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Validade das provas digitais, uma questão a ser definida Imprimir E-mail
Escrito por Kátia Irie Teruya e Rafael Petermann, com a colaboração de Bruno Mortara e Marlene Dely Cruz   
Seg, 19 de Março de 2012

Durante o ciclo de aprovação dos produtos gráficos, es­pe­cial­men­te aqueles que envolvem um alto custo de produção, a confecção de provas de simulação e sua pos­te­rior aprovação é fundamental. Esse procedimento evita perdas de tempo e de dinheiro, além de ser o vínculo con­tra­tual entre a gráfica e o clien­te final.
Quan­do usada como simulação do impresso, a prova tem dois objetivos: permitir ao clien­te conhecer o resultado final antes da impressão e ser uma referência para a gráfica durante a impressão. Afora isso, serve como testemunho vi­sual em caso de discordância em relação ao resultado obtido.
Até mea­dos dos anos 1990 as provas eram feitas a partir de fotolitos e denominadas provas analógicas. Com o surgimento e disseminação dos CtPs (platesetters), as provas digitais se tornaram mais presentes e subs­ti­tuí­ram quase que totalmente as analógicas. As provas digitais são con­fec­cio­na­das por impressoras digitais, em geral jato de tinta, conectadas a um RIP que rasteriza os con­teú­dos vetoriais e raster da página (em geral um arquivo PDF, melhor se for um PDF/X) e faz as transformações de ge­ren­cia­men­to de cores a fim de simular a condição de impressão final. Tudo isso por uma fração do custo da produção final e em um curto espaço de tempo.

No entanto, um sistema de provas digitais precisa ser li­nea­ri­za­do, calibrado, verificado e utilizar insumos de qualidade, sem contar o acompanhamento contínuo de sua qualidade de reprodução. Se, por um lado, é necessário utilizar as tintas recomendadas pelos fabricantes em suas impressoras, por outro, os substratos não têm as mesmas recomendações. Os fabricantes não têm requisitos técnicos bem definidos para os substratos a serem utilizados. No mercado há uma infinidade de substratos à disposição, com diferentes preços e qualidades. Porém, se há um grande número de pa­péis para provas à disposição, o mesmo não se pode dizer em relação à quantidade e qualidade de informações técnicas acerca desses produtos. Isso seria bastante útil na hora da compra. E, por falta de parâmetros, muitas gráficas acabam por tomar sua decisão ba­sea­das em cri­té­rios financeiros que não garantem o bom desempenho do substrato, gerando provas de baixa qualidade e de durabilidade ainda menor, como aponta Bruno Mortara em seu artigo sobre provas digitais: “o uso de tintas e substratos não conformes pode sim comprometer a durabilidade da prova”.


Quan­do as provas sofrem de baixa durabilidade é sinal de que suas tintas e/ou combinação dessas com o papel não resistem aos efeitos da luz e desbotam. Este é o conceito de solidez de uma cor impressa. A solidez pode ser definida como a resistência do impresso aos efeitos de uma fonte fixa de luz (luz de arco de xenônio filtrada), sem in­fluên­cia do am­bien­te ou, ainda, a resistência que a cor oferece quando exposta à luz direta do sol, à luz difusa do dia ou à luz ar­ti­fi­cial. Isso significa o mesmo que durabilidade da tinta, do substrato ou da peça como um todo.
Para se com­preen­der a importância da solidez é preciso pensar que todos os processos de reprodução utilizados em tecnologia gráfica têm um tempo de durabilidade de sua coloração. A partir de certo momento, as cores começam a desbotar, até que o impresso se torna totalmente diferente do original. Além da luz, há outros fatores que atingem a solidez das cores impressas: os raios ul­tra­vio­le­ta, o oxigênio, o ozônio, a poluição atmosférica e o contato com agentes ácidos como molduras ou embalagens em cartão ou papel com pH não neutro.

Grupo de estudos da Theobaldo De Nigris
Um grupo de alunos da Theo­bal­do De Nigris, do curso técnico de Tecnologia Gráfica, elaborou um estudo que investigou as seguintes questões: Qual o tempo de durabilidade da prova impressa, ou seja, quanto tempo ela permanece colorimetricamente estável? Que tipo de substrato utilizar: homologado ou não homologado?
Nesse estudo, quatro marcas de papel para prova digital — dentre elas duas homologadas pela instituição alemã Fogra — foram analisadas a fim de se pesquisar por quantos dias a prova digital iria se manter fiel aos valores iniciais, ou seja, qual seria a sua validade. A análise da va­ria­ção colorimétrica foi feita imprimindo-se uma tira Ugra/Fogra Media Wedge V3 sobre dois lotes de amostras de cada papel e expondo-as a duas condições de iluminação:

Ensaio da interação papel e tinta sem influência da luz – Lote da condição 1
As amostras foram acon­di­cio­na­das no escuro, sem nenhuma incidência de luz, e verificaram-se as va­ria­ções colorimétricas das ­­áreas coloridas da escala. O objetivo desta condição é procurar entender as va­ria­ções possíveis, independentemente da ação de fatores ambientais, es­pe­cial­men­te a luz.
As medições das cores impressas foram rea­li­za­das por meio de espectrofotômetro por um pe­río­do de 60 dias, duas vezes na semana.

Ensaio da NBR ISO 12040 – Lote da condição 2
As amostras foram analisadas utilizando-se o método descrito na NBR ISO 12040. Essa norma especifica um procedimento para ava­lia­ção da solidez das cores e foi usada com o objetivo de se estimar o impacto sobre as áreas coloridas das tarjas, em um pe­río­do de tempo de 300 dias de luz de escritório. Diferentemente da condição 1, esse lote sofreu a ação da luz em conjunto com as possíveis va­ria­ções da própria interação do substrato com as tintas. A norma utiliza como ensaio de durabilidade das cores (inkfastness) um equipamento cons­ti­tuí­do de uma cabine com lâmpadas de arco de xenônio com filtros opcionais, que simula uma superexposição à luz. Para se controlar essa exposição foi utilizada a escala de azul até que seu step 3 ficasse desbotado de modo similar ao step 3 da escala de cinza. O equipamento, conhecido como Xenotest, possui lâmpadas de xenônio de alta potência, o que possibilita a simulação de tempo de exposição à luz do dia. Sua lâmpada possui uma distribuição espectral bastante próxima à D50, luz normalizada pela CIE.
As amostras foram expostas juntamente com a escala de azul, simulando uma exposição equivalente a 300 dias de luz de escritório.

Ensaio da cor dos substratos
Visando conhecer os substratos utilizados nos ensaios foram feitas leituras espectrais dos mesmos. O ensaio em questão foi feito utilizando-se dois espectrofotômetros X-​­Rite i1, um com filtro UV e outro sem. A diferença dos resultados de leitura dos dois instrumentos pode ser atri­buí­da aos alvejantes ópticos. Os fabricantes de papel adi­cio­nam esses componentes a fim de dar um aspecto mais branco ao papel, com um entendimento de que o mercado percebe pa­péis mais azulados como mais brancos e, portanto, mais desejáveis.

Resultados
Ao final dos ensaios foi possível observar que as amostras que não tiveram contato com a luz, condição 1, mantiveram os valores das ­­áreas coloridas sem va­ria­ções significativas. No entanto, as amostras expostas da condição 2, que foram submetidas ao ensaio da NBR ISO 12040, sofreram va­ria­ções colorimétricas, algumas consideráveis. Se observarmos os requisitos da norma de provas físicas con­tra­tuais, NBR ISO 12647-7, uma das amostras de papel de prova se mostrou não conforme (Tabela 1).
Procurando-se estabelecer uma relação entre a instabilidade do substrato e seu con­teú­do de alvejante óptico, observou-se que esse substrato foi justamente aquele que apresentou a maior diferença entre a curva espectral feita com filtro UV e aquela feita sem filtro UV, indicando a presença de alvejantes ópticos (OBA) na composição do papel. Esse resultado insatisfatório demonstra que alguns substratos de prova são mais suscetíveis, em relação à solidez, à luz que outros. O estudo mostra também que há no mercado brasileiro pelo menos um substrato não conforme e isso pode comprometer a comunicação na cadeia produtiva, além de causar pre­juí­zos a clien­tes e fornecedores.
Uma conclusão importante deste estudo foi que, sempre que for necessária a preservação da prova por longos pe­río­dos de tempo, os impressos devem ser acon­di­cio­na­dos de modo a não serem expostos à luz de escritório ou do sol. Assim sendo, o estudo demonstra que provas contratuais feitas com boas práticas e respeitando os requisitos da NBR ISO 12647-7 podem ser utilizadas, desde que feitas sobre substrato adequado, por um pe­río­do de tempo bastante ra­zoá­vel, de até 300 dias.

Kátia Irie Teruya e Rafael Petermann são ex‑alunos do curso técnico de pré‑impressão da Escola Senai Theobaldo De Nigris. Colaboraram Bruno Mortara e Marlene Dely Cruz, do Naipe – Núcleo de Apoio a Inovação e Pesquisa, na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Referências
TERUYA, K. Estudo da variação colorimétrica em impressão para prova digital / Katia Irie Teruya, Moisés Pacífico Fagundes dos Santos Silva, Rafael Petermann, Valéria Crisci; Orientação, Edigar Antunes. Trabalho de Conclusão de Curso – Escola Senai Theobaldo De Nigris, São Paulo, 2011.

Texto publicado na edição nº 81