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Toda a indústria está engajada em promover a sustentabilidade Imprimir E-mail
Escrito por Tania Galluzi   
Seg, 01 de Fevereiro de 2010

 

Pau­lo Sérgio Peres, presidente da As­so­cia­ção Bra­si­lei­ra de Embalagem, Abre, e da As­so­cia­ção Bra­si­lei­ra de Papelão Ondulado, ABPO, está otimista. Para ele, o setor de embalagem deve recuperar os ní­veis do pe­río­do antes da crise já no pri­mei­ro trimestre de 2010. Diretor executivo da Klabin, Divisão Papelão Ondulado, e membro do Conselho Consultivo do Centro de Tecnologia de Embalagem, Cetea, Pau­lo Peres vem ca­pi­ta­nean­do vá­rias ações em prol do engajamento das empresas no caminho da sustentabilidade.

 

Quais foram os impactos da turbulência econômica nas indústrias do papelão ondulado e de embalagem no Brasil?

Pau­lo Sérgio Peres – A indústria de embalagem se ressentiu com a crise mun­dial, mas já está em recuperação. Nos resultados do Estudo Ma­croe­co­nô­mi­co da Embalagem Abre-​FGV, apresentados em agosto sobre o desempenho da indústria no pri­mei­ro semestre de 2009, a produção física de embalagem decresceu 9,67% no pri­mei­ro semestre de 2009 em relação a igual pe­río­do de 2008. O pico da crise foi em dezembro de 2008 e mesmo com o setor apresentando um avanço de 8,58% no pe­río­do de dezembro de 2008 a junho de 2009 em sua produção mensal, a previsão é de que haja um recuo de 6% na produção física de embalagem em 2009.
O setor de embalagens de papelão ondulado ini­ciou 2009 com forte queda em relação ao ano an­te­rior. No pri­mei­ro trimestre do ano, nossas vendas em toneladas caí­ram 7,2% em relação ao pri­mei­ro trimestre de 2008. O segundo trimestre con­ti­nuou ain­da fraco e a queda de nossas entregas foi de 6,9% em relação a igual pe­río­do do ano an­te­rior. Com isso, encerramos o pri­mei­ro semestre com perda de expedição em toneladas de 7,1%, comparativamente ao 1º semestre de 2008.
A partir de agosto as vendas do setor ini­cia­ram uma trajetória de recuperação, registrando sucessivamente crescimentos men­sais su­pe­rio­res aos dos mesmos meses de 2008: agosto, + 0,4%; setembro, + 5,0% e em ou­tu­bro, + 6,1 %. É preciso registrar que as vendas de 220,8 mil toneladas em ou­tu­bro significaram o novo recorde mensal da história do setor de embalagens de papelão e que o mercado em novembro con­ti­nuou firme, com entregas de 211,1 mil toneladas.

As indústrias de papelão ondulado e de embalagem, no Brasil, estão fechando 2009 com números positivos? Quais são os principais indicativos?
PP – Conforme men­cio­na­do, para o ano de 2009 a previsão é que a indústria de embalagens apresente um recuo de 6%. Se a indústria mantiver o ritmo de crescimento de 8,58%, a expectativa é que em um semestre a produção mensal retornará ao nível de setembro de 2008. Em relação ao papelão ondulado, o acumulado das entregas de ja­nei­ro a novembro de 2009 continua in­fe­rior a igual pe­río­do de 2008, agora em — 1,86 %. As previsões de dezembro são positivas e o setor deve encerrar 2009 com vendas próximas às de 2008 ou li­gei­ra­men­te in­fe­rio­res.
Como para 2010 as previsões para a economia bra­si­lei­ra são otimistas, nosso setor deve acompanhar essas expectativas positivas e certamente suas vendas em toneladas serão melhores que as deste ano, ain­da que por ora não quantificáveis.

Assim como outros setores da economia, as indústrias de papelão ondulado e de embalagem brasileiras sofreram menos com a crise em comparação ao resto do mundo?
PP – Apesar de fazermos parte da WPO, Organização Mun­dial da Embalagem, não recebemos os números do desempenho do setor mun­dial­men­te. Mas, a embalagem é o termômetro de uma economia, dado que sua produção está em sintonia com a produção e consumo dos bens in­dus­tria­li­za­dos, em es­pe­cial bens de consumo. Estes, por sua vez, são res­pon­sá­veis pela demanda de 70% das embalagens produzidas. Com isso, pela análise econômica global, podemos con­cluir que alguns mercados perceberam com ­maior intensidade a redução do consumo, a redução da disponibilidade de crédito, e mesmo a insegurança do consumidor.

Quais lições foram aprendidas com os problemas enfrentados nessa fase?
PP – A indústria de embalagens é calcada na tecnologia, produtividade e inovação. Assim, as empresas bem estruturadas conseguem driblar melhor os efei­tos da desaceleração. Indo mais adian­te, para uma empresa do nosso setor ser competitiva é necessário que ela ofereça além da própria embalagem. A indústria de bens de consumo quer serviço e possibilidade de ne­go­cia­ção, ou seja, flexibilidade. Conforme pesquisa rea­li­za­da pelo Comitê de Estudos Estratégicos da Abre, por meio da GFK Indicator, hoje uma empresa de embalagens deve suprir seu clien­te com todas as ten­dên­cias glo­bais. Aprendemos, desta forma, que temos que trabalhar na solidez das nossas empresas.

Quais as perspectivas para 2010?
PP – As perspectivas são positivas. O setor deve recuperar os patamares produtivos comparativamente com o pe­río­do antes da crise já no pri­mei­ro trimestre de 2010. E isto é bom se ressaltarmos que o Brasil vinha num crescente contínuo por alguns anos. O crédito estava mais abrangente, o poder de consumo das fa­mí­lias ­maior, o nível de empregos formal também. E nosso otimismo se reforça pelo fato do consumidor, conforme pesquisa da LatinPanel apresentada em evento da Abre, não ter esmorecido perante o cenário de crise. O otimismo foi mantido, o que pode ser comprovado pelas vendas no varejo, principalmente no segundo semestre de 2009.

No que tange à tecnologia aplicada à produção de papelão ondulado e de embalagens, como fica a comparação da indústria nacional com o resto do mundo? Quais países detêm o estado da arte?
PP – A indústria na­cio­nal de embalagens está alinhada com o que há de mais moderno no mundo em tecnologia, design e cria­ti­vi­da­de. As embalagens bra­si­lei­ras concorrem em igualdade com as embalagens produzidas na Europa e nos Estados Unidos, tanto é que, em 2008, das 12 embalagens bra­si­lei­ras concorrentes ao Prêmio WorldStar, ­maior pre­mia­ção in­ter­na­cio­nal do setor, nove foram pre­mia­das.
Segundo dados do Núcleo de Embalagens da ESPM, apesar da crise mun­dial, a indústria bra­si­lei­ra apresentou bom desempenho em lançamentos de produtos. O Brasil se firmou na posição de segundo país que mais lançou embalagens no pe­río­do, com participação de 6,3% ante 5% em 2008.
Temos tecnologia, qualidade e cria­ti­vi­da­de. Mas, todo o poder de produção da indústria deve ser enquadrado na si­tua­ção econômica, so­cial e cultural do País. O que isto quer dizer? As embalagens produzidas aqui devem res­pei­tar a forma de comunicação das pes­soas, os hábitos com­por­ta­men­tais e de consumo, bem como o seu poder aquisitivo. E acredito que fazemos isso com mui­to sucesso. O bra­si­lei­ro gosta de inovação, contudo dispõe de um orçamento apertado. Hoje, trabalhamos para oferecer fun­cio­na­li­da­de, saú­de e segurança, informação e, principalmente, au­men­to da vida útil dos produtos.
Se analisarmos os vencedores em 2009 do Prêmio Abre de Design & Embalagem, o principal evento do setor, vemos que uma cai­xa de chicletes passou a oferecer con­ve­niên­cia na abertura, o sorvete em pote a melhor qualidade de impressão e tamanho di­fe­ren­cia­do, água mineral com sofisticação, produtos de limpeza com tecnologia de dosagem e, em destaque, projetos que apresentam o valor am­bien­tal de forma mais direta para a so­cie­da­de.

O senhor tem números sobre a reciclagem de papelão ondulado no Brasil e no mundo?
PP – O papelão ondulado é 100% reciclável. Os dados mais recentes divulgados pela Bracelpa apontam que 79,6% das embalagens de papelão ondulado foram recicladas no Brasil em 2008, uma das maio­res taxas do mundo.

E na indústria de embalagem, quais são as principais iniciativas no sentido da sustentabilidade?
PP – Toda a indústria de embalagens está engajada em promover a sustentabilidade em todo o ciclo de vida do produto, que vai desde a sua concepção até a sua reu­ti­li­za­ção ou reciclagem.
Para orien­tar a indústria, a Abre, através do Comitê de Meio Am­bien­te e Sustentabilidade, lançou em junho de 2009 a cartilha Diretrizes de Sustentabilidade para a Ca­deia Produtiva de Embalagens e Bens de Consumo, que tem como objetivo principal possibilitar a cada empresa a au­toa­va­lia­ção de indicadores am­bien­tais de sustentabilidade. A cartilha traz os indicadores re­la­cio­na­dos a cada etapa do ciclo de vida do produto, abrangendo desde a produção de ma­té­rias-​primas, embalagem, acon­di­cio­na­men­to do produto, dis­tri­bui­ção /logística e varejo, consumo e destinação adequada no descarte, trazendo sugestões de métrica de ava­lia­ção para cada indicador. Essa é uma oportunidade das empresas atua­rem de forma voluntária na ava­lia­ção de seu desempenho e consequente busca contínua por melhor performance. Chamado de Agenda Am­bien­tal do setor, esse documento foi lançado pela diretora executiva da Abre, Lu­cia­na Pellegrino, na Colômbia, na versão em espanhol para o mercado latino-​americano, e na versão em inglês durante evento da WPO. Essa cartilha está disponível para down­load no site da entidade www.abre.org.br/campanha_sustentabilidade/index.htm.
A Abre também lançou, em ou­tu­bro de 2009, a campanha A Embalagem Cons­truin­do a Sustentabilidade. A campanha foi ba­sea­da nos prin­ci­pais pilares da embalagem que são proteção, prolongamento da vida, saú­de, segurança, economia e bem-​estar so­cial e am­bien­tal. Ao pensar num ciclo contínuo, em que o fim pode ser também o começo, os ma­te­riais de embalagem se transformam e, com isso, pou­pam insumos, produtos e recursos na­tu­rais.
De uma forma simpática, a campanha visa a informar sobre os valores am­bien­tais trabalhados pelo setor, bem como promover a educação, atitude e responsabilidade. Ela traz ain­da o incentivo ao emprego nas embalagens da simbologia de Descarte Seletivo, que foi apresentada pela Abre à ISO e incorporada na ISO 14.021. Essa simbologia deve ser utilizada juntamente com aquela que identifica cada ma­te­rial reciclável. Seu objetivo é despertar a atenção do consumidor para o momento do descarte.
E, pensando nisso, a as­so­cia­ção lançou como parte da campanha os adesivos Embalagem, Eu Reciclo!, que procuram fa­mi­lia­ri­zar o símbolo do Descarte Seletivo junto à população. A ca­deia de reciclagem se inicia pelas mãos de cada pessoa. É necessário valorizar a embalagem, encaminhando-​a para reciclagem.
No universo do papelão ondulado, a Bracelpa divulgou recentemente a estatística da reciclagem de pa­péis no Brasil em 2008. Constata-​se que foram recuperadas 3,83 milhões de toneladas de pa­péis re­ci­clá­veis, para o consumo aparente de 8,76 milhões de toneladas de pa­péis. Portanto, a taxa de reciclagem total foi de 43,7%. Quan­do desconsiderados os pa­péis não re­ci­clá­veis, essa taxa sobe para 50,8%. Desse total, foram recuperadas 2,56 milhões de toneladas de aparas de papelão ondulado, para o consumo aparente de 3,22 milhões de toneladas de pa­péis. Logo, a nova taxa de reciclagem do papelão ondulado no Brasil subiu para o índice de 79,6% em 2008.
Esse ciclo vir­tuo­so, que recupera 79,6% das embalagens de papelão ondulado produzidas no Brasil alivia os aterros pela geração cada vez menor de re­sí­duos sólidos, gerando milhares de empregos diretos e indiretos em todas as fases da produção. Esta é, sem dúvida alguma, uma das maio­res vantagens comparativas do nosso setor. Mais ain­da. Historicamente o setor de papelão ondulado no Brasil e nos Estados Unidos têm apresentado altas taxas de reciclagem, sendo que as taxas bra­si­lei­ras têm sido sistematicamente su­pe­rio­res às americanas.
Essas altas taxas de reciclagem representam forte con­tri­bui­ção da indústria do papelão ondulado ao meio am­bien­te. Nossas embalagens são 100% re­ci­clá­veis e bio­de­gra­dá­veis e cau­sam bai­xo impacto am­bien­tal em todos os es­tá­gios de seu ciclo de vida. Esse ciclo de vida constitui uma ca­deia praticamente fechada, na qual a embalagem usada é reciclada e novamente utilizada na fabricação de novas embalagens, tendo como fonte primária a fibra virgem oriun­da de florestas plantadas, ou seja, de recursos re­no­vá­veis. Portanto, nosso setor tem constantemente reduzido o impacto cau­sa­do por suas embalagens ao meio am­bien­te, ao mesmo tempo em que tem mantido a fun­cio­na­li­da­de e a economia dos produtos por elas embalados.

Hoje, em função da questão ambiental, quais materiais estão em maior evidência no segmento de embalagem, entre plástico, papelão ondulado, papel, madeira, cartão, metal e vidro? O que está substituindo o quê?
PP – Não há uma subs­ti­tui­ção de ma­te­riais, mas sim uma va­rie­da­de de produtos que atendem a diferentes momentos de consumo. Hoje, o consumidor busca con­ve­niên­cia e facilidade de uso e em função dessa necessidade o mesmo produto pode ser encontrado em diversos tipos de embalagem, como por exemplo, molhos de tomate que são embalados em cai­xas cartonadas, metal, plástico flexível (stand up pou­ches) e vidro. Os diferentes ma­te­riais trazem importantes con­cei­tos de sustentabilidade, como mostra a cartilha de Diretrizes de Sustentabilidade. Ou seja, desde processos limpos de produção, proteção dos produtos, otimização das ma­té­rias-​primas, economia no transporte, capacidade de serem reciclados, entre ou­tros.

Com relação à utilização no segmento de embalagem, papelão, papel e cartão ainda compõem a maior parcela? Como está essa composição hoje envolvendo os materiais citados na pergunta anterior?
PP – O segmento de papel, papelão e cartão ain­da compõe a ­maior parcela. A produção física de embalagens por tipo de matéria-​prima está segmentada em papel, papelão e cartão, 33,2%; plástico, 29,7%; metal, 26,6%; vidro, 8,7%; e ma­dei­ra, 1,8%.

A tecnologia digital vem revolucionando a vida do homem moderno em todos os seus aspectos. Quais as principais mudanças ou tendências no universo das embalagens?
PP – O RFID, Radio Frequency Iden­ti­fi­ca­tion, sem dúvida trou­xe mui­ta otimização para a ras­trea­bi­li­da­de, bem como processos de dis­tri­bui­ção. Mas, a embalagem vai mais longe. Atual­men­te, a so­cie­da­de demanda interatividade e isso vem acontecendo pelas embalagens. Desde embalagens que viram jogos ou uti­li­tá­rios, que trazem o site da empresa ou códigos para promoções e jogos, até a possibilidade de se es­ca­near pelo celular um personagem que terá vida na web. A comunicação sem dúvida virou uma via de mão dupla e a embalagem é a ferramenta que a marca tem para consolidar o seu re­la­cio­na­men­to com os consumidores.

 

Texto publicado na Edição 70