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“Nos próximos quatro anos, viveremos um cenário de grandes mudanças” Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Seg, 03 de Dezembro de 2012

Formado em engenharia, Maurício Groke, presidente da As­so­cia­ção Brasileira de Embalagem (Abre), milita há mais de 20 anos no segmento de embalagem, participando de projetos de logística, armazenamento e distribuição no setor de atacado e varejo de alimentos. Foi diretor co­mer­cial da Antilhas por 22 anos e, desde 2011, atua por meio de consultoria junto às empresas e in­dús­trias de todo o País, dando suporte no desenvolvimento de novos ne­gó­cios e de tec­no­lo­gias em embalagem através da Integralle, Consultoria e Gestão de Ne­gó­cios. Nesta entrevista, Maurício fala das perspectivas e de­sa­fios da indústria de embalagem no Brasil.

O balanço da Abre referente ao primeiro semestre de 2012, divulgado em setembro através do estudo ma­croe­co­nô­mi­co do setor, revelou um am­bien­te de retração geral na indústria. Esse quadro se mantém? A perspectiva de fechamento do ano com um faturamento de R$ 47 bilhões também?
Maurício Groke – O resultado será negativo, mas a vertente é de recuperação. Isso porque, apesar da retomada agora no segundo semestre, não devemos zerar essa conta, fechando o ano com recuo de até 1% no volume produzido em relação a 2011. A previsão de faturamento também se mantém conforme o previsto, trazendo um aumento em relação a 2011.
A mesma análise mostrou que as exportações, por sua vez, cresceram 8,86% em relação ao primeiro semestre de 2011. Essa elevação reflete o movimento da indústria buscando alternativas ao mercado interno menos aquecido?
MG – Não há como detectar claramente as razões para o aumento das exportações em cada segmento da indústria de embalagem. Fazendo uma análise ampla, a indústria está sim buscando alternativas, procurando novos mercados. Como tivemos uma desvalorização do real frente ao dólar, nosso produto tornou-se mais competitivo lá fora. Podemos dizer que foi a soma desses dois fatores, maior competitividade do produto na­cio­nal e a busca de novos mercados.
As importações seguiram o mesmo caminho de elevação, com um aumento de 5,42% no mesmo pe­río­do. Por quê?
MG – Ao olhar para esse número temos de ter em mente que ele envolve não só a embalagem acabada, mas também a compra de ma­té­rias-​­primas para a confecção da embalagem. Em alguns momentos, o varejo cresce em função do aumento do consumo, mas o setor de embalagem não segue o mesmo ritmo, uma vez que muitos produtos já chegam embalados no Brasil. O crescimento nas importações no mercado de embalagens pode refletir a elevação na importação de papel, papelão e cartão, que entram no Brasil como matéria-​­prima para embalagens. O mesmo pode acontecer com filmes plásticos e resinas, que são classificados como insumo para embalagens. Esses movimentos na exportação e importação de embalagens vão con­ti­nuar, sobretudo em função da presença de multinacionais de embalagem no País, que, buscando os melhores resultados, setorizam a compra de insumos e a produção das embalagens.
O estudo mostrou, igualmente, que os segmentos de perfumaria e cosméticos e limpeza foram os únicos com elevação no consumo de embalagem. Eles con­ti­nua­rão a puxar a produção?
MG – Não tenho dúvida disso. O hábito do consumidor brasileiro está mudando, com a am­plia­ção do público para esses produtos. Vemos a proliferação de linhas voltadas para o homem, para a crian­ça, para o adolescente. E a indústria cosmética brasileira está ocupando os espaços. A ascensão da classe C contribui fortemente para isso.
Outra mudança nos hábitos de consumo que impactará o setor de embalagem será o fra­cio­na­men­to das embalagens, tanto para atender a demanda por embalagens menores, in­di­vi­dua­li­za­das, di­re­cio­na­das, por exemplo, para pes­soas que moram sozinhas, quanto em função de lotes cada vez menores, resultado da necessidade da indústria de acelerar a velocidade de seus lançamentos. Preparar-se para o fra­cio­na­men­to das embalagens é um dos maiores de­sa­fios da indústria de embalagem hoje. Não adian­ta ter a maior e melhor máquina. É preciso ter equipes preparadas para desenvolver novas embalagens com rapidez e ter agilidade e flexibilidade para responder às novas exi­gên­cias dos clien­tes. O consumidor quer novidade, a indústria procura atender esse anseio e precisa que os fabricantes de embalagens a acompanhem, e a indústria de embalagem, por sua vez, fica ensanduichada entre os clien­tes e seus fornecedores de matéria-​­prima, que muitas vezes não apresentam alternativas que possibilitem esse movimento. Toda a cadeia precisa se mover nesse sentido.
Quais são as perspectivas para 2013?
MG – A tendência é de melhora. Não esperamos nada muito significativo, mas um cenário mais favorável. O próximo ano deve ser marcado pelos primeiros impactos da entrada em vigor da Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos e da necessidade do envolvimento da indústria no sistema de logística reversa (ver matéria página 48). Nos próximos quatro anos viveremos um cenário de grandes mudanças. O recolhimento das embalagens do­mi­ci­lia­res elevará o volume de ma­té­rias-​­primas pós-​­consumo, o que refletirá nos custos das embalagens, assim como as soluções adotadas na reciclagem dos re­sí­duos. A reciclagem pode estar dentro da indústria de embalagem ou fora, questões que mexerão no custo final da embalagem para cima ou para baixo, podendo provocar, inclusive, a migração para esta ou aquela matéria-​­prima. Os materiais cuja reciclagem causar maior impacto no meio am­bien­te tendem a ficar mais caros. Ao longo de 2013 serão fechados os acordos setoriais que determinarão as obrigações de cada integrante da cadeia produtiva e não há como fugir disso, sendo que as metas para o cumprimento das determinações da lei aumentarão ano após ano.
Em função das mudanças de mercado, vá­rias gráficas que antes não atua­vam no segmento de embalagem estão investindo em equipamentos flexíveis, que as permitam am­pliar sua oferta de produtos. Como o senhor vê a aposta da indústria gráfica no segmento de embalagem?
MG – A indústria gráfica tem uma grande oportunidade no setor de embalagem. Mas deve haver um entendimento para que o empresário saiba como adequar seu parque gráfico. Ele tem de acompanhar o ritmo acelerado desse mercado, estar cien­te de que se trata de uma indústria de prestação de serviço. Um dos ce­ná­rios que terá de enfrentar é o gargalo de matéria-​­prima. O Brasil é mal servido nesse assunto quando comparado aos Estados Unidos e à Europa.
O senhor está se referindo à quantidade ou à va­rie­da­de de produtos?
MG – À va­rie­da­de de produto. O que um gráfico alemão, por exemplo, tem disponível em termos de diversidade e de preço é muito maior que um gráfico no Brasil. Isso limita fortemente a nossa competitividade e a possibilidade de oferecer ao clien­te produtos di­fe­ren­cia­dos. Precisamos de uma base maior de fornecedores. Na lista de 100 produtos com elevação temporária do imposto de importação determinada pelo governo está o cartão. Essa medida não atende a indústria de embalagem. O que tornaria a indústria mais competitiva seria a redução do imposto para insumos sem similaridade na­cio­nal.
Vimos na Drupa 2012 o investimento de vá­rios fornecedores no desenvolvimento de impressoras digitais para embalagens. O convertedor já vê a tecnologia digital como uma alternativa viá­vel?
MG – Quem não está sensibilizado está preo­cu­pa­do e algumas empresas já pensam em investir. Os sistemas híbridos são os mais atrativos. Eles podem dar maior mobilidade à indústria, via­bi­li­zan­do projetos, e não só na área de papel e cartão. Porém, volto a insistir. O mais importante são os insumos. Quan­do nos referimos à indústria de perfumaria e cosméticos então, a maior va­rie­da­de de produtos é fundamental. Precisamos da mobilização de toda a cadeia para que a indústria na­cio­nal de ma­té­rias-​­primas para embalagem possa superar essa questão.


2012 deve fechar com queda de 1%
O estudo ma­croe­co­nô­mi­co da indústria brasileira de embalagem, rea­li­za­do pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV) para a Abre, apresentou os reflexos da crise in­ter­na­cio­nal e da desaceleração da economia brasileira no segmento de embalagem no primeiro semestre deste ano. A produção física teve um recuo de 3,49% em relação ao mesmo pe­río­do de 2011. O crescimento projetado de 1,5% no segundo semestre não será su­fi­cien­te para equilibrar a balança e o setor deve apresentar retração de 1% em sua produção. Apesar disso, a receita líquida em 2012 deverá atingir R$ 47 bilhões, numa alta de aproximadamente 5% sobre os R$ 44,7 bilhões gerados em 2011. Os plásticos representam a maior participação no valor da produção, correspondendo a 37,08% do total, seguidos por papelão ondulado, com 18,75%, e embalagens metálicas, com 16,79%.
Na análise por setor, a produção física de embalagens de vidro, madeira, plástico e metal recuou na comparação com o primeiro semestre de 2011. A principal retração é de embalagens de vidro, que diminuiu sua produção em 10,88%, seguido por madeira (– 8,08%), metal (– 7,10%) e plástico (– 3,77%). O setor de papel/papelão/cartão foi o único a ter um resultado positivo, com um incremento de 1,36% em sua produção. As principais in­dús­trias usuá­rias de embalagem apresentaram uma retração de produção no primeiro semestre de 2012 em comparação ao mesmo pe­río­do do ano passado, com exceção das in­dús­trias de perfumaria e cosmético e produtos de limpeza, que tiveram, respectivamente, um crescimento de 6,97% e 4,24%.

Texto publicado na edição nº 84