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Tratamento do ar em ambientes industriais Imprimir E-mail
Escrito por Tânia Galluzzi   
Qui, 23 de Dezembro de 2010

Há 22 anos Mau­rí­cio de Castro pesquisa e desenvolve sistemas de regeneração am­bien­tal. En­ge­nhei­ro químico, formado pela Faculdade Oswaldo Cruz, com dou­to­ra­do em Quí­mi­ca, fundou no ano 2000 a Puritec, empresa espe­cia­li­za­da em tratamento de emissões atmosféricas e odores, da qual é diretor técnico co­mer­cial. Nesta entrevista, ele fala sobre o tratamento do ar em am­bien­tes internos, es­pe­cial­men­te dentro das in­dús­trias.

Quan­do e de que forma surgiu a preo­cu­pa­ção com a qualidade do ar no am­bien­te in­dus­trial?
Mau­rí­cio de Castro
– Acredito que a semente foi lançada no início da década de 1990, com a visibilidade gerada pela Eco 92 para as questões am­bien­tais. Porém, a maio­ria das discussões girava em torno das agressões ao solo e à água. A atenção começou a se voltar para o ar nos am­bien­tes internos nos anos 2000, sobretudo em virtude das epi­de­mias de doen­ças res­pi­ra­tó­rias, como a gripe aviá­ria, que assolou a Ásia em 2005. Procurando frear a transmissão da doen­ça, grandes empresas começaram a buscar tratamentos de descontaminação atmosférica interna. Esse movimento fez com que os fun­cio­ná­rios revelassem uma série de ou­tros desconfortos respira­tó­rios dentro do seu am­bien­te de trabalho, necessidades que estavam latentes.
No Brasil, a preo­cu­pa­ção com a qualidade do ar dentro das empresas tomou fôlego há cerca de quatro anos, também como um reflexo da contaminação mi­cro­bia­na. Com isso, ­criou-se uma legislação, a Resolução 09 da Agência Na­cio­nal de Vigilância Sanitária (Anvisa), em vigor desde 2003, que estabelece padrões de referência e orien­ta­ções para a qualidade do ar in­te­rior em am­bien­tes climatizados ar­ti­fi­cial­men­te visando a saú­de e o conforto das pes­soas, além do surgimento da Bra­sin­door, Socie­da­de Bra­si­lei­ra de Meio Am­bien­te e Controle de Qua­li­da­de do Ar de In­te­rio­res, e a consequente fiscalização por parte do Ministério do Trabalho.

O que pode comprometer a qualidade do ar dentro de uma empresa?
MC
– O tratamento do ar nos am­bien­tes internos é necessário em duas si­tua­ções: quando a concentração de pes­soas por metro quadrado é su­pe­rior ao permitido por lei (3 m²/pessoa) ou quando existe a manipulação ou transformação de ma­te­riais por processo in­dus­trial produtivo. O acúmulo de pes­soas gera emissão de CO² (1,5 kg/dia), além dos odores humanos, perfumes e micro-​­organismos expelidos por nossa respiração, o que pode ser problemático se o espaço não tiver sido projetado para acomodar o volume de pes­soas que está recebendo ou se o sistema de ar con­di­cio­na­do apresentar problemas ou também tiver sido mal di­men­sio­na­do em sua renovação. No am­bien­te in­dus­trial, as emissões são geradas a partir do ma­nu­seio de ma­té­rias-​­primas e insumos, que são misturados, aquecidos, res­fria­dos, aplicados e, enfim, processados. A contaminação do ar acontece justamente pela falta de controle dessas emissões.

­Quais sistemas estão dis­po­ní­veis para o tratamento do ar no am­bien­te in­dus­trial? Como é fei­to esse tratamento na indústria gráfica?
MC
– Só é possível tratar o ar quando se tem o controle de seu di­re­cio­na­men­to e captação. Pensando na área in­dus­trial de uma gráfica, es­pe­cial­men­te a de impressão e preparação de tintas, tudo começa com uma boa captação in­di­vi­dua­li­za­da das emissões. No caso das impressoras, as captações serão fei­tas por tubulação flexível. Assim, o operador consegue colocar a exaus­tão onde for mais con­ve­nien­te. Já na preparação de tintas e outros processos poderia ser uma exaus­tão por sistema de coi­fa ou tubulação central. Esse ar é então levado para sistemas de tratamento, para os ­quais há vá­rias opções. Um exemplo são os lavadores de gás, nos ­quais o ar passa por um chu­vei­ro de água no contrafluxo. Essa “lavagem” consegue retirar do ar os componentes particulados, sólidos, como partículas de papel, re­sí­duos de tinta e ou­tros. Porém, os hidrocarbonetos, os solventes aromáticos e alifáticos, os compostos orgânicos vo­lá­teis (os famosos VOCs), não são so­lú­veis em água, passando pelas partículas da água e sendo então liberados na atmosfera.
Outra opção são os filtros a seco, fabricados com mantas de po­liés­ter ou fibra de vidro. Dependendo da trama dessas mantas, esses sistemas são efi­cien­tes, barrando inclusive alguns VOCs. O cui­da­do está na manutenção pe­rió­di­ca para que as mantas sejam trocadas logo ao atingirem seu ponto de saturação. Dependendo da vazão de exaus­tão, a vida útil pode não exceder 10 dias. A simples limpeza dessas mantas não é su­fi­cien­te, comprometendo a efi­ciên­cia do sistema.
Existem também os sistemas de tratamento à base de ozônio, porém o custo é mui­to alto, assim como o consumo de energia necessária para a geração do ozônio. Quan­do o ar contaminado entra em contato com o ozônio, esse elemento tem a capacidade de transformar algumas das moléculas dos contaminantes, como o VOC, neu­tra­li­zan­do-os. Além do alto consumo de energia, esse sistema exige cui­da­dos es­pe­ciais, pois o ozônio é pre­ju­di­cial ao homem em ní­veis in­dus­triais.
Os sistemas de tratamento do ar mais modernos utilizam uma tecnologia híbrida, possibilitando atingir todos os gases e odores ao combinar processos de filtragem por atomização e pulverização de solução orgânica passível de ser emul­sio­na­da em água. O ar contaminado é captado através dos exaus­to­res e segue para um sistema rea­ti­vo composto por dois módulos. Na pri­mei­ra estação de tratamento o ar é lavado com ativos orgânicos, de origem vegetal, oriun­dos de ­óleos es­sen­ciais. Esses ativos, so­lú­veis em água, rea­gem com os contaminantes, retirando-os do ar. Sendo mais específico, as micelas desses ativos, que são agregados de moléculas, têm a capacidade de capturar as moléculas dos compostos orgânicos vo­lá­teis, por exemplo. No segundo módulo de tratamento, o ar passa através de mantas de po­liu­re­ta­no expandido impregnadas de carvão ativo. Esse sistema combinado é capaz de captar 99,7% dos gases, partículas e microrganismos presentes no ar. Dependendo do grau de contaminação do am­bien­te ou de suas exi­gên­cias, a lavagem pode acontecer em duas estações ou pode haver ou­tro módulo no final para a aplicação de bactericidas e fungicidas.

Onde são instalados esses sistemas?
MC
– Normalmente, fora da fábrica, no am­bien­te externo. Porém, modelos compactos podem ser utilizados internamente, por exemplo, na área de acabamento de uma gráfica.

Esses sistemas que combinam processos de filtragem geram re­sí­duos? O que é fei­to com a água utilizada para a lavagem do ar?
MC
– Tanto a água com ativos orgânicos quanto as mantas têm vida útil média de quatro meses de uso contínuo, sendo que não há reposição ou troca de água nesse pe­río­do. Quan­do a substância ativa atingiu seu ponto de saturação, não conseguindo mais absorver os contaminantes, é rea­li­za­da a retirada de 20% da solução e fei­ta a colocação da mesma quantidade no reservatório. Como os produtos utilizados são de origem vegetal e biode­gra­dá­veis, o descarte dessa água pode ser fei­to direto na rede de esgoto.

O sistema exige monitoramento constante?
MC
– Não, ele é totalmente au­to­má­ti­co.
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Quais são os be­ne­fí­cios de um tratamento correto do ar para aqueles que trabalham nesses am­bien­tes?
MC
– A rea­ção é ime­dia­ta. Respirando um ar livre de partículas, gases ou vapores, a qualidade de vida au­men­ta, o fun­cio­ná­rio sente-se mais bem disposto, uma vez que o seu nível de oxigenação cerebral permite estar sempre alerta. Previnem-se doen­ças res­pi­ra­tó­rias, aler­gias e ou­tras complicações que va­riam de acordo com o contaminante presente no am­bien­te, di­mi­nuin­do, inclusive, as faltas por motivo de doen­ça. Além disso, a empresa faz sua parte ao dei­xar de liberar na atmosfera componentes po­lui­do­res. Com certeza sua imagem perante seus clien­tes será fortalecida e sua vizinhança vai agradecer.

Texto publicado na edição nº 75