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Sintético e... reciclado! Imprimir E-mail
Escrito por Letícia Fagundes   
Sex, 05 de Junho de 2009

Presidente da Vitopel fala sobre papel sintético reciclado, que pode ser usado em vários produtos como rótulos e capas de livros.

 

Depois do papel sintético, chegou ao mercado, em maio, o papel sintético todo produzido com matéria-​prima reciclada. O produto, que demorou três anos para ser desenvolvido, é fruto da parceria entre o Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Vitopel, fabricante de filmes flexíveis biorientados e responsável pelo investimento, até aqui, de US$ 2 milhões.

Para o presidente da Vitopel, José Ricardo Roriz Coelho, o papel pode ser usado em diversas aplicações, como rótulos, livros e envelopes, trazendo vantagens ao mercado, que ganha mais um produto diferenciado e com patente 100% nacional. Ele também enfatiza o caráter sustentável da inovação que “dá ao lixo um destino nobre”. Além de estar à frente da empresa, José Ricardo é diretor da Associação Brasileira da Indústria de Filmes Biorientados (Abrafilme), do Instituto Paulista de Excelência da Gestão (Ipeg) e do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp.
 

Qual é o conceito do papel sintético 
reciclado?
José Ricardo Roriz Coelho – Sempre foi uma preocupação pensar em o que fazer com os plásticos descartados no dia-​a-dia das pessoas. Então, juntamos as duas coisas. Primeiro, a demanda por um papel que pode ser complementar ao papel tradicional porque pode molhar, é resistente ao tempo, não faz orelha, tem durabilidade muito maior. Segundo, a questão do meio ambiente. Começamos a aproveitar esse descarte, esse lixo que é jogado diariamente nas grandes cidades, dando a ele um destino mais nobre. O papel sintético reciclado é a combinação dessas duas 
coisas: qualidade e sustentabilidade.

De que maneira é possível aplicá-​lo 
comercialmente?
JC – Da mesma forma que o papel sintético. Podemos fazer material escolar, por exemplo. A criança não é tão cuidadosa com o livro, toma chuva, lê na piscina ou quer simplesmente passar o material para o irmão mais novo. Papel normal não aguenta tanto desgaste. O nosso sim. O mesmo acontece com manuais de equipamentos. Tem máquina que opera por 10 anos. Depois de cinco anos de manuseio diário, imaginem, o manual acaba. Pensamos também para envelopes, folders, laminação. Pode ser usado como papel para escrever, rótulo, tudo! Só não pode ser usado para algo que necessite ser rasgado, amassado. Para isso, não é apropriado.

Tendo os mesmos fins que o papel sintético já existente, a Vitopel visa substituir o antigo pelo novo?
JC – Uma das dificuldades que temos hoje é fazer acontecer a coleta seletiva em grandes volumes. Se você me pedir para amanhã 20 mil toneladas de papel sintético reciclado eu vou dizer que não tenho. Porque ainda tenho de pegar o lixo. Imagino que à medida que formos aumentando a coleta seletiva, vamos sim substituir o papel sintético já existente pelo papel sintético reciclado.

Justamente essa questão da logística é o maior desafio no momento?
JC – É um desafio, mas não vamos reinventar a roda. As mesmas cooperativas que pegam papel, alumínio etc. vão trabalhar para nós. Estamos fazendo contato com todas as cooperativas localizadas em volta das nossas três fábricas (Mauá/SP, Votorantim/SP, e Totoral, Argentina). A grande ideia das cooperativas é realmente tirar as pessoas da rua e fazer com que trabalhem e tenham um rendimento maior. Aos poucos, vamos incrementando esse fluxo de matéria-​prima para poder aumentar o output da fábrica e produzir mais.

Quem faz o processamento do plástico?
JC – A cooperativa só vai fazer a coleta. Nós vamos extrusar o material e fazer todo o resto.

Além do plástico reciclado, quais são os outros itens que entram na composição do produto?
JC – São praticamente 85% de plástico pós-​consumo e tem muita apara de outras fábricas. Por exemplo, podemos utilizar pontas de uma fábrica de embalagem.

Entre pesquisa e desenvolvimento, quanto tempo e capital esse projeto consumiu?
JC – Foi nos últimos três anos que avançamos bastante. Investimos US$ 2 milhões no projeto até o momento. É um produto que nos exigiu um grau de expertise muito grande. Queremos entregar um papel que tenha o mesmo padrão de qualidade do papel sintético normal e que ainda possa ser reciclado muitas e muitas vezes. Agora que temos isso pretendemos investir ainda mais. Prevemos para 2009 mais US$ 3 milhões.

Ao longo desse período, como foi a participação da UFSCar e da Fapesp?
JC – As parcerias com faculdades e agências de fomento são muito positivas porque não se inova sozinho. O pessoal da faculdade ajudou muito em pesquisa, laboratórios, assim como a Fapesp, que entrou com bastante suporte e estrutura. Ao mesmo tempo, dificilmente chegaríamos ao produto se não fosse o nosso centro de desenvolvimento. Só há três centros de desenvolvimento de biorientados no mundo e um deles é o nosso. Então, foi tudo feito a seis mãos.

Não existe produto similar no mercado?
JC – Nem no mercado nacional, nem no internacional. E outra coisa: é um produto inteiramente desenvolvido no Brasil. É uma patente nossa. A indústria nacional de papel é forte, a de petróleo também. Com o papel sintético reciclado, estamos agregando valor à cadeia de impressão. Então, a indústria gráfica brasileira pode ser muito mais competitiva em nível mundial.

Há uma expectativa de boa receptividade, por conta disso?
JC – Ainda não temos condições de atender ao volume de pedidos que já começa a chegar. Do pessoal de livros infantis, todo mundo quer fazer com esse papel. Qual a nossa preocupação? Ter um fluxo contínuo. Não queremos atender em um mês e noutro não. Cresceremos à medida que nos estruturarmos.

E quanto ao preço?
JC – Apesar de produzido com matéria-​prima oriunda de material reciclado pós-​consumo, essa opção de papel sintético não terá um preço inferior ao do papel sintético obtido a partir de matéria-​prima virgem. Isso em função do custo, ainda relevante, do tratamento do resíduo pós-​consumo para torná-​lo apto à utilização como matéria-​prima. Assim que começar a ser produzido em maior escala, o preço se aproximará do papel comum.

Falando mais especificamente para o mercado gráfico, o senhor aponta quais dificuldades?
JC – Os fabricantes de tinta, os impressores, os profissionais do setor vão ter de aprender a trabalhar com esse novo papel. Mas, nada que seja muito diferente do que já existe no mercado. A impressão do papel sintético pode ser feita pelos processos gráficos usuais, como offset plana ou rotativa. Não há limitação de velocidade de impressão do papel sintético em relação ao papel convencional. No entanto, em função da característica de superfície do papel sintético, recomenda-​se a adaptação do processo de impressão para assegurar aderência e quantidade de tinta adequadas a esse substrato, já que o papel sintético não apresenta a propriedade de absorção de líquidos do papel convencional. Além disso, deve-​se evitar um empilhamento excessivo das folhas recém-impressas imediatamente após a impressão para evitar a formação de manchas. Trata-​se de um produto novo e como todo novo produto as pessoas precisam aprender algumas coisas. Acho que a dificuldade maior, a princípio, é mesmo o fato de que o papel tradicional você encontra em qualquer lugar. O novo ainda não.

O papel será vendido em quais gramaturas e formatos?
JC – Eu posso vender em qualquer gramatura, formato, espessura. Se você quiser um papel para envelope de talão de cheque poderemos fazer. Eu não tenho limitação nenhuma quanto a isso, vai depender apenas da escala.

O papel sintético aceita tinta com secagem ultravioleta?
JC – Sim.

Qual o volume de produção estimado para esse ano?
JC – 10 mil toneladas, sendo que a nossa capacidade é de 150 mil toneladas/ano. Porém, precisamos de matéria-​prima para fazer isso. À medida que formos aumentando o trabalho entre as cooperativas, cresce o volume de produção.

Já foi marcada a data para o lançamento comercial?
JC – Vamos fazer o lançamento oficial na feira Brasilplast, que começa no dia 4 de maio. Todos os folders da Brasilplast já serão nesse novo papel.

Como será o fornecimento do produto?
JC – As grandes empresas comprarão diretamente da Vitopel. Mas, teremos também representantes e distribuidores.

Quando o novo produto foi anunciado à imprensa, houve uma polêmica sobre a idéia de que o papel sintético reciclado evitaria a derrubada de árvores…
JC – Não é uma visão da Vitopel. Eu admiro muito a indústria de papel e celulose. A maioria das empresas tem uma preocupação muito grande em relação à sustentabilidade. Todas trabalham com reflorestamento, com grande responsabilidade socioambiental. Eu vejo o papel sintético reciclado como complementar. A grande vantagem é que as duas indústrias juntas vão tornar a indústria gráfica brasileira muito mais competitiva. É bom para a indústria, é bom para a sociedade, porque haverá um destino nobre para o lixo, e é bom para o consumidor final, que terá produtos de qualidade.    

Texto publicado na Edição 66