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"Para formar o trabalhador do futuro uma boa base é essencial", Walter Vicioni Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Seg, 05 de Dezembro de 2011

Walter Vi­cio­ni Gonçalves sempre esteve ligado à educação. Formado em Pedagogia pelo Mackenzie, com pós-​­gra­dua­ção em Administração e Planejamento da Educação pelo In­ter­na­tio­nal Institute for Edu­ca­tio­nal Planning (IIEP-França), está no Senai desde 1970. No Senai-SP já exerceu os cargos de diretor de escolas, diretor de Organização e Planejamento e diretor técnico. No Sesi-SP, foi diretor de operações e na área corporativa das duas instituições foi coor­de­na­dor de Planejamento e Gestão. Atuou ainda como consultor do Banco Mun­dial no Projeto de Reo­rien­ta­ção do Sistema de Formação Pro­fis­sio­nal do Marrocos.
Hoje, Walter Vi­cio­ni é diretor re­gio­nal do Senai-SP, superintendente ope­ra­cio­nal do Sesi-SP e membro titular do Conselho Es­ta­dual de Educação de São Paulo.
Respirando formação pro­fis­sio­nal, ele fala sobre sua passagem pela Escola Senai Theo­bal­do De Nigris, sobre os projetos e de­sa­fios do Senai e da mio­pia dos que insistem em manter desunidas as políticas edu­ca­cio­nal, in­dus­trial e tecnológica.

O senhor foi diretor da Escola Senai Theo­bal­do De Nigris entre 1995 e 1996. Como foi sua ex­pe­riên­cia junto ao setor gráfico?
Walter Vi­cio­ni
– Na verdade, tive uma rápida passagem an­te­rior, em 1975, durante três meses de licença do diretor na época. Desde então eu sempre acompanhei a escola. De 1975 a 1986 dirigi outra escola, a Suí­ço-​­Brasileira, voltada à mecânica de precisão, que era muito pres­ti­gia­da. Porém, eu apre­cia­va o estreito re­la­cio­na­men­to que a Theo­bal­do De Nigris tinha com o setor gráfico, com os em­pre­sá­rios. A mecânica de precisão está presente em vá­rios setores. Não existe uma as­so­cia­ção que congregue essa indústria, então faltava à Suí­ço-​­Brasileira essa identidade que a Theo­bal­do De Nigris tinha e que facilitava o conhecimento das necessidades do setor, a articulação das ações.
Quan­do, em 1994, o Altino Carabolante deixou a diretoria da Theo­bal­do De Nigris logo pensei em me candidatar à vaga. Mas antes fui falar com o Fernando Pini, professor e assessor técnico da escola, pois achava que ele deveria ser o diretor. Formalizei meu pedido junto ao Senai quando ele me disse que não tinha interesse pela vaga e que me apoiaria junto à escola. Nós dois fomos falar com o Max Schrappe, que era presidente da Abigraf Na­cio­nal e uma semana depois eu assumi a direção da Theo­bal­do De Nigris.

E como foi o ínicio?
WV
– Fui muito bem recebido pelos fun­cio­ná­rios e pelos em­pre­sá­rios. Uma das primeiras pes­soas que recebi foi o Plácido Loriggio, que era vice-​­presidente da Abril. Eu sabia que na década de 70 ele havia tentando montar um curso su­pe­rior com o Senai e nesse encontro disse a ele que mon­ta­ría­mos, como montamos, a faculdade de tecnologia gráfica, como de fato montamos.
Na sua gestão a escola intensificou as par­ce­rias com instituições do setor e com as empresas. Em que medida essas par­ce­rias ajudaram a construir o que a escola é hoje?
WV – Fiquei pouco tempo na escola, mas foi uma fase muito rica. Conseguimos fazer muita coisa porque tanto o pes­soal da escola quanto o setor acreditou que seria possível. Para citar alguns exemplos, fechamos acordos importantes com fornecedores para colocar a escola em sintonia com as novas tec­no­lo­gias digitais. Conseguimos, de forma inédita, levar mais de 20 profissionais da escola à Drupa. Trouxemos uma turma fechada de Minas Gerais, com 32 pes­soas, que passaram um ano sendo treinados na Theo­bal­do De Nigris para atender as demandas da re­gião. E tudo isso aconteceu através do apoio das empresas e das entidades do setor.

Como o senhor vê a Theo­bal­do De Nigris hoje?
WV
– Como uma escola de referência. E como acreditamos na escola, o Senai-SP está investindo quase R$ 30 mi­lhões na modernização da unidade. A escola precisa estar adequada à rea­li­da­de do mercado. Eu sempre pensei assim e esta também é a visão do presidente da ­Fiesp, Paulo Skaf.

Os de­sa­fios que vivia o pro­fis­sio­nal gráfico há 15 anos são os mesmo atual­men­te?
WV
– Não, principalmente pela globalização. Vivemos em um mercado global. Nosso concorrente não é apenas a empresa da cidade vizinha, mas também as que estão em outros continentes. Isso exige mais qualificação, conhecimento da língua inglesa, atua­li­za­ção constante.

Olhando agora para o Senai-SP, a instituição está em fase de investimento e crescimento. Quais são os principais projetos?
WV
– Não vejo o investimento apenas pelo investimento. Ele é consequência de um modelo de formação pro­fis­sio­nal que estamos seguindo, da necessidade de trabalhar com tec­no­lo­gias e equipamentos com os quais os alunos possam aprender fazendo. Estamos retomando as origens do Senai, que nasceu dentro de um processo de desenvolvimentismo que o Brasil estava vivendo na década de 40. A educação, mais do que um direito, é uma ferramenta de desenvolvimento econômico e para que ela aconteça, um am­bien­te de aprendizagem
adequado é es­sen­cial.

Os projetos, então, seguem essa linha?
WV
– Sim. No passado, a tecnologia caminhava mais lentamente. Então, a expansão do Senai se deu através de um modelo reprodutivo. Pegava-se escolas que davam certo, como a Escola Senai Roberto Simonsen, e reproduzia-se sua estrutura, em menor escala, em outras cidades. Mas o ritmo de atua­li­za­ção tecnológica se acelerou muito, assim como mudou a dinâmica da economia de cada re­gião. Hoje, ao se estruturar uma escola, o que precisa predominar como referência é a vocação econômica da cidade. Por isso nossos investimentos têm sido nesse sentido, objetivando atender a demanda localmente, transformando cada uma das escolas em centros de excelência.

Além da formação de mão de obra, o Senai-SP vem dedicando-se à prestação de serviços técnicos e tecnológicos à indústria. Qual a importância desse trabalho? Ele deve ser am­plia­do?
WV
– Sim, e muito, sobretudo junto às pequenas e mé­dias empresas. O Senai-SP criou a figura do agente de inovação, que é o pro­fis­sio­nal que vai à empresa para fomentar o processo de inovação. Dentro das escolas também estamos estimulando a cria­ti­vi­da­de. Os alunos ficam conhecendo problemas específicos da indústria e têm de apresentar soluções. O próprio Senai-SP está fi­nan­cian­do 43 projetos de inovação dentro de empresas, com um investimento de R$ 15 mi­lhões, projetos focados em necessidades concretas. Por meio desse trabalho acredito que as escolas possam ser reconhecidas como centros de inovação e tecnologia. Não se trata de adotar essa nomenclatura e sim fazer por merecer, ­atuar de tal forma que a escola se distinga por isso.

Muito se fala hoje do apagão de mão de obra e da urgência em preparar profissionais para responder a necessidades ime­dia­tas. É possível responder a essa carência com rapidez? Está mesmo havendo um apagão de mão de obra?
WV
– A formação dessa mão de obra não é só responsabilidade do Senai. Mesmo porque em vá­rias ­­áreas a necessidade é por pes­soas com formação su­pe­rior. Mas, por exemplo, eu acho complicado falar em apagão de mão de obra em ­­áreas que têm se mostrado menos atraen­tes ao trabalhador. No ano passado, por exemplo, segundo dados do governo federal, foram pagos R$ 24 bi­lhões em salário desemprego. Ou seja, o que acontece é que existem setores que, pela natureza do trabalho, já não ­atraem mais tantos profissionais.
O verdadeiro apagão de mão de obra existe quando há um descompasso entre a oferta e a demanda, e, em consequência disso, o setor atingido começa a elevar os sa­lá­rios para atrair profissionais. Isso está acontecendo com os engenheiros. Há falta desses profissionais no mercado e as empresas já oferecem sa­lá­rios 20, 30% su­pe­rio­res.
Como queremos um país mais competitivo se temos 27,4 mil cursos su­pe­rio­res espalhados pelo Brasil, dos quais apenas 2,3 mil formando engenheiros e tecnólogos? Não há um alinhamento entre as políticas de tecnologia, edu­ca­cio­nal e in­dus­trial.
A questão é que as relações de trabalho no Brasil precisam evoluir muito. O empresário está voltado somente para o resultado. Assim, em época de baixa, quando deveria investir no treinamento de suas equipes, acaba demitindo e quando a economia se aquece não está preparado para responder à demanda.

Como o Senai pode ajudar nesse cenário?
WV
– O Senai tem flexibilidade para atender demandas pontuais. Para citar um exemplo, na década de 70 eu era agente de treinamento em Santo André, pe­río­do em que começava a ser cons­truí­do o polo petroquímico de Ca­pua­va. Uma empresa procurou o Senai porque estava precisando de soldadores. Estava recrutando gente em todo o Brasil, mas era um processo caro e demorado. O curso de soldador tinha duração de 24 meses e a empresa não podia esperar. Fizemos uma análise ocu­pa­cio­nal para verificar o perfil do soldador e as com­pe­tên­cias ne­ces­sá­rias para a execução do trabalho específico daquela obra. Com base nesse estudo, estruturamos um treinamento de sete semanas. Montamos uma escola de solda no canteiro de obra e a cada sete semanas cerca de 200, 300 soldadores eram treinados. E essa tem sido uma prerrogativa do Senai: atender sob demanda, respondendo às necessidades emergenciais da indústria.

Qual o maior desafio do Senai?
WV
– O maior desafio é encarar as novas tec­no­lo­gias. Até o final do ano, por exemplo, teremos a nanotecnologia na grade curricular na Escola Senai Suí­ço-​­Brasileira e em mais cinco escolas móveis. Temos de nos preparar para o futuro da indústria. E a formação pro­fis­sio­nal depende de uma formação básica de qualidade. Pensando nisso, no Sesi que mantém escolas de ensino básico, estamos instalando o regime de tempo integral, pro­por­cio­nan­do à crian­ça o contato com a ciên­cia e a tecnologia. Isso a partir do seis anos. Para formar o trabalhador do futuro uma boa base é es­sen­cial. Se podemos fazer a diferença dentro de nossa casa, com os recursos que dispomos, vamos fazer.

Texto publicado na edição nº 80