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Para controlar a cor e os processos, a gráfica precisa de software, hardware e "peopleware" Imprimir E-mail
Escrito por Elisabete Pereira   
Qua, 06 de Julho de 2011

A adesão ao gerenciamento de cor vem sendo um processo gradativo na indústria gráfica brasileira, porém num ritmo ainda lento. Essa é a opinião de Oliver Povareskim, diretor da Povareskim Color Consulting, empresa especializada em soluções e aplicações profissionais para os setores gráfico, flexográfico, de embalagem e de pré‑impressão. “Se compararmos o setor hoje e há 14 anos, o que mudou muito foi a tecnologia, mas as gráficas são lentas em adotar as novas práticas”, diz o executivo, que soma 25 anos no setor gráfico, dez dos quais na Burti. Confira, a seguir, na entrevista exclusiva para a revista Tecnologia Gráfica, os entraves e as novidades dessa área.
Há 14 anos, quando a Povareskim começou a operar, poucas empresas falavam ou sabiam o que era gerenciamento de cor na indústria gráfica e um número ainda menor o fazia. Olhando pra trás, como o senhor vê o desenvolvimento desse processo no Brasil?
Oliver Povareskim
– A disseminação desse processo vem sendo gradativa, mas num ritmo extremamente lento. As gráficas até compram equipamentos, têm a vontade de fazer, mas esbarram no problema cultural. Pelo menos 95% não tem preocupação com gerenciamento. Nesses 14 anos o que mudou muito foi a tecnologia, mas as empresas são lentas em colocá‑la em prática. Para se ter uma ideia, tem gráfica que ainda não possui densitômetro, depende de terceiros para medição das cores. Uma referência clássica é o empresário que montou a gráfica há anos, tem casa na praia e em Miami, os filhos estão formados, então por que se preocupar? Outro problema é a mão de obra. Muitos dos profissionais que operam as impressoras não sabem, por exemplo, o que é valor colorimétrico.
Das empresas que dizem que fazem o controle de cor, há ainda as que desconhecem as reais aplicações dessa tecnologia, deixando de explorar todas as suas possibilidades?
OP
– Calculo que 80 a 90% das gráficas se preocupam com um trabalho de gestão e têm experiência com o processo. Por falta de conhecimento, de gente treinada e de experiência, as empresas acabam não utilizando todas as possibilidades do controle de cor, até porque há anos trabalham dessa maneira e se preocupam apenas com o básico. As empresas não se dão conta de que, utilizando corretamente as ferramentas de gestão, conseguimos tirar um terço a mais de uma máquina em termos de produção.
Com relação ao gerenciamento de cor, deixamos algo a desejar em comparação às gráficas europeias ou americanas?
OP
– No Brasil há uma deficiência no processamento, no know‑how e na tecnologia. Estamos bastante atrasados, mas já existem alguns estudos nesse sentido. As principais empresas têm até um controle razoável. Se pensarmos em qualidade de pessoal, estamos comparados aos americanos e europeus, mas o problema é que seguimos modelos estrangeiros e não temos uma base de estudo para criar o nosso próprio modelo, adaptando as normas internacionais para o nosso ambiente, nosso papel, nossa tinta, enfim, nossa realidade. A gente não questiona, apenas segue, e deixa a desejar porque não existe uma diretriz própria. Os americanos, por exemplo, têm o processo Gracol, criado especialmente por uma associação para atender o setor gráfico do país.
O que falta para que essa prática tenha maior penetração na indústria gráfica brasileira? É apenas uma questão de investimento? Qual a principal dificuldade do gráfico para iniciar essa prática?
OP
– Todos têm boa vontade no sentido de tentar melhorar. O que acontece é que as empresas investem em equipamentos ou softwares, mas há dificuldade para operacionalizar esse processo que, na maioria das gráficas, fica restrito ao meio produtivo. Poucas empresas têm alguém especializado em gerenciamento de cor, que acaba sendo feito por alguém da produção. Algumas até contratam serviços de terceiros, como os da Povareskim, porém a máquina se desgasta, há a troca do suprimento, resultando em dependência ou defasagem.
Em quais segmentos o controle da cor está mais desenvolvido?
OP
– Na parte de embalagem e na promocional tem‑se maior controle, principalmente no segmento de embalagem, porque os lotes precisam ser controlados. O mercado exige esse controle e as grandes empresas, como a Tetra Pak, a Rigesa, a Dixie Toga e a Newpel, tentam, ao máximo, fazê‑lo de forma mais acirrada e organizada. O controle da cor está num estágio mais crítico no segmento editorial, em que apenas cerca de 10% das gráficas se preocupam com um controle maior.
O senhor consegue resumir os principais benefícios da adoção das novas ferramentas para o gerenciamento da cor dentro de uma gráfica?
OP
– Agilidade na produção é o principal benefício. As ferramentas podem ser divididas em dois segmentos: softwares e hardwares. Há softwares, por exemplo, que podem ser utilizados para normatizar os arquivos que vêm de forma incorreta em relação à cor, à quantidade de tinta etc. e colocá‑los dentro do eixo para impressão. Há softwares que auxiliam na análise da produção gráfica em termos de qualidade e até permitem verificar se o operador da manhã é melhor que o da tarde, se o processo produtivo dele é mais eficiente que o do outro. Enfim, dão o histórico da máquina.
Enquanto isso, para fazer os soft­wares funcionarem, precisamos dos dados matemáticos das cores, o valor Lab e o valor colorimético, entre outros, fornecidos pelos hard­wares. Dependendo da solução de soft­ware ou hardware, você consegue aumentar de 30% a 70% a eficiência do processo de impressão com essas ferramentas, apenas analisando o processo.
Em paralelo ao controle da cor vem o controle da impressão e do processo como um todo e o atendimento às normas internacionais como a ISO. O gráfico brasileiro está maduro com relação à normalização ou ainda enxerga a adequação às normas apenas como um custo? Como o senhor vê o processo de normalização na área gráfica?
OP
– Existem as normas internacionais que o Brasil está começando a utilizar, mas a gráfica depende de terceiros: fabricantes de tinta, de papel etc. O nosso papel ainda não está normatizado, alguns fabricantes de tintas já estão. O grande entrave é o modismo. Quando alguém fala que a norma ISO vai resolver o problema e melhorar a parte produtiva, o que ela faz, na verdade, é alavancar o controle do processo produtivo. Uma gráfica pode trabalhar sem a norma ISO e estar totalmente controlada. A ISO é apenas um caminho para direcionar os gráficos a trabalhar com o processo normatizado. É como fazer um bolo que vai sair sempre com o mesmo gosto, garantindo além da repetibilidade, mais rapidez e economia de suprimentos. A norma é uma referência muito boa porque alguém já planejou isso. O gráfico precisa estudar mais para saber por que usar a norma. Se algum cliente adotar a ISO 100% em um livro de arte, ele fica igual ao dos outros. No entanto, com o processo produtivo normatizado, ele faz a impressão diferenciada.
É possível listar os cinco primeiros passos de uma gráfica que deseja começar a controlar a cor e seus processos? Quais cuidados o gráfico deve tomar?
OP
– A gráfica precisa cuidar da normatização dos arquivos recebidos, do controle de ganho de ponto, dos valores densitométricos na impressão e dos suprimentos (papel e tinta), da iluminação do ambiente de trabalho, da manutenção dos equipamentos gráficos, do treinamento contínuo e da capacitação do pessoal. Para controlar a cor e seus processos, a gráfica precisa de soft­ware, hardware e “peopleware”.
Nas feiras internacionais ou mesmo aqui no Brasil, vemos cada vez mais espaço dedicado aos softwares. Novos players e até mesmo fornecedores tradicionais estão investindo em aplicativos que tornem os processos gráficos mais eficientes, confiáveis e ágeis. Essa tendência vai se fortalecer? Por quê?
OP
– Os problemas só são solucionáveis se forem adotados softwares para compensar essa limitação. Hoje, em cinco segundos, pode‑se ter uma informação que há quatro anos demoraria dois minutos. Essas ferramentas permitem fazer compensações no tinteiro da máquina, de ganho de ponto, de Lab. Grandes empresas que vendem chapa, equipamentos e soluções de impressão estão preocupadas em atender o cliente com uma solução completa, um pacote fechado, mas com limitações, já que a atualização dos softwares pode ficar defasada ou demora a chegar ao mercado. Em compensação, novos players estão ocupando esse espaço. Nosso grande sucesso está exatamente em oferecer soluções para completar e otimizar o processo.
A Povareskim tem uma boa penetração no interior e em outros estados. O senhor consegue quantificar a interiorização das boas práticas no Brasil?
OP
– Calculo que 70% das boas práticas estão nos grandes centros, mas as gráficas do interior também estão preocupadas em manter o controle.
Nessa área de softwares para o controle da cor e do processo de impressão, o que há de mais novo, o que está sendo desenvolvido e que deve chegar ao mercado nos próximos meses?
OP
– Há algumas novidades na parte de gerenciamento de cor na área de impressão, em Pantone e Hexachrome. Vamos lançar na Drupa 2012 o Max Color, desenvolvido na Malásia, que permite ao cliente imprimir a escala Pantone com seis cores e 95% de precisão colorimétrica. No mercado, já existem algumas automações. A Alwan Color Expertise tem o Print Standardizer, que automatiza totalmente o controle de ganho de ponto sem a interferência humana. No entanto, as gráficas não têm condições de usá‑lo 100%. Outra grande novidade é o Bodoni pressSign Pro, um lançamento revolucionário, desenvolvido na Inglaterra e que já está rodando em alguns sites, mas sem grande divulgação. Essa ferramenta faz um banco de dados do processo de impressão controlando ganho de ponto, Lab e repetibilidade de processo. Permite a integração da produção com a gerência. Via web, por exemplo, o cliente pode acompanhar até a produção.

Soluções tropicalizadas
A Povareskim, sociedade dos irmãos Emerson e Oliver Povareskim, surgiu há 14 anos. Era uma das revendas da Apple (Mac) para as agências, para as quais a empresa já prestava serviço, além de suporte. “Resolvemos, então, oferecer tecnologia”, conta Oliver, acrescentando que, na época, o mercado não tinha tanta concorrência. Gradativamente a empresa, por meio de pesquisas e da relação com grandes distribuidores internacionais, começou a importar algumas máquinas (impressoras de provas cromáticas). “Esse foi o ponto de partida e trouxe todo conhecimento sobre cor em uma época que ninguém sabia nada sobre esse assunto”, diz Oliver Povareskim.
Atualmente, a empresa desenvolve produtos com parceiros da Inglaterra, Malásia, Hong Kong e França. Dessa parceria, Oliver cita o Chromedot, software para gerenciamento de cor usado há oito anos pelo setor gráfico. “Avançamos bastante e agora tropicalizamos nossas soluções, oferecendo serviços de gestão para gráficas de acordo com as necessidades de cada uma”.

Texto publicado na edição nº 78