home > Entrevistas > Sidney Silveira: "A decisão de implantar o gerenciamento de cor tem de vir de cima"
twitter
Banner Facebook

Parceiros

Sidney Silveira: "A decisão de implantar o gerenciamento de cor tem de vir de cima" Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Seg, 03 de Outubro de 2011

A rotina de Sidney Maurício Silveira, diretor-​proprietário da Starlaser, é mostrar ao mercado que investir em softwares de controle de processo não é mais um luxo exclusivo das grandes gráficas, e sim uma necessidade para quem quer manter-se competitivo. Formado em Administração pelo Mackenzie, pós-​graduado em Marketing pela ESPM e em Gestão Empresarial pela Trevisan, Sidney Silveira atua no setor gráfico desde 1993, desenvolvendo ações e produtos para a evolução do mercado.

Os primeiros sistemas de gerenciamento de cor foram implantados no Brasil há mais de uma década. Qual a razão de parte do mercado ainda desconhecer esse processo?
Sidney Silveira
– Durante muito tempo foi vendida aos gráficos uma ideia que não era correta em função do desconhecimento do mercado sobre o que era o processo, incluindo os próprios fornecedores. Pensava-se em gerenciamento de cor por partes. Só o monitor, só a impressora offset, partes isoladas. Mas a gestão da cor começa no monitor e vai até a impressora, envolve um conjunto de ações. Hoje o segmento gráfico começa a enxergar o processo dessa forma. Além disso, há mais ferramentas disponíveis, com preços mais acessíveis, viabilizando o gerenciamento da cor. Os cases de sucesso estão aparecendo aqui e ali, mostrando os benefícios práticos desse gerenciamento, não só com relação à qualidade e repetitibilidade da impressão, mas também redução do tempo de setup e economia de insumos como a tinta. O gráfico está percebendo que só será mais produtivo se for mais eficiente e o gerenciamento de cor está deixando de ser um bicho de sete cabeças. Porém, temos muito que evoluir. Falando como diretor da Starlaser, não percorremos nem 5% do mercado.
Quando a gráfica começa a pensar em gerenciamento de cor?
SS
– Tirando as gráficas de ponta, que tradicionalmente saem na frente em termos de tecnologia, a gráfica corre atrás disso quando os problemas aparecem, como no momento em que um cliente importante devolve um material porque a cor está fora das especificações, ou quando sente-se pressionada por clientes que estão exigindo o cumprimento de padrões mundiais. O gráfico fica entre perder um grande cliente, por exemplo, e investir 70, 100, 200 mil reais em um sistema de gerenciamento de cor. O sistema ainda é visto como um item caro. Só que uma gráfica com impressão rotativa consegue recuperar esse investimento em um mês e meio. Ela imprime melhor, gasta menos papel e outros materiais, polui menos o meio ambiente. A nova geração de empresários gráficos vem com uma cabeça mais aberta, compreende melhor a função do gerenciamento de cor.
O gráfico da velha guarda tem dificuldade de investir em sistemas que não deem resultados diretos?
SS
– É, ele não investe porque é intangível. Eu brinco aqui com o pessoal. Dá vontade de comprar uma geladeira, colocar o software lá dentro e então entregar para o cliente. Procuramos mostrar para as gráficas que às vezes nem é preciso adquirir mais uma máquina impressora, que a agilidade e a redução no setup proporcionadas pelo controle do processo pode permitir que ele tenha a mesma capacidade produtiva com um número menor de equipamentos. Outro mito é que gerenciamento de cor é só para gráfica grande. Atualmente existem soluções para todos os bolsos, para gráficas pequenas, médias e grandes. Digo que não demora muito e o gerenciamento de cor será como curso de pós-​graduação: você faz para continuar no mercado de trabalho, e não mais como um diferencial no currículo.
Vamos imaginar que eu tenho uma gráfica e quero implantar o gerenciamento de cor. Por onde começar?
SS
– Há duas formas de começar. A primeira é padronizar a impressão, e junto com isso vem o treinamento. Não vendemos produtos sem treinar a equipe da gráfica para que se torne autossuficiente. Os funcionários são treinados in loco, aprendendo desde informações básicas sobre teoria da cor até a operação do software. Você vai precisar de um densitômetro, de um espectrofotômetro e do programa que faz o controle do processo na pré-​impressão, gerenciando variáveis como ganho de ponto e trapping. Isso pensando em impressão offset. Você pode preferir começar pelas provas, padronizando-as para que sigam os padrões internacionais da norma ISO 12647 e fazendo que com se tornem uma referência real. Você vai precisar de uma impressora digital jato de tinta profissional com pelo menos oito cores, um espectrofotômetro e o software para gerenciamento das provas. A gráfica terá de ter também um monitor profissional, que permita ajustes finos, possibilitando ao operador visualizar na tela o mesmo que será reproduzido pelo sistema de prova.
Vencida essa primeira etapa, a gráfica deseja aprimorar o controle do seu processo produtivo. Qual é o passo seguinte?
SS
– Ela pode trabalhar com dois softwares que atuam em frentes diferentes: na otimização do uso da tinta e na automação do ajuste dos arquivos. O primeiro programa permite a redução da carga de tinta usando algoritmos que compensam o CMY através do preto. Essa compensação torna a impressão mais nítida, mais limpa, pois usa uma carga menor de tinta. É possível reduzir em até 30% a carga de tinta sem mudar o tom da cor. O software controla isso no momento em que o arquivo está sendo ripado. Mas é preciso estar com a manutenção da impressora offset em dia. O outro software, que também roda quando o arquivo é ripado, faz a separação e os ajustes nos arquivos com relação à cor. Se você der o mesmo arquivo para três operadores diferentes, cada um vai fechá-lo de uma forma. Esse software equilibra a cor em arquivos que compõem um mesmo produto. Através de um único comando, o operador pode mudar os parâmetros de cor do arquivo de um trabalho que seria impresso em offset e que agora será produzido em flexo. O programa pode seguir padrões prévios ou estabelecidos pela gráfica. Pensando em parques gráficos híbridos, é esse software que vai permitir que um mesmo arquivo seja impresso em offset e digital com resultados semelhantes. Cumprindo todas essas etapas, o gráfico terá a segurança de que o que ele vê no monitor é exatamente o que será impresso. Erros podem acontecer, mas você diminuirá as variáveis.
Quanto tempo demora todo o processo?
SS
– Quinze dias, se estivermos falando em uma única impressora, trabalhando com o mesmo papel e com a mesma tinta. Sim, porque não há padronização se a cada dia a gráfica trabalha com fornecedores e insumos diferentes ou não controlados. Mas para a implantação do gerenciamento de cor dar certo o apoio do dono, do gestor da gráfica, é imprescindível. A decisão tem de vir de cima para baixo.
Por quê?
SS
– Porque, se a decisão não for firme, o processo pode ser prejudicado por um ou outro funcionário que não quer mudanças em sua rotina. Desculpas como “estava com pressa e não medi a densidade” são comuns e comprometem o cronograma de implantação, assim como não medir a solução de molha, trabalhar cada dia com uma tinta, deixar o espectrofotômetro guardado na sala do diretor e tantas outras práticas. O controle do processo produtivo é fundamental. É preciso trabalhar com fornecedores confiáveis e controlar a qualidade das matérias-​primas que entram na gráfica. Isso tanto para offset quanto para flexo, roto ou digital. E depois que está tudo funcionando corretamente é preciso continuar monitorando para que o processo se mantenha alinhado.
Quando os resultados começam a aparecer no caixa da gráfica?
SS
– O ganho em produtividade vai depender da gráfica e de como era o seu processo produtivo antes do gerenciamento de cor. Indicativos vêm da comparação, por exemplo, do número de folhas usadas no ajuste da máquina antes e depois, que tende a cair, e do tempo de setup, que também diminui. Essa conta pode ser feita de outra forma. O controle do processo e o gerenciamento de cor podem, por exemplo, evitar que um trabalho de R$ 500 mil seja devolvido, queimando a gráfica com aquele cliente que representa nada menos que 60% do seu faturamento.

Texto publicado na edição nº 79