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A importância do uso correto da Tecnologia da Informação Imprimir E-mail
Escrito por Flábio Botana   
Qua, 23 de Março de 2011

A Tecnologia da Informação (TI) hoje faz parte do dia a dia das empresas, dos governos e das pes­soas e vem transformando com uma velocidade alucinante as rotinas, os procedimentos e alguns con­cei­tos que estavam aparentemente ar­rai­ga­dos e que agora pertencem ao passado.
Vamos analisar como essas mudanças estão afetando a vida das nossas empresas e ­quais foram as alterações no perfil dos pro­fis­sio­nais, em particular do pro­fis­sio­nal da indústria gráfica.
Em seu brilhante artigo publicado em 2000, “Beyond the Information Revolution” (Além da Revolução da Informação), Peter Drucker analisa a estrutura das mudanças provocadas pela tecnologia da informação. Ele apresenta-a ini­cial­men­te não como um elemento de transformações ra­di­cais, mas como um acelerador das rotinas existentes, conforme mostra o trecho abai­xo:
“Como a Revolução In­dus­trial dois séculos atrás, a Revolução da Informação nos seus pri­mei­ros 50 anos (de 1940 até 1990) apenas transformou processos que já exis­tiam. Na verdade, o impacto real da Revolução da Informação não ocorreu na forma da informação. Por exemplo, praticamente não hou­ve mudanças na forma em que são tomadas as decisões nas empresas ou governos. A Revolução da Informação apenas transformou em rotina processos tra­di­cio­nais de inúmeras ­­áreas. O soft­ware para afinar um pia­no converte um processo que tra­di­cio­nal­men­te levava três horas para algo em torno de 20 minutos. Há soft­wares para folhas de pagamentos, para controle de estoque, para programações de entrega e para todos os ou­tros processos de rotina de uma empresa. O projeto das instalações internas de um grande prédio (aquecimento, hi­dráu­li­ca e assim por dian­te), de um presídio ou de um hospital antigamente envolvia, digamos, 25 projetistas altamente es­pe­cia­li­za­dos durante 50 dias. Agora, programas permitem que um projetista faça o trabalho em alguns dias, a uma fração ínfima do custo. Existem soft­wares que ajudam as pes­soas a preen­cher a declaração de imposto de renda e soft­wares que ensinam os residentes de hospital a retirar uma vesícula bi­liar”.
Nesse artigo ele comenta que a grande transformação provocada pela tecnologia da informação surge no final do século passado e início deste século, com o advento do comércio eletrônico, que efetivamente começa a mudar a forma de se fazer ne­gó­cios. Veja seus co­men­tá­rios:
“O comércio eletrônico é para a Revolução da Informação o que a ferrovia foi para a Revolução In­dus­trial — um avanço totalmente novo, totalmente sem precedentes, totalmente inesperado. Fazendo uma analogia com a ferrovia de 170 anos atrás, o comércio eletrônico está crian­do uma nova explosão, mudando rapidamente a economia, a so­cie­da­de e a política. Na nova geo­gra­fia mental cria­da pela ferrovia, a humanidade dominou a distância. Na geo­gra­fia mental do comércio eletrônico, simplesmente eliminou-se a distância. Existe somente uma economia e um mercado”.
Vamos comentar separadamente essas duas si­tua­ções, que passarei a chamar de fazer mais rápido e fazer diferente.
Quan­do falamos do fazer mais rápido, observamos que, em princípio, o resultado final será o mesmo, só que a forma de fazer será mui­to mais fácil e rápida. Alguns gê­nios da informática conseguem entender certas rotinas e sistematizá-​­las de forma que, apertando um botão, ocorram diversas atividades que antes exi­giam uma série de deslocamentos, observações e ajustes que demandavam a utilização de vá­rias ferramentas e obrigavam o trabalhador a usar o seu fee­ling e a sua ex­pe­riên­cia para obter os resultados esperados.
Partindo do pressuposto de que essas sistematizações são bem fei­tas (o que nem sempre ocorre), isto é, que o resultado final é tão bom quanto ou melhor do que se obtinha an­te­rior­men­te, podemos chegar à conclusão de que trabalhadores não tão bem trei­na­dos e com pou­ca ex­pe­riên­cia conseguem obter, na grande maio­ria das si­tua­ções, resultados praticamente ­iguais aos alcançados pelos mais ex­pe­rien­tes.
Dois exemplos: com uma impressora de última geração, um impressor com pou­ca ex­pe­riên­cia, mas que sai­ba utilizar os recursos tecnológicos de seu equipamento, consegue fazer o setup de um serviço cor­ri­quei­ro em quadricromia praticamente no mesmo tempo e com a mesma qualidade obtida por um impressor ex­pe­rien­te. Da mesma forma, um orçamentista sem ex­pe­riên­cia que conhece bem o soft­ware de gestão que utiliza tem condições de fazer um orçamento comum tão correto e tão rápido quanto um orçamentista ex­pe­rien­te.
O fato conclusivo é que pro­fis­sio­nais pio­res conseguem resultados que antigamente só os bons pro­fis­sio­nais con­se­guiam.
Antes que a frase possa trazer algum incômodo, esclareço que uso o termo pior para indicar pro­fis­sio­nais com menos conhecimento de processos, menos ex­pe­riên­cia na operação de equipamentos e menor entendimento das va­riá­veis envolvidas, e não para classificar pro­fis­sio­nais pou­co envolvidos ou dedicados. E vejam como isso é bom! A tecnologia eleva o patamar médio de qualidade de uma forma geral, demandando menos recursos humanos. Ela permite a empresas que não tinham condições de prover trabalhos com qualidade, por falta de pro­fis­sio­nais habilitados, competirem com produtos melhores e prazos menores. A tecnologia so­cia­li­za a qualidade.
Só que esse avanço pode trazer ter­rí­veis efei­tos co­la­te­rais. Há a possibilidade de entendermos er­ro­nea­men­te que não precisamos mais formar pro­fis­sio­nais bem qualificados para obtermos bons resultados, já que a tecnologia resolve os problemas.


Essa é a grande falácia da tecnologia!
O fato de termos equipamentos, dispositivos ou soft­wares mais completos e fá­ceis de operar não elimina a necessidade de um pro­fis­sio­nal mui­to bem formado. E esses equipamentos, dispositivos ou soft­wares devem ser ferramentas na mão do pro­fis­sio­nal. Quan­do tudo está dentro dos conformes e os produtos processados são tri­viais ou padronizados, um trabalhador menos qualificado pode até chegar ao resultado desejado, contudo o pro­fis­sio­nal pleno consegue fazê-lo melhor ou mais rápido.
No entanto, a grande diferença está no momento em que as coi­sas fogem da normalidade. Aí o pro­fis­sio­nal tem de mostrar a que veio. Tentar descobrir cau­sas de anormalidades, alterar algumas va­riá­veis do processo para obter melhores resultados e procurar otimizar a forma de trabalhar com produtos não ­usuais são tarefas que a tecnologia não resolve sozinha. São ne­ces­sá­rios o talento, a ex­pe­riên­cia e o conhecimento técnico de um profissio­nal pleno e a tecnologia disponível pode ser uma boa ferramenta para ajudá-lo, nada mais do que isso.
Portanto, precisamos tomar alguns cui­da­dos se temos a tecnologia, mas não temos quem a conheça ou quem a opere:
1. Evitar a dependência
Se você começar a ou­vir frases do tipo “O sistema não dei­xa fazer…” ou “Não dá para fazer isso porque estamos sem sistema”, provavelmente você tem de trabalhar a capacitação do seu pro­fis­sio­nal, pois ele é incompleto. Um bom impressor tem de saber acertar e rodar uma máquina sem os recursos da moderna tecnologia (evidentemente, com mais dificuldade); um orçamentista tem de saber fazer um orçamento quando o sistema cai (claro, num tempo ­maior). O sistema ajuda o pro­fis­sio­nal, mas não substitui o conhecimento necessário para a rea­li­za­ção das operações.
2. Não acei­tar a falta de excelência nos trabalhos
Uma boa tecnologia mal operada pode dar resultados ra­zoá­veis ou bons, mas será mui­to difícil que dê resultados excelentes, di­fe­ren­cia­dos. O risco de termos tec­no­lo­gias su­ba­pro­vei­ta­das é acabarmos nos tornando commodities, isto é, fazendo o que todos fazem, cobrando o que todos cobram e dando ao clien­te a mesma satisfação que todos dão. Essa é uma re­cei­ta extremamente perigosa num mundo competitivo como aquele em que vivemos. A di­fe­ren­cia­ção real, o trabalho de excelência vem com um ótimo pro­fis­sio­nal utilizando uma boa ferramenta tecnológica.
3. Não perder a qualidade na solução dos problemas
A capacidade de uma empresa é medida quando tudo vai mal. A anormalidade testa o conhecimento, a flexibilidade e a disposição. É nessa hora que o pro­fis­sio­nal vai para a vitrine. É a hora da inovação, da cria­ti­vi­da­de e da flexibilidade (o que chamo de trocar o ­ideal pelo possível), e, de novo, a tecnologia pode ser uma excelente ferramenta, porém quem faz o que precisa ser fei­to é o homem.
4. Não abrir mão do talento
A empresa, a escola e os governos são res­pon­sá­veis pela boa formação dos pro­fis­sio­nais. Mesmo contando com todas as facilidades que a tecnologia pode trazer, eles não podem abrir mão desse seu papel de geradores de conhecimento, com o risco de tornar as empresas me­dia­nas. Precisamos encontrar, formar e reter talentos.
Falando agora da ou­tra forma de atua­ção da tecnologia, que é o fazer diferente, entendo que essa é a parte nobre da atua­ção da tecnologia da informação nas empresas, particularmente nas gráficas.
Quan­do utilizamos a tecnologia para ­criar novas ma­nei­ras de fazer as tarefas, otimizando as suas características e os seus resultados, quer sejam em qualidade, custo ou prazo, não estamos apenas melhorando o que existe, mas sim transformando o am­bien­te produtivo em algo melhor. Certamente, essas novas tec­no­lo­gias demandarão um novo grupo de pro­fis­sio­nais altamente capacitados para operar essas transformações. Aí sim temos um círculo vir­tuo­so: tec­no­lo­gias inovadoras gerando novos processos, que demandam pro­fis­sio­nais distintos e que geram produtos di­fe­ren­cia­dos para atender ou até ­criar novas expectativas dos clien­tes.
Para con­cluir, reforço que a TI é excelente, necessária, importante e estratégica, mas é somente uma ferramenta. Nunca podemos dei­xar de entender claramente quem é o dono de quem. Não podemos ser escravos da tecnologia, pois dessa forma estaremos nos di­mi­nuin­do como seres pensantes. Temos que ser os agentes do processo, utilizando (ou não) os recursos tecnológicos dis­po­ní­veis para aper­fei­çoar nossos resultados. Repito, nunca esqueça quem é o dono de quem! Você domina a tecnologia ou a tecnologia domina você?
Acredito que o fator de di­fe­ren­cia­ção das empresas foi, é e deverá ser sempre o homem. Precisamos de mui­tos seres humanos (inteligentes) para ­criar os sistemas e as tec­no­lo­gias e necessitamos também de mui­tos ou­tros seres humanos (igualmente inteligentes) para operar esses sistemas e utilizar essas tec­no­lo­gias em prol de um melhor resultado para as empresas e uma melhor qualidade de vida para os seus colaboradores.

Flávio Botana é professor da Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na edição nº 76