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O incentivo à leitura é responsabilidade de todos nós Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Sáb, 01 de Novembro de 2008

Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro, CBL, apresenta as tendências e os números do setor editorial no Brasil.


Para Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro, não se pode deixar apenas nas mãos do governo, das editoras e entidades ligadas ao livro e das escolas a tarefa de incentivar a leitura entre os jovens no Brasil. Esse é um papel de todos, incluindo a fundamental participação da família e até dos meios de comunicação eletrônicos.

Arquiteta por formação, Rosely Maria Shinyashiki Boschini é sócio-fundadora e vice-presidente editorial da Editora Gente, responsável pela produção editorial, incluindo a negociação com autores e proprietários de direitos autorais nacionais e internacionais. Está no mundo associativo desde meados da década de 90 e já está em campanha para ser reeleita para a presidência da CBL. www.cbl.org.br


Dentro dos resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelas entidades fundadoras do Instituto Pró-Livro (Abrelivros, CBL, Snel), está o fato de que o número de livros lidos por ano é maior entre crianças e jovens, com um pico de 8,5 livros na faixa entre 11 e 13 anos. Esse índice a surpreendeu?
Rosely Boschini
– Sim, fiquei surpresa. Esse número reafirma a idéia de que esse público é o nosso futuro.


O que mais chamou sua atenção na pesquisa?
RB
– A revelação de quem mais influenciou as pessoas a se tornarem leitores. Em primeiro lugar está a mãe, com 49%, em segundo lugar a professora, com 33%, e depois o pai, com 30%. Isso mostra que modelos de leitores são fundamentais. Nos guiamos por esse resultado para criar o espaço Ler é Minha Praia, na 20ª Bienal do Livro de São Paulo, voltado para o público infanto-juvenil, que recebeu nota de avaliação 9,9 dos visitantes. Nessa área, pais e filhos, além dos eventos lúdicos, podiam aproveitar para sentar e ler descontraidamente, resgatando a questão afetiva que envolve a leitura. Falta para a criança essa imagem no dia-a-dia e norteamos as atividades da Bienal para trazer esse acolhimento, tornando a leitura uma experiência inesquecível.


A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil também revelou que 45% dos brasileiros não gostam de ler, preferindo em seu tempo livre ver TV, ouvir música e descansar. Apenas a elevação no grau de escolaridade é suficiente para alterar esse quadro?
RB
– A elevação do grau de escolaridade é a base. Mas, temos de ter governantes que lêem e que agucem o interesse do brasileiro pela leitura. Voltamos aos modelos de leitores. A mídia também tem de se preparar para isso. Dou um exemplo. Recentemente, a Globo colocou dentro de uma novela das 8 a personagem de um livreiro. Quando ele citava um determinado livro, no dia seguinte acontecia um pico de venda. Falta em todas as esferas essa mobilização em torno da leitura.


A diversificação dos canais de distribuição, concentrados em poucas redes, incluindo espaços como supermercados, catálogos e internet, é uma saída para o gargalo da distribuição do livro no Brasil?
RB – Por parte da CBL, mobilizamos uma força tarefa para fortalecer as livrarias, sobretudo as independentes, para que elas tenham mais força junto aos distribuidores de livros. Existem determinados tipos de livros que só têm espaço em livrarias especializadas e isso é um gargalo. Para se ter a dimensão do problema, o Brasil produziu, em 2006, 320 milhões de livros e, no ano passado, 351 milhões, e nem 20% desse total chega às livrarias. A Internet ainda não dá conta dessa produção, mas é um importante canal que está crescendo fortemente. As bienais fazem um pouco o papel de dar vazão à produção represada, à medida que possibilita que as editoras mostrem todo o seu portfolio. Essa questão nos preocupa muito. O acesso ao livro tem de ser facilitado.


Além da distribuição, quais são as principais preocupações do editores hoje?
RB
– A busca pela excelência editorial e gráfica. Podemos ver isso na evolução do Prêmio Jabuti. O editor busca sempre adequar o seu catálogo, seus lançamentos, ao gosto de seu público.


Nesse sentido, como adequar-se à ascensão das classes D e C?
RB
– Esse público busca livros objetivos. Obras que de alguma forma o ajudem em sua formação profissional ou em seu dia-a-dia. Mesmo em livros de literatura, a objetividade é a principal demanda. Cabe ao editor apresentar esse conteúdo com qualidade editorial e de produção.


Quais são os principais números do segmento de livros, hoje?
RB
– O mercado editorial brasileiro registrou um faturamento de R$ 3,013 bilhões em 2007, que significa um crescimento de 4,62% em comparação ao ano anterior, que foi de R$ 2,880 bilhões. Descontada a inflação do setor, de 4,18%, o crescimento real foi de 0,44%. O volume de vendas alcançou aproximadamente 329 milhões de exemplares, o que representa um aumento de 6,06% em relação a 2006. Esses dados são da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, encomendada à Fipe pela CBL, em parceria com o Sindicado Nacional dos Editores de Livros, SNEL. A pesquisa inclui vendas para o mercado em geral e para o governo federal. Apesar das compras governamentais registrarem queda de 0,67% ante 2006, o governo permanece como o maior comprador, com investimentos de R$ 726,8 milhões, ou cerca de 24% do total de vendas do setor. A boa notícia é que o mercado comprou mais no ano passado, demonstrando que o consumo de livros pela população também vem crescendo. As vendas para o mercado totalizaram R$ 2,286 bilhões, ou seja, um aumento de 6,41% no comparativo com 2006.


A quantas anda a relação do editor com os fornecedores de produtos gráficos?
RB
– Vai muito bem, obrigada. Antes, os editores tinham de explicar ao gráfico exatamente o que queriam. Hoje, o gráfico se antecipa, oferecendo alternativas para que possamos produzir os melhores livros. Se todos os nossos fornecedores acompanhassem a indústria gráfica estaríamos vivendo no paraíso. A gráfica é um grande parceiro do editor, principalmente no que se refere à oferta de novas tecnologias.


A impressão digital, com a possibilidade da impressão de livros sob demanda, inclusive de tiragens unitárias, já vem sendo considerada pelo editor brasileiro?
RB – O gap entre as obras produzidas e as vendidas aumentou, o que poderia ser minimizado se aumentasse a impressão sob demanda. A CBL vem trazendo esse assunto para dentro de casa e neste ano por duas vezes esse tema foi debatido aqui dentro. Mas, ainda falta por parte do editor um maior conhecimento dessa ferramenta. Poderíamos promover ações conjuntas com a Abigraf e a ABTG no sentido de ampliar esse conhecimento. Hoje, já temos os arquivos digitalizados. Falta evoluir a cabeça de quem faz as contas, daqueles que cuidam do financeiro das editoras.


A CBL ficou satisfeita com os resultados da Bienal do Livro de São Paulo?
RB
– Essa Bienal priorizou a qualidade da visitação. Tivemos 30 mil crianças a menos do que na edição anterior, há dois anos, porque agendamos menos visitas das escolas para que pudéssemos receber bem quem programamos. Um ganho evidente foi a elevação nas compras. A média de livros adquiridos entre os compradores subiu de 3,45 para 4,97. Outra conquista foi colocar a discussão do setor dentro da Bienal. Tivemos vários eventos paralelos, com o congresso da ABDL (Associação Brasileira dos Distribuidores de Livros) (link para a entidade), a 18ª Convenção Nacional de Livrarias e o 7º Congresso Ibero-Americano de Editores, realizado pela primeira vez no Brasil com a presença de mais de 30 países. O Ler é Minha Praia também foi uma iniciativa de sucesso, que deve virar referência nacional, sendo incorporado por outras bienais do livro que acontecem pelo Brasil.
O livro é um produto complexo e queremos trazer para a Bienal a presença maciça dos agentes que compõe essa cadeia.


Quais foram as principais conquistas de sua gestão, que se encerra em 2008?
RB
– O maior envolvimento dos associados foi uma das principais. Isso se reflete, por exemplo, no programa Minha Biblioteca, ampliado no início de setembro com a adesão de um grupo de 63 editoras à segunda etapa do projeto. O programa, um dos maiores projetos de incentivo à leitura do País, teve início em 2007 por iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, com apoio da CBL, quando 275 mil estudantes de 1ª a 4ª séries do ensino público receberam cerca de 560 mil livros. Neste ano, o programa foi ampliado, distribuindo 1 milhão de livros para 520 mil estudantes de 1ª a 8ª séries das escolas públicas da capital. Ao todo, foram selecionados 202 títulos e o desconto oferecido pelas editoras foi de 60% no preço de catálogo. O investimento da Secretaria Municipal de Educação ultrapassou R$ 10 milhões.


Como funciona o programa?
RB
- O aluno recebe um kit com dois livros e uma maleta com espaço para mais outros exemplares. A meta é que é que ao término do ensino fundamental, cada criança tenha em casa a maleta completa com 16 livros, montando sua biblioteca pessoal.
Nessa gestão, promovemos também a modernização da gestão da CBL, fechamos parceria com a Apex com o objetivo de levar a produção nacional para outros países e estamos finalizando a inclusão de novos serviços do site da Câmara. Além disso, incrementamos o apoio às feiras pelo Brasil todo e a participação do Brasil em eventos no Exterior.

A senhora deve seguir a frente da entidade? Nesse caso, quais são os projetos?
RB
– Devo me candidatar à reeleição e há muito que fazer. Continuaremos lutando para que o livro e o incentivo à leitura façam parte não só da pauta do Ministério da Cultura, como da Economia, da Indústria, num trabalho árduo de conscientização também dos governantes. Nós, da cadeia produtiva do livro, temos um papel fundamental na sociedade que tem sempre de ser lembrado.

Retratos da Leitura
O objetivo da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil foi medir a intensidade, forma, motivações e condições para a prática da leitura no País na segunda metade desta década. Ela também gerou outras informações de caráter quantitativo e qualitativo sobre o acesso ao livro e à leitura, intensificando a investigação sobre as bibliotecas públicas e seu papel na formação de leitores. Foram realizadas, no total, 5.012 entrevistas, no final de 2007, abrangendo 311 municípios de todos os Estados.
Entre os resultados da análise, identificou-se que o Brasil conta com
95 milhões de leitores, 77 milhões de não-leitores, com média de compra de 1,2 livro por habitante/ano (o que dá 36,2 milhões de compradores de livros). A pesquisa foi compilada em livro homônimo, lançado na 20ª Bienal e organizado pelo jornalista Galeno Amorim.

Para saber mais
www.cbl.org.br
www.snel.org.br
www.abrelivros.org.br
www.abdl.com.br

Texto publicado na Edição 63