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Recursos avançados OpenType para fontes digitais Imprimir E-mail
Escrito por Gustavo Lassala   
Ter, 31 de Março de 2009

O alfabeto latino possui 26 letras, considerando- se os caracteres de A até Z. Ao pensarmos em uma fonte digital, au­to­ma­ti­ca­men­te reduzimos o pensamento a esse total. No entanto, uma fonte digital é mui­to mais que isso. Acrescentando as maiús­cu­las e minúsculas dobramos o número de letras para 52. Como se não bastasse, temos ain­da os acentos, números, frações, símbolos matemáticos, mo­ne­tá­rios e pon­tua­ções.

 

 


As pri­mei­ras fontes di­gi­tais fa­ziam uso do Código Norte-​Americano Padronizado de Intercâmbio de Informação (ASCII). Esse código permitia o acesso a 128 caracteres por intermédio do teclado. Desses, 33 não eram im­pri­mí­veis, ser­viam apenas como caracteres de controle — atual­men­te obsoletos, por se tratarem de comandos voltados a máquinas como Teletype e fitas de papel perfurado. O restante são caracteres im­pri­mí­veis e ajudaram a formar a base das codificações ­atuais.

A necessidade de se suportar diferentes sistemas de escrita fez com que o sistema de codificação evo­luís­se por meio de padronizações, até o que conhecemos hoje como Unicode. Ele permite alocar até 100 mil caracteres, facilitando a escrita de línguas como o húngaro, polonês, romeno, tcheco, turco,
viet­na­mi­ta, e assim por dian­te.

O Unicode também permite alocar em um mesmo arquivo línguas latinas com o chinês, árabe, grego, cirílico, he­brai­co etc. A essa altura você deve estar se perguntando: Mas, para que vou precisar de tantos caracteres? Para Robert Bringhurst, essa quantidade toda de possibilidades serve para que redatores, au­to­res, tipógrafos e cidadãos comuns possam soletrar Dvořák, Miłosz, ou citar um verso de Sófocles ou Pushkin, ou até mesmo querer ler seus e-​mails em um alfabeto não latino.

Pode-​se dizer que uma fonte digital é um con­tai­ner de letras. Para definir uma seqüência de letras para formar uma palavra, o soft­ware solicita a letra por meio do sistema ope­ra­cio­nal, que formaliza o pedido, entrando em contato com o Unicode de uma determinada fonte digital. Portanto, uma fonte digital é um soft­ware. O caminho de acesso para a letra depende do formato da fonte e do sistema ope­ra­cio­nal. Atual­men­te, os formatos mais comuns existentes no mercado são: TrueTy­pe, Post­Script e OpenType.

O formato TrueTy­pe foi desenvolvido ini­cial­men­te pela Apple e contou com a colaboração da Microsoft. Ele foi cria­do para driblar os custos — caríssimos — de li­cen­cia­men­to do padrão Post­Script estabelecido pela Adobe. O TrueTy­pe armazena em um único arquivo informações para impressão e vi­sua­li­za­ção em tela. Esse formato precisa de um arquivo específico para Mac ou PC. Normalmente, apresenta problemas de rasterização, não sendo mui­to indicado para geração de matrizes de impressão.

O formato Post­Script foi cria­do pela Adobe para impressoras Post­Script Tipo 1 e Rips. Cada fonte possui um arquivo para vi­sua­li­za­ção da fonte em tela e ou­tro para impressão. Também precisa de um arquivo específico para Mac ou PC. Os dois formatos de arquivo apresentados (TrueTy­pe e Post Script) podem conter no máximo 256 caracteres diferentes. Por essa razão deve-​se ­criar arquivos distintos para fontes com fa­mí­lias mui­to extensas.

O formato OpenType, cria­do em conjunto pela Adobe e Microsoft, superou esse problema, permitindo alocar va­ria­ções de estilo de uma família em um único arquivo, devido a sua grande capacidade de armazenamento de caracteres. A dis­tri­bui­do­ra de fontes Fontshop nos mostra em seu site (www.fontshop.com) um exemplo concreto de efi­ciên­cia do formato OpenType, comparando os arquivos da fonte FF Meta, cria­da pelo designer Erick Spie­ker­mann.

A versão da FF Meta1 Post­Script para Mac possui um pacote com 360 arquivos, pesando 23.6 MB. A mesma fonte, agora chamada de FF Meta 1 OpenType Pro, possui quatro arquivos, pesando 676 KB. A empresa mostra que a redução de 360 para quatro arquivos permitiu reduzir a possibilidade de
perdas e conflitos de arquivo.

Os be­ne­fí­cios do formato OpenType não param por aí. Ele procura combinar características dos dois formatos an­te­rio­res e vai além. Possui natureza multiplataforma; você pode usar o mesmo arquivo em Mac e PC, sem a necessidade de conversão. Permite também agregar recursos avançados como capitulares, ligaturas, caracteres alternativos, ter­mi­nais (swashes), formas históricas, alinhamentos óticos, idio­mas diferentes, au­to­ma­ti­za­ção de frações, or­di­nais, superscript e subscript, alocar, ornamentos, entre ou­tros recursos.

A FontShop constrói um paralelo vi­sual interessante mostrando a versatilidade do formato OpenType, por meio de um infográfico — no site da empresa —, comparando o OpenType com o antigo formato Post­Script. Ali é mostrada, de um lado, uma fonte Post­Script representada por uma porção de ferramentas separadas e uma fonte OpenType como um canivete suí­ço. Não obstante, devemos atentar para o fato de que os recursos avançados de uma fonte digital (OpenType Fea­tu­res) só fun­cio­nam nos soft­wares da Adobe, notadamente a partir das versões CS. Os recursos OpenType, em geral, são ativados na janela Character e elencam uma gama limitada de funções, que podem va­riar dependendo do soft­ware e da versão.

Os designers de fontes têm dis­po­ní­veis, atual­men­te, mais de 120 pré-​definições de recursos avançados fornecidos pela Microsoft e Adobe. Apesar dos soft­wares mui­tas vezes não fornecerem suporte para todos os recursos avançados (fea­tu­res) dis­po­ní­veis no mercado, a tendência é de crescimento desse suporte e au­men­to das alternativas de configuração.

 



O cenário apresentado exige uma mudança de postura do consumidor final de fontes di­gi­tais. A tecnologia ­atual permite que a composição tipográfica se torne algo dinâmico e personalizado, aspecto até então mui­to pou­co explorado ou conhecido pelos designers gráficos em geral. O designer gráfico que antes atentava apenas para a escolha tipográfica adequada ao projeto e concentrava esforços na dia­gra­ma­ção harmônica do con­teú­do, hoje deve somar esforços para conhecer de modo aprofundado a fonte digital escolhida. E, ao final da composição, revisar o projeto buscando implementar os recursos avançados de forma cria­ti­va e inteligente.

As informações sobre fontes di­gi­tais podem ser conseguidas facilmente visitando sites de grandes dis­tri­bui­do­ras in­ter­na­cio­nais como FontShop, Myfonts, Veer, t26 etc; ou­tra forma é por meio do specimem da fonte — que é uma espécie de apresentação do projeto e guia de uso —, ou até mesmo buscando pelo au­tor do projeto.

Gustavo Lassala é designer gráfico, professor da Universidade Mackenzie, São Judas e do curso de pós-​graduação Produção e Planejamento de Mídia Impressa da Escola Senai Theo­bal­do De Nigris.

Texto publicado na Edição 65