Infelizmente no segmento de moda o valor é por metro li­near, mas procuramos fugir disso nos mercados de decoração e nos produtos promocionais para eventos, cenografia e publicidade. Tentamos obter do clien­te mais informações sobre o uso do nosso ma­te­rial com o objetivo de cobrar adequadamente, de acordo com o projeto. Estamos implantando programas de gestão, com módulo para formação de preço, nos quais todas as variáveis são computadas para a elaboração do preço final.


Texto publicado na edição nº 86