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A importância e a aplicabilidade de condições de visualização padronizadas Imprimir E-mail
Escrito por Bruno Mortara   
Ter, 31 de Março de 2009

Veja porque condições padronizadas de visualização possibilitam maior consistência nas operações dentro das gráficas.

Uma das discussões mais interessantes em andamento nos comitês de artes gráficas (TC130) e de fotografia (TC42) da ISO (In­ter­na­tio­nal Standards Or­ga­ni­za­tion) refere-​se às condições de vi­sua­li­za­ção. Se, por um lado, os computadores liberaram os fotógrafos das salas escuras (dark­room), por ou­tro descobriu-​se que não se pode apre­ciar, julgar e tratar imagens em condições inadequadas de iluminação. As normas ISO existentes acabam fazendo com que as condições de vi­sua­li­za­ção de fo­to­gra­fias nas artes gráficas novamente fiquem “escurecidas”. Vamos entender melhor o que dizem essas normas e ­quais se­riam as ma­nei­ras mais práticas de implementá-​las.

O uso de condições padronizadas de vi­sua­li­za­ção permite não só uma ­maior precisão na interpretação das cores, como uma consistência entre todas as operações da indústria gráfica. Além do mais, somente dessa ma­nei­ra é possível comunicar informações e aprovações sobre as cores entre departamentos e empresas. A adoção dessas normas ISO, modificando as características de iluminação para adequarem-​se às normas, sempre resulta em menos erros de cor nas saí­das, o que acaba reduzindo os custos de produção.

A ISO tem duas normas importantes para definir as condições de vi­sua­li­za­ção: a ISO 3664, estabelecendo as condições de vi­sua­li­za­ção para todos os segmentos da indústria gráfica, e a ISO 12646, que determina a comparação entre uma imagem no monitor e uma prova física.

Quan­do queremos definir as características físicas de um am­bien­te de edição de imagens temos duas abordagens pos­sí­veis: se você estiver gerando imagens que devem equivaler a provas físicas de contrato, deverá estar em conformidade com a norma mais importante e mais restritiva, a ISO 12646. Caso você seja um desenvolvedor para web que raramente produz provas de contrato, pode usar a norma menos rígida, a IS0 3664.

ISO 3664
A pri­mei­ra norma a observarmos de perto é a ISO 3664 (Graphic technology and photography Vie­wing con­di­tions). Ela define as condições ge­rais para apre­cia­ção e julgamento de imagens de diversas naturezas: cromos, fo­to­gra­fias, impressos e imagens em monitores de vá­rias ca­te­go­rias. No corpo da norma aparece: “A fim de assegurar a coe­rên­cia na ava­lia­ção de imagens observadas em monitores coloridos, é importante que as condições de vi­sua­li­za­ção do am­bien­te em que estes estejam sejam ra­zoa­vel­men­te bem especificadas. No contexto desta norma, a definição de monitores coloridos inclui monitores CRT e ou­tras tec­no­lo­gias, como LCD, plasma e projetores. No entanto, convém notar que as especificações definidas na presente Norma In­ter­na­cio­nal são para a vi­sua­li­za­ção de imagens e não para a comparação de imagens de monitores com uma prova física, impressa; a norma ISO 12646 fornece recomendações mais detalhadas sobre as
comparações entre prova e amostras”.

Cromaticidade do monitor
Em relação à cromaticidade (cor de uma ra­dia­ção luminosa visível, caracterizável por duas coor­de­na­das cromáticas) dos monitores, a ISO 3664 estabelece o ponto de branco, da especificação ISO D65. Segundo a norma “Há evi­dên­cias de que, sob bai­xos ní­veis de luminosidade, monitores com cromaticidade próxima ao da D65 fornecem uma melhor evocação do branco e, além disso, tal cromaticidade permite aos monitores, com a ­atual tecnologia, alcançarem um ­maior nível de luminosidade. No entanto, se o monitor for diretamente comparado a impressos ou trans­pa­rên­cias, a cromaticidade do branco do monitor deve estar próxima à do impresso, isto é, perto do iluminante D50. As especificações para comparação entre os monitores coloridos e impressos estão descritas com maio­res detalhes na norma ISO 12646”.

Luminosidade do monitor
A luminosidade dos monitores tem uma relação direta com o ponto de branco, devido às restrições de tecnologia ­atuais. Esta deve ser de 80 cd/m² até 160 cd/m² (candela/m², medida de luminância, que é o quociente entre a intensidade do fluxo luminoso emitido por uma superfície em uma dada direção e a área dessa superfície projetada ortogonalmente sobre um plano perpendicular àquela direção).

Conforme a temperatura de cor sobe (monitor com branco mais azulado, menos amarelado), os ní­veis de luminosidade que o monitor pode atingir au­men­tam subs­tan­cial­men­te. É desejado um nível de 100 cd/m², porém alguns monitores antigos, com branco em D50, não conseguem atingir tais ní­veis de luminosidade.

Iluminação do ambiente
A norma tem um interessante método de especificar a iluminação do am­bien­te onde o monitor está sendo utilizado: “esta deverá ser su­fi­cien­te­men­te bai­xa, de ma­nei­ra que a luminosidade de um difusor de reflexão per­fei­ta, colocado à frente do monitor, com o monitor desligado, não seja ­maior que 1/4 da luminância do ponto de branco do monitor”. A temperatura de cor da iluminação deve ser igual ou in­fe­rior à temperatura do ponto de branco do monitor, ou seja D65. Aqui temos a questão que a ou­tra norma, ISO 12646, tratará: se estivermos comparando uma imagem impressa à ou­tra no monitor, por definição, a impressa deverá ser observada sob iluminação D50. Então, a fim de satisfazer as duas condições, é sempre melhor que a iluminação tenha temperatura de cor D50.

A quantidade de luz é ou­tra questão cru­cial na observação de imagens em monitor e impõe aos tratadores de imagens e designers gráficos um sacrifício ra­zoá­vel: “O nível de iluminação am­bien­te deve ser significativamente in­fe­rior ao nível de luminosidade do ponto branco do monitor”. Portanto, menor que 80 cd/m². O objetivo é assegurar que o observador se adapte bem ao monitor e, principalmente, para garantir que ele consiga observar toda a gama de contrastes quando o monitor não é atingido por brilhos externos, fato que reduz subs­tan­cial­men­te essa capacidade.

Condições das bordas da imagem no monitor
As ­­áreas circunstantes à imagem vi­sua­li­za­da no monitor devem ter coloração neu­tra, de preferência cinza escuro ou preto com a mesma cromaticidade do ponto branco do monitor. A luminosidade ime­dia­ta­men­te ao redor deveria ser de 20% da luminosidade do ponto de branco. Quan­do o monitor for utilizado para se comparar a um impresso, a borda poderá ter de um a dois centímetros de largura, com branco que possa simular o substrato da prova impressa.

Condições do ambiente
O monitor deve estar si­tua­do em um local que não possua paredes ou objetos de coloração intensa, inclusive as rou­pas do operador. Zonas fortemente coloridas no campo de visão do operador ou que possam cau­sar reflexos na tela do monitor são extremamente maléficas para o julgamento de imagens. “Ideal­men­te, todas as paredes, pavimentos e mo­bi­liá­rio no campo de visão devem ser cinzentas e livres de quais­quer cartazes, anún­cios, imagens, texto ou qualquer ou­tro objeto que possa afetar a visão do telespectador”, afirma a norma.

Brilhos indesejados
A interferência de fontes de luz, que representam um ruí­do em relação à imagem do monitor, pode cau­sar perda de contraste e resolução vi­sual. É recomendável que esse tipo de interferência seja evitado, na medida do possível, uma vez que degrada significativamente a qualidade da imagem. A posição do monitor deve estar de tal forma que não receba brilhos diretos de nenhuma fonte de luz, como lâmpadas sem protetores ou janelas diretamente no campo de visão, que podem cau­sar reflexos na superfície do monitor.

ISO 12646
A segunda norma que visitaremos é a norma “ISO 12646 – Graphic technology – Displays for co­lour proo­fing – Characteristics and vie­wing con­di­tions”. Nela estão pressupostas as condições da ISO 3664, porém são contempladas as condições de comparação entre as imagens do monitor e as provas impressas.

Essa norma ressalta que — não obstante as condições de iluminação tenham sido descritas de ma­nei­ra consistente com a norma ISO 3664 — visa à comparação de provas físicas com provas de monitor (soft­proof) e, portanto, condições ain­da mais restritivas se aplicam à mesma. Isso significa que o nível de iluminação am­bien­te, temperatura de luz e cores circunstantes, além de in­ter­fe­rên­cias de reflexos sobre o monitor, têm condições mais restritas. A norma ISO 12646 restringe a luz am­bien­te para ní­veis bai­xos: “O nível de iluminação, quando medido na face do monitor ou em qualquer plano entre o monitor e o observador, deve ser in­fe­rior a 32 lx” (lux, unidade de medida de iluminância, que é a densidade do fluxo luminoso sobre uma superfície). A iluminação ao redor do monitor não deve ter mais que 10% da máxima luminosidade do mesmo e a temperatura de cor deveria ser próxima a D50.

É possível estar em conformidade?
As considerações acima nos levam para a cria­ção de am­bien­tes de edição de imagens e de comparação com provas físicas separados dos am­bien­tes de escritório, normalmente mui­to bem iluminados. Para começar, as janelas devem ter cortinas ou ve­ne­zia­nas para manter um nível constante de iluminação ao longo do dia. As luzes utilizadas devem ter a temperatura de 5.000° Kelvin; melhor ain­da se forem D50. As paredes e o teto devem ser pintados de cinza neu­tro e é preciso evitar a presença de objetos, pôsteres, quadros de cores não neu­tras. Um bom operador pode encontrar dificuldades de distinguir entre duas cores no monitor (assunto, su­jei­ra etc.), caso as condições de edição e vi­sua­li­za­ção de imagens di­gi­tais não sejam rigidamente controladas.

Porém, a implementação dessas normas não parece ser uma tarefa mui­to simples. Na ISO 3664, a iluminação am­bien­te em ­­áreas de edição é mui­to reduzida; ”seria bom que fosse” in­fe­rior a 64 lux, porém seria “­ideal que fosse” in­fe­rior a 32 lux. Uma empresa que deseje se ater às normas ISO, indicando ao mercado sua excelência em qualidade, terá certamente uma pequena batalha: algumas pes­soas podem achar que trabalhar sob uma iluminação de 32 lux é trabalhar no escuro. Numa sala com somente uma lâmpada incandescente de 100 watts e paredes pintadas com um branco sua­ve, te­ría­mos uma lei­tu­ra de cerca de 350 lux a 60 cm da lâmpada.

Um fotógrafo acostumado à sala escura pode se ha­bi­tuar facilmente, contudo um fun­cio­ná­rio de escritório terá uma grande dificuldade, uma vez que os trabalhadores de escritório estão ha­bi­tua­dos a um nível relativamente alto de iluminação, chegando até a 750 lux.

As mudanças
A pri­mei­ra coi­sa a fazer é se livrar das lâmpadas incandescentes (de tungstênio) e instalar lu­mi­ná­rias de tubos fluo­res­cen­tes de 5.000°K. As paredes e o teto deverão ser de um cinza neu­tro, que ideal­men­te deveria equivaler à cor N8 do livro de cores de Munsell. As janelas deverão ser cobertas com ve­ne­zia­nas, a fim de impedir a entrada de até 75% da luz de fora, ou totalmente tampadas, para evitar a entrada de luz, uma vez que esta não é controlada. Os monitores de tratamento de imagem nunca devem ser colocados de frente, de costas ou perto de uma janela, a menos que a janela seja fortemente som­brea­da. Caso contrário, o brilho da luz que entra pela janela dificulta a percepção dos ní­veis de contraste do monitor, assim como interfere na acui­da­de da percepção das cores e de suas diferenças. É importante eliminar todas as in­ter­fe­rên­cias vi­suais nocivas à percepção de cores: rou­pas de tonalidades fortes, o desktop do computador colorido, quadros ou mó­veis brilhantes são os prin­ci­pais alvos.

Conclusão
Apesar da CIE (Com­mis­sion In­ter­na­tio­na­le de L’Eclai­ra­ge, ou Comissão In­ter­na­cio­nal de Iluminação) ter definido em 1932 o padrão D50 como padrão espectral de iluminação para ava­lia­ção de provas, até hoje temos dificuldades em estar dentro das condições ­ideais. As duas normas revistas neste artigo enriquecem nosso arsenal de medidas com a finalidade de tornarmos a indústria gráfica efi­cien­te, con­fiá­vel e, principalmente, consistente. Algumas pou­cas medidas, como a aquisição de lâmpadas D50 ou, pelo menos, de 5.000°K, a pintura de paredes com tons neu­tros e a cobertura par­cial ou total de janelas, já au­xi­liam mui­to.

Não podemos nos esquecer que, após estarmos em condições melhores de vi­sua­li­za­ção, nosso sistema de edição, computador/monitor, tem de ser calibrado constantemente com o au­xí­lio de um colorímetro, com o ponto de branco fixado em D65. O sistema de calibração no final de seu processo carrega o perfil resultante no sistema ope­ra­cio­nal, onde fica à disposição de todas as aplicações.
Am­bien­te e monitor em conformidade são as prin­ci­pais armas do tratador de imagens ou do pro­fis­sio­nal de fotografia ou pré-​impressão!

Bruno Mortara é superintendente do ONS27 e coordenador da Comissão de Estudo de Pré-Impressão e Impressão Eletrônica, na ABTG, e professor de pós-graduação na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na Edição 65