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Enganando o cérebro: o segredo das imagens anaglíficas Imprimir E-mail
Escrito por Anderson Carlos de Souza Macedo e Julio Tadeu de Figueiredo   
Seg, 03 de Dezembro de 2012

Um recurso bastante utilizado no cinema ­atual é o efeito de três dimensões produzido a partir de imagens anaglíficas. Segundo o ­Houaiss, anáglifo é uma figura obtida por dupla imagem, cada uma de um ponto diferente, impressa em duas cores contrastantes, que produzem, me­dian­te o uso de óculos especiais, a ilusão de profundidade, de relevo. As técnicas de produção de imagens es­te­reos­có­pi­cas (3D) existem há quase dois séculos; entretanto, muitos desconhecem que algumas delas permitem a impressão, podendo aplicá-​­las, também, em peças gráficas. Este artigo introduz conceitos básicos de imagens anaglíficas, assim como alguns exemplos de imagens 3D produzidas utilizando ferramentas de soft­ware do mundo gráfico.
As imagens es­te­reos­có­pi­cas surgiram na primeira metade do século XIX, junto com o surgimento da fotografia, sendo que o efeito de profundidade era vi­sua­li­za­do através de um aparelho denominado es­te­reos­có­pio, inventado pelo britânico Charles Wheats­to­ne. Através dos conceitos básicos do es­te­reos­có­pio foram cria­das vá­rias outras técnicas de produção de imagens tridimensionais, todas com o mesmo objetivo: simular a profundidade obtida pela visão humana.
A visão humana é, por natureza, tri­di­men­sio­nal. Por meio dela o ser humano consegue interagir e se orien­tar no mundo com bastante precisão. Este tipo de visão ocorre principalmente devido à posição dos olhos, localizados na frente da face e separados por uma distância média de 65 mm. Ao simular a visão humana, obtém-se a sua principal característica, a noção de profundidade. Neste sentido, as imagens es­te­reos­có­pi­cas literalmente enganam o cérebro, transmitindo a sensação de profundidade usando imagens planas.
Uma das técnicas de produção de imagens es­te­reos­có­pi­cas, que permite sua impressão, é a técnica anaglífica, sendo bastante conhecida por possuir baixo custo de produção e não necessitar de equipamentos específicos para esse fim. A produção de uma imagem anaglífica pode ser dividida nos seguintes es­tá­gios: captura, colorização e fusão das imagens.

Produção de imagens anaglíficas
Captura das imagens
A posição dos olhos humanos permite a vi­sua­li­za­ção de uma cena a partir de dois pontos de vista distintos que, ao serem fundidos pelo cérebro, dão a noção de profundidade da cena. Portanto, para simular a visão humana é necessário capturar duas imagens da mesma cena, uma que corresponda ao ponto de vista do olho esquerdo e outra do direito, chamadas de par es­te­reos­có­pi­co.


A captura das imagens pode ocorrer através da uma câmera fotográfica e um tripé. Primeiro, fotografa-se a cena desejada (imagem do olho esquerdo), depois desloca-se a câmera 65 mm para o lado direito, distância que corresponde à separação dos olhos, e fotografa-se novamente (imagem do olho direito). O tripé permitirá que não ocorra deslocamento no sentido vertical. Para isso é importante que se faça uma marcação no chão.
O deslocamento pode ser paralelo, sem rotação da câmera. No entanto, nesse caso, haverá perda de captura, isto é, ­­áreas que apenas uma exposição irá capturar e que deverão ser eliminadas no final da produção.

 


O deslocamento das exposições pode também ser convergente, girando a câmera para que o centro das duas fotos seja o mesmo, porém isso altera a perspectiva da foto, podendo causar distorções verticais e um pequeno desconforto ao se vi­sua­li­zar a imagem final. É interessante testar os dois tipos de deslocamento para descobrir qual deles produzirá um efeito tri­di­men­sio­nal mais agradável da cena escolhida. A captura das imagens é o grande segredo das imagens anaglíficas, pois, dependendo do nível de precisão com que se consiga capturar os pontos de vista dos olhos humanos, maior será a qualidade final da imagem.
Ao se utilizar apenas uma câmera, limita-se o tipo de cena a ser fotografada — apenas cenas estáticas. Para fotografar pes­soas ou paisagens, é mais indicado utilizar duas câmeras e capturar as duas imagens ao mesmo tempo, contanto que se preserve a distância de deslocamento horizontal e se mantenham as duas câmeras alinhadas verticalmente.
Colorização e fusão das imagens
De posse das duas imagens produzidas na etapa an­te­rior, passaremos à sua manipulação. Nessa etapa, será necessário utilizar um soft­ware de manipulação de imagens que possua ferramentas de canais de cores e mesclagem de camadas, por exemplo, o Pho­to­shop. As imagens do par estereos­có­pi­co deverão ser abertas no soft­ware e possuirão três canais de cores: RGB (vermelho, verde e azul), onde será feita sua colorização através da eliminação de alguns desses canais. Na imagem referente ao olho esquerdo, retiram-se o canal verde e o azul, deixando a imagem em tons vermelhos. Já na imagem referente ao olho direito, retira-se apenas o canal vermelho, deixando-a em tons de cia­no.

 


Pos­te­rior­men­te, as duas imagens devem ser inseridas no mesmo documento do Pho­to­shop, só que em camadas diferentes, aplicando-se a mescla de camadas no modo ­Screen. Além disso, para alinhar as duas imagens, es­pe­cial­men­te em relação ao elemento central de interesse, deve-se deslocar uma das camadas no sentido horizontal até diminuir ao máximo as manchas coloridas ou até que as cores de um elemento se encaixem perfeitamente. Com as imagens alinhadas, recorta-se a imagem final nas ­­áreas contíguas.

 


Neste ponto a imagem anaglífica está pronta, podendo ser vi­sua­li­za­da no próprio monitor ou ser impressa. Para a impressão é necessário rea­li­zar a conversão do modo de cor RGB para CMYK, utilizando o perfil e configurações exigidos pelo processo gráfico. Retoques e tratamentos devem ser rea­li­za­dos antes da colorização, lembrando que tudo que for rea­li­za­do em uma imagem deve ser rea­li­za­do também na outra.


Visualização da imagem anaglífica
Como a imagem anaglífica é formada por duas imagens sobrepostas, os olhos enxergam as duas imagens si­mul­ta­nea­men­te sem o efeito de tridimensio­na­li­da­de desejado. Para que a simulação da visão humana se concretize é necessário utilizar os óculos anaglíficos, que têm a função de filtrar a imagem anaglífica, fazendo que cada olho enxergue apenas a imagem que lhe corresponda.
Os óculos anaglíficos pos­suem, no lugar das lentes, filtros coloridos transparentes. No olho esquerdo o filtro é vermelho e no direito é cia­no. Por serem transparentes, os filtros permitem a passagem da imagem que possui a sua cor e impedem a passagem da imagem que possui a sua cor complementar. O filtro vermelho permite a vi­sua­li­za­ção apenas da imagem em vermelho (esquerda) e o filtro em cia­no apenas da imagem em ciano (direita). Cada olho enxergará apenas a imagem que lhe corresponde, simulando a visão humana e, consequentemente, gerando a percepção de profundidade, pro­por­cio­nan­do assim a ideia de três dimensões.


Resumindo
A técnica anaglífica utiliza ar­ti­fí­cios ba­sea­dos nas cores complementares para simular a visão humana. Em razão disso, a imagem final, ao ser vi­sua­li­za­da, possuirá perdas tonais, principalmente se a imagem original possuir a cor vermelha muito saturada. Além disso, o uso de óculos anaglíficos implica alguns cuidados:

  • Deve ser utilizado por cima de óculos com lentes corretivas, caso o observador os utilize
  • Deve ser utilizado em locais bem iluminados, devido à perda de luminosidade causada pelos filtros
  • Não deve ser utilizado por períodos muito longos, pois causa de cansaço visual

Ao serem impressas, as imagens anaglíficas podem ter uma perda de coloração, devido ao uso de tintas (em contraste com o RGB, que é luz), o que poderá causar, em alguns casos, a passagem do mesmo elemento das duas imagens — a do olho esquerdo e a do direito — pelo mesmo filtro, obtendo uma vi­sua­li­za­ção duplicada do mesmo.
Como visto, a técnica anaglífica pode ser facilmente aplicada, necessitando de uma ou duas câmeras, um soft­ware de manipulação de imagens e um óculos anaglífico, sendo que este último pode ser produzido em casa, com uma armação de papel-​­cartão e os filtros de acetato colorido, por
possuirem uma boa transparência.
No mundo da impressão, a técnica anaglífica é uma alternativa cria­ti­va e de baixo custo para despertar o interesse do público, adi­cio­nan­do valor através do efeito de profundidade aos produtos impressos, além de utilizar um conceito bastante inteligente para enganar o próprio cérebro. O processo pode ser aplicado em diversos segmentos de impressão, como his­tó­rias em quadrinhos, livros de arte, embalagens e outras aplicações nas quais efeitos cria­ti­vos
possam adi­cio­nar valor ao produto final.


Anderson Carlos de Souza Macedo é técnico em pré-​­impressão pela Escola Senai Theobaldo De Nigris.
Julio Tadeu de Figueiredo é instrutor de pré-​­impressão da Escola Senai Theobaldo De Nigris, graduado em Tecnologia Gráfica pela Faculdade Senai de Produção Gráfica.
Colaboração do Naipe – Núcleo de Apoio a Inovação e Pesquisa da Escola Senai Theobaldo De Nigris.


Referências
MACEDO, Anderson Carlos de Souza; SANCHETTA, Gabriela Alves; FERREIRA, Gabriele Alves. Interatividade em produtos gráficos: aplicação de dados variáveis e imagens anaglíficas (3D). Orientação: Julio Tadeu de Figueiredo. Trabalho de Conclusão de Curso – Escola Senai Theobaldo
De Nigris, São Paulo, 2011.
SISCOUTTO, Robson Augusto et al. Estereoscópica. In: KIRNER, Claudio; TORI, Romero. Realidade virtual: conceitos e tendências. São Paulo: Editora Mania de Livro, 2004. Disponível em: <http://web.tecgraf.pucrio.br/publications/artigo_2004_estereoscopia.pdf>. Acesso em: 12 set. 2011.

Texto publicado na edição nº 84