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Adaptação de ilustrações para livros infantis por processo de flocagem Imprimir E-mail
Escrito por Vivian de Oliveira Preto e Cláudia Matsumoto   
Seg, 05 de Dezembro de 2011

Uma pesquisa de mestrado revelou que a maior parte dos livros voltados para os de­fi­cien­tes visuais possui poucas figuras adaptadas e que, na maioria das vezes, durante a adaptação, se perdem informações importantes quanto a volume e textura dos objetos.
O processo de adaptação de ilustrações para os de­fi­cien­tes visuais é muito complexo. Algumas instituições voltadas para a assistência à pessoa cega e o MEC aconselham o designer a utilizar os recursos de ilustração da forma mais simples possível, lembrando que nem sempre o que é “bonito” para os olhos é legível para a percepção tátil.
As crian­ças sentem falta de desenhos nos livros, principalmente porque elas sabem que as ilustrações existem! Isso porque, com a inclusão de pes­soas com de­fi­ciên­cias no ensino regular, elas têm contato com outras crianças, e estas citam as ilustrações, as cores e as formas dos desenhos.
A impressão de ilustrações em relevo pode ser feita em serigrafia, com tintas PUF, ou com relevo americano. No que diz respeito à serigrafia há uma gama de vernizes e tintas que podem vir a pro­por­cio­nar diferentes sensações táteis para o de­fi­cien­te vi­sual. No caso da pesquisa citada as figuras foram adaptadas por meio de impressão serigráfica, com tinta PUF e flocagem.
Esses dois processos foram escolhidos porque o livro adaptado foi A Bela e a Fera, que tem uma particularidade no final da história: a transformação da Fera em uma pessoa. A adaptação dessa metamorfose é de suma importância para o entendimento do contexto da narrativa pela crian­ça. Dessa maneira, toda a dia­gra­ma­ção do texto e dos elementos compositivos da trama foi projetada levando em conta o processo final de impressão e acabamento, serigrafia e flocagem.

Produção
O primeiro passo para a adaptação do livro foi a digitalização de todas as páginas e a vetorização das imagens com a aplicação de cor e sombra. Depois os textos foram transformados em braille e as imagens tiveram seu contorno adaptado para a impressão em tinta PUF. O livro foi projetado para que tanto crian­ças de­fi­cien­tes visuais quanto as que enxergam pudessem lê-lo. Com isso, a página esquerda do livro foi impressa em processo digital e a da direita tem as adaptações: os textos em braille e imagens em alto relevo (1 e 2).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As letras em braille e os contornos das figuras foram impressos em serigrafia com a utilização da tinta PUF para gerar a altura necessária dos pontos. Contudo, queríamos um di­fe­ren­cial neste projeto e por isso escolhemos o rosto do personagem Fera para utilizarmos o processo de flocagem, que permite à crian­ça com de­fi­ciên­cia vi­sual sentir, pelo toque das mãos, que se tratava de um rosto aveludado e macio (3).

Flocagem
Depois de impresso, o livro foi levado para a flocagem. Este processo tem ampla aplicação na indústria têxtil, calçadista e também tem sido usado em vá­rios produtos do nosso dia a dia, como objetos de decoração, sacolas, capas de caderno, caixas, taças, imagens de santos ou agendas, sempre como agregador de valor, dando às su­per­fí­cies nas quais é aplicado uma sensação aveludada. Por conta da grande va­rie­da­de de utilizações, há no mercado máquinas de flocagem que trabalham com quase todos os materiais, como papel, tecido e plástico. A matéria-​­prima utilizada é composta por fios de nái­lon de vá­rias cores cortados em tamanho milimétrico.
O processo fun­cio­na da seguinte forma: na arte fazemos uma cor es­pe­cial somente para as ­­áreas onde serão aplicados os flocos de nái­lon. Dessa cor es­pe­cial será gerado um fotolito e gravada uma tela para serigrafia. Nas páginas que têm a presença dos dois tipos de processo, serigrafia e flocagem, a impressão de tinta PUF não recebeu o termoaquecimento, que tem de ser efe­tua­do após o processo de flocagem para alcançar o registro perfeito (4).


Com a tela pronta, acertamos primeiro o registro por cima do trabalho já impresso com tinta PUF. Coloca-se então a cola na tela e esta é transferida para o papel. O processo é muito parecido com a impressão em serigrafia com a diferença de que “imprimimos” a cola, e não a tinta. Após a aplicação, o papel é levado para uma máquina específica que sopra o nái­lon sobre a cola. No final, onde havia a cola teremos nái­lon colado; a sensação tátil é da textura de camurça.
Após impresso e acabado, levamos o trabalho para que crian­ças de­fi­cien­tes visuais fizessem um teste de legibilidade. Elas conseguiram sem dificuldades ler os textos em braille e entender o conceito de cada imagem. Claro que a imagem que mais atraiu atenção foi a do rosto da Fera com sua textura aveludada, provando o ponto que de­fen­día­mos e mostrando que o uso da serigrafia com o processo de flocagem para esse tipo de reprodução é extremamente interessante. Outras texturas podem ser utilizadas para um melhor entendimento das imagens e facilitando a assimilação do con­teú­do pelo de­fi­cien­te vi­sual.
Por fim, com o livro pronto e testado por crian­ças com de­fi­ciên­cia vi­sual, a ideia da flocagem mostrou-se muito válida, só restando então para sua utilização efetiva a cons­cien­ti­za­ção e contribuição dos em­pre­sá­rios e técnicos da área dispostos a investir no aprimoramento da produção desse ma­te­rial tão importante como recurso edu­ca­cio­nal. Os de­fi­cien­tes visuais também necessitam de livros desde cedo e o mercado gráfico ainda não está preparado para atender essa carência, devido às dificuldades técnicas e altos valores que envolvem os atuais métodos de impressão de literatura braille. Isso torna esse ma­te­rial, tão necessário, escasso e inacessível às classes menos favorecidas.

Vivian de Oliveira Preto é coordenadora de formação inicial e continuada da Escola Senai Theobaldo De Nigris e Cláudia Matsumoto é aluna do curso Técnico em Artes Gráficas da Escola Senai João Martins Coube

Texto publicado na edição nº 80