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Tetra Pak Brasil, referência mundial em reciclagem Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Seg, 11 de Março de 2013

Engenheiro químico formado pela Unicamp, com mestrado em Engenharia Am­bien­tal, Fernando von Zuben comanda a área de meio am­bien­te da Tetra Pak no Brasil, hoje referência mun­dial. Ele iniciou sua carreira na Monsanto, passando pela Shell e Nestlé, onde ocupou cargos nas ­­áreas de pesquisa e desenvolvimento, inclusive de embalagens e produção, e sempre esteve envolvido nas atividades da área am­bien­tal. Em 1995 foi convidado pela Tetra Pak para ­criar a gerência de meio am­bien­te. Foi transferido para a Sué­cia em 1999, atuan­do na área atual­men­te denominada “Global Environment”. Retornou ao Brasil em 2002, quando assumiu a diretoria de meio am­bien­te.

Informações da própria Tetra Pak dão conta de que 28% da produção brasileira de embalagens Tetra Pak é reciclada. Qual é esse per­cen­tual na Europa e nos Estados Unidos?
Fernando von Zuben – Na Europa 34% do volume da produção é reciclado e nos Estados Unidos esse montante representa 8%.

Qual país lidera o ranking de reciclagem de embalagens Tetra Pak? Quais fatores determinam esse resultado?
FZ – Os paí­ses que lideram o ranking são Bélgica e Alemanha, justamente por terem um sistema de coleta seletiva bem estruturado.

O que a Tetra Pak tem feito para elevar esse per­cen­tual no Brasil? Há alguma prática que possa ser trazida de fora para cá?
FZ – Visando ­criar alternativas para reciclar a embalagem longa vida, a Tetra Pak investiu no desenvolvimento de tec­no­lo­gias que transformam os materiais em caixas de papelão, telhas e placas para construção civil, canetas, vassouras etc. Atual­men­te, cerca de 33 empresas brasileiras reciclam os materiais das embalagens da Tetra Pak, gerando empregos e renda em uma cadeia de reciclagem que cresce ano a ano no País. No Brasil, a área de meio am­bien­te da Tetra Pak se tornou referência mun­dial, principalmente pelo desenvolvimento destas tec­no­lo­gias de reciclagem. Uma delas é a primeira tecnologia do mundo capaz de separar as camadas de plástico e alumínio das embalagens. O conhecimento desenvolvido no País está sendo compartilhado com as outras unidades da empresa no mundo e já é considerado um dos principais desenvolvimentos ambientais da história recente. Além disso, a Tetra Pak foi pioneira na ação de aproximar as coo­pe­ra­ti­vas de catadores e as empresas recicladoras. Com o objetivo de aumentar a quantidade de ma­te­rial dessas ini­cia­ti­vas e qualificar o trabalho, a Tetra Pak também promove a doa­ção de materiais e prensas para as coo­pe­ra­ti­vas, além de acompanhá-​­las para que consigam efetivamente es­coar o ma­te­rial que recebem. Essa ini­cia­ti­va contribuiu de forma significativa para que muitas consolidassem o seu trabalho.

Pensando no Brasil, quais são os principais de­sa­fios para elevar a reciclagem?
FZ – A reciclagem de embalagens longa vida pós-​­consumo gera emprego e renda, além de promover a conservação am­bien­tal e a cidadania. No entanto, atual­men­te os maiores obstáculos na cadeia de reciclagem são promover a coleta seletiva nos mu­ni­cí­pios e fazer o ma­te­rial separado pelas coo­pe­ra­ti­vas chegar aos recicladores, seja por falta de ações do poder público, seja por falta de informação e participação da população. Desde 2002, a Tetra Pak, afora as ações de apoio a prefeituras e coo­pe­ra­ti­vas, rea­li­za um trabalho de campo para fomentar a cadeia de reciclagem de suas embalagens.

Como a Tetra Pak vê a nova Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos? Qual o papel da empresa nesse cenário?
FZ – A Tetra Pak é uma das maiores apoiadoras da Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos, já que desde muito cedo tivemos a coragem de inovar, investindo em uma liderança forte na área am­bien­tal. O desenvolvimento de ações para fomentar a reciclagem de suas embalagens tem sido um dos principais focos da Tetra Pak nos últimos anos. Elas envolvem todas as partes da cadeia: a cons­cien­ti­za­ção da população para fazer a separação dos materiais recicláveis em suas re­si­dên­cias, o fomento às ini­cia­ti­vas de coleta seletiva, a orien­ta­ção e cessão de equipamentos e ferramentas de trabalho às coo­pe­ra­ti­vas de catadores, o acompanhamento da destinação de ma­te­rial aos recicladores e o desenvolvimento de tec­no­lo­gias para transformar as embalagens em novos produtos.

No Brasil, quais são os principais subprodutos da reciclagem das embalagens Tetra Pak? Os três materiais que a compõem são igualmente aproveitados?
FZ – A embalagem longa vida é formada por três materiais: papel, alumínio e po­lie­ti­le­no. A primeira etapa da reciclagem consiste em separar o papel dos demais elementos. O trabalho é feito em um equipamento denominado Hidrapulper, uma espécie de grande liquidificador que solta as fibras de papel com água. Elas seguem para processamento, onde se transformam em bobinas para a fabricação de caixas, tubetes (utilizados em bobinas de papel nas duas fábricas da Tetra Pak) e papel para impressão, feito a partir da mistura de uma porcentagem das fibras recicladas com papel sulfite. O que sobra é uma massa de plástico e alumínio. O ma­te­rial é enfardado e encaminhado para empresas que irão transformá-lo em produtos como telhas, placas, pellets (grãos) para injeção ou para laminação de peças plásticas e parafina, recuperando o alumínio na forma metálica. No primeiro caso, a mistura é triturada e prensada até a eliminação de toda a água. Em seguida, o ma­te­rial é fundido e depois res­fria­do para, então, adquirir o formato desejado: telhas ou placas para construção civil. Essas peças vêm conquistando um mercado cada vez maior, graças a sua alta durabilidade e seu valor agregado. Outra vantagem é que elas são leves, flexíveis e pos­suem boa absorção acústica. No caso das telhas, elas são mais resistentes à degradação e oferecem melhor conforto térmico em comparação com as telhas comuns; o am­bien­te fica mais confortável, uma vez que o alumínio reflete os raios infravermelhos do sol, diminuindo a absorção de calor. Já a técnica de peletização foi desenvolvida no Brasil pela Tetra Pak e vem sendo aplicada desde 1998. A transformação da mistura de plástico e alumínio em grãos permitiu am­pliar a forma de utilização do ma­te­rial, que hoje é matéria-​­prima para a fabricação de peças plásticas, como vassouras, bolsas, sacolas, embalagens, canetas, capas de cadernos, pastas e objetos de escritório, entre outras. Hoje, mais de dez empresas fabricam peças a partir dos pellets, que, por sua vez, são produzidos por duas recicladoras no Estado de São Paulo.

A Tetra Pak tem algum controle sobre os produtos fabricados a partir da reciclagem de suas embalagens?
FZ – Todo o conhecimento e técnicas de reciclagem desenvolvidos são repassados para empresas parceiras; no entanto, a Tetra Pak não tem qualquer controle sobre a cadeia.

O uso de plástico verde desenvolvido a partir de cana-de-​­açúcar nas embalagens Tetra Pak será am­plia­do? Outras ma­té­rias-​­primas estão sendo desenvolvidas?
FZ – Em dezembro de 2009 a Tetra Pak assinou um acordo com a Braskem, petroquímica líder na América Latina e sua fornecedora global de plástico, para ser a primeira empresa fabricante de embalagens cartonadas para alimentos líquidos no mundo a utilizar o po­lie­ti­le­no verde de alta densidade, produzido a partir da cana-de-​­açúcar. A fábrica da Braskem começou a ser cons­truí­da no Rio Grande do Sul em 2009 e iniciou suas atividades em 2010. A partir de fevereiro de 2011, a Tetra Pak passou a utilizar o ma­te­rial na produção de tampas plásticas, e, em um futuro próximo, talvez seja possível inseri-lo na própria composição das embalagens, uma vez que a Braskem planeja desenvolver projetos para fabricar também o po­lie­ti­le­no verde de baixa densidade, empregado nos filmes plásticos que integram as camadas internas das embalagens da Tetra Pak. O processo de fabricação do “plástico verde” da Braskem contribuirá para a redução global das emissões de gases de efeito estufa em relação aos processos tradicionais e para a formalização do trabalho na área rural. Além disso, o po­lie­ti­le­no será obtido de uma matéria-​­prima renovável, reafirmando o compromisso da Tetra Pak de buscar sempre a utilização de fontes renováveis. Cada tonelada de po­lie­ti­le­no verde produzida elimina 2,5 toneladas de gás carbônico (CO₂) da atmosfera.

A nova embalagem Tetra Pak que pode ser desmontada já está em uso no Brasil? Em caso negativo, qual a perspectiva para que isso aconteça?
FZ – A embalagem Tetra Evero com topo removível ainda não foi lançada no País e por enquanto não há previsão de lançamento.

Quais os principais projetos da Tetra Pak na área de reciclagem para os próximos cinco anos?
FZ – No Brasil, as práticas de gestão da Tetra Pak demonstram que é possível con­ci­liar sucesso em­pre­sa­rial com uma postura so­cial e am­bien­tal­men­te responsável. A empresa pretende dar continuidade ao trabalho fundamental de fomento às ini­cia­ti­vas de coleta seletiva das embalagens pós-​­consumo, em consonância com a Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos, ao desenvolvimento de tec­no­lo­gias de reciclagem e sua transferência para empresas recicladoras, à educação am­bien­tal e à busca pela utilização de fontes de energia limpas e ma­té­rias-​­primas renováveis.

Texto publicado na edição nº 85