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Qualidade é especificação Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Ter, 31 de Março de 2009
Defensor da ampliação do conceito da qualidade na indústria, expandindo-o do processo produtivo e do controle das matérias-primas para todos os campos, incluindo a informação recebida e transmitida ao cliente, José Carlos de Jesus completa, em 2009, 15 anos de setor gráfico.
Formado em Psicologia e Administração de Empresas, atuou na área de qualidade de algumas indústrias até ingressar no Grupo Melhoramentos, em 1994. Começou no departamento de Recursos Humanos, depois foi chamado para incrementar o setor de Qualidade e quando deixou a gráfica para trabalhar na UVPack já era responsável pelo acabamento. Na UVPack desde 1998, passou por vários setores até assumir a gerência industrial.
Depois de 15 anos de indústria gráfica, o que o senhor acha que mudou no setor ao longo desse período?
José Carlos – A importância do relacionamento entre as áreas, os departamentos que compõem a gráfica, cresceu muito. Há 15 anos não havia interação entre elas. Produção, PCP, compras, atendimento ao cliente, não se comunicavam entre si. Hoje, além de estarem integradas, há uma grande preocupação de que as informações sejam as mais claras possíveis. Outra mudança importante aconteceu na área da qualidade, que sempre foi subjetiva.
A Melhoramentos, anos atrás, assim como boa parte das gráficas, mantinha uma área de qualidade,
porém os controles eram basicamente mecânicos e somente as pessoas diretamente ligadas aos processos eram envolvidas. Ainda há muito que caminhar, mas a qualidade está mais presente, permeando todas as etapas. O cliente exige qualidade, os profissionais se preocupam com a qualidade da informação que vem do cliente e que é dada a ele, o gráfico consegue levar para o dia-​a-dia o que aprende nos treinamentos.
Percebo que a maioria das empresas entende que qualidade é especificação. Cada empresa tem seu padrão de qualidade, que podemos chamar de qualidade implícita. Esse nível varia de gráfica para gráfica e faz com que ela própria interrompa um trabalho quando um determinado problema acontece. Mas atualmente se leva em conta também a qualidade especificada, que se refere ao detalhe, que está relacionada a exigências especiais de uma peça.
Falando em qualidade, por prestar serviços em acabamento, a UVPack tem de lidar com o fato de não poder controlar o processo como um todo. Como fica, então, a interação entre a empresa e os clientes para que a qualidade seja a 
melhor possível?
JC – Como a maior parte dos clientes já conhece a UVPack e trabalha conosco há algum tempo criamos uma série de padrões. Partindo desse princípio, essa interação começa quando o trabalho chega aqui. O produto passa primeiro pela mesa de especificação, que avalia justamente se ele está dentro dos padrões. Se há algum problema o cliente é acionado imediatamente e informado do que está ocorrendo e das opções que tem. As não-​conformidades podem aparecer também já na produção. Da mesma forma, entramos em contato com o cliente avisando do problema e as possíveis soluções. O que vale é a sinergia com parceria e a agilidade em comunicar as não-​conformidades.
Quais são os problemas mais comuns?
JC – Depende do tipo de acabamento. Para a laminação, é o excesso de pó ou a falta de tempo de secagem da tinta, o que gera baixa aderência ou delaminação do filme. No hot stamping, é a falta de aderência da fita ao substrato e a variação de registro. E na lombada quadrada, para citar apenas os recursos mais utilizados, são as complicações decorrentes das variações nos cadernos, como dobras e 
serrilhas inadequadas.
E como lidar com essa pressão, com o fato da empresa estar espremida na ponta do processo?
JC – A pressão é grande, pois além do trabalho chegar com o prazo no limite, temos de lidar com essas não-​conformidades. Com freqüência, o cliente estabelece uma data para entrar com o material, na maioria das vezes não consegue cumprir o que foi agendado, porém quer que mantenhamos o nosso prazo de entrega inicial. Que cuidados eu posso tomar para minimizar essa situação? Primeiro, fazendo uma checagem preventiva com relação à qualidade do material na mesa de especificações e recebimento, para nos anteciparmos aos problemas. Depois, atuando com agilidade. Temos de ser muito ágeis na comunicação com o cliente. E não é só avisá-​lo de um problema. É ligar para ele já apontando as soluções possíveis.
Poderíamos estender essa postura para as gráficas que realizam todo o trabalho de acabamento internamente?
JC – Sim. Alguns podem dizer que a história de cliente interno e externo é filosofia barata, mas esse conceito é importantíssimo. Cada setor, cada profissional tem de executar as suas tarefas pensando na etapa seguinte e acho que o setor gráfico brasileiro evoluiu muito nesse sentido.
A UVPack foi pioneira na terceirização de acabamentos especiais. O senhor acredita que essa atividade tem espaço para se expandir no Brasil?
JC – Espaço sempre há. Empresas novas estão surgindo a todo o momento, mas para terem sucesso terão de manter padrões de qualidade. Do ponto de vista do mercado, ele é capaz de absorver novos prestadores de serviço. Isso excetuando a crise internacional. Muitas empresas estão sofrendo principalmente pela elevação dos custos das matérias-​primas.
Deixando a crise de lado, no Brasil há várias regiões onde a indústria gráfica está crescendo e que carecem de serviços de acabamento, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e a Região Sul. Pensando também nessa demanda é que a UVPack investiu no ano passado em lombada quadrada, na aquisição do sistema de capa dura, que acaba de chegar, e de uma nova linha de costura, prometida para março.
Qual o tipo de acabamento mais solicitado pelos clientes da UVPack e quem são esses clientes?
JC – A laminação está em primeiro lugar, depois hot stamping e lombada quadrada, muito próximos. Atendemos gráficas editoriais e promocionais.
A quantas anda a demanda de recursos de enobrecimento para impressão digital?
JC – Agora, a gráfica e o próprio comprador de serviços gráficos que já absorveram a tecnologia digital começam a solicitar acabamentos diferenciados. Para isso a UVPack desenvolveu o Superstick, um filme para laminação de peças impressas com tecnologia digital. Trata-​se de um BOPP ou PET especial, brilho e fosco, que tem um adesivo mais agressivo em comparação com os filmes convencionais. Não posso dizer que é adequado a 100% dos trabalhos em digital, uma vez que as diferenças entre as impressoras digitais são grandes, mas estamos aprimorando continuamente o produto. E estamos trabalhando para ampliar o leque de soluções para os impressos digitais.
O desenvolvimento de produtos aqui não pára. Estamos lançando nesse início de ano dois novos filmes para laminação. O Lay-​Flat, criado para evitar o encanoamento que acontece em determinados tipos de papel em função da perda ou ganho de umidade. Por ser microporoso, permite que o papel respire. E o Anti Scuff, filme plástico mais resistente ao atrito, eliminando o problema de riscos na laminação de materiais com cores escuras. Temos também a laminação pet metalizada, que ao receber um primer 
facilita a sobreimpressão.
A UVPack é um exemplo de especialização na área gráfica. Porém, o nível de especialização do setor gráfico brasileiro em comparação com a Europa e os Estados Unidos ainda é pequeno. Como o 
senhor vê essa questão?
JC – Vejo a especialização como uma necessidade. Mesmo que a crise internacional não nos atingisse, fato que já está ocorrendo, as empresas teriam de intensificar o controle de custos e elevar a qualidade para sobreviver e a especialização “facilita” isso. A especialização é o caminho para atender as exigências de clientes que trazem produtos impressos do exterior querendo que façamos igual. O cliente está muito exigente e para ele qualidade é igual à beleza, porém, o produto tem que ter funcionalidade.
Seguindo na discussão da crise, a UVPack trabalha com muitos insumos importados. Em que medida isso ocorre e como a empresa está lidando com esse novo 
cenário de elevação de preços?
JC – Hoje, 100% da matéria-​prima que utilizamos é importada. Os filmes para laminação e o verniz importamos diretamente e as fitas de hot stamping compramos de um representante nacional que traz o material de fora. Até a crise estourar ainda comprávamos algo por aqui, uma vez que o produto nacional tem qualidade. Mas, atualmente, o preço do produto importado é mais vantajoso para nós.
Vimos na última Drupa a incorporação de recursos de acabamento às máquinas de impressão. O senhor acredita que esses equipamentos chegarão ao Brasil?
JC – O fato é que essas máquinas são caras para a realidade do mercado brasileiro. Não é em todo o trabalho que se vai aplicar, por exemplo, cold stamping. O custo é elevado em relação à demanda. O retorno é pequeno. Não vejo espaço para esse tipo de equipamento, pelo menos em um futuro próximo.
Para saber mais:
Texto publicado na Edição 65