home > Entrevistas > “O produtor gráfico não pode ser individualista”
twitter
Banner Facebook

Parceiros

“O produtor gráfico não pode ser individualista” Imprimir E-mail
Escrito por Margareth Meza   
Qui, 01 de Maio de 2008

A evolução tecnológica no setor gráfico tem provocado mudanças profundas não só no perfil do profissional que atua diretamente na indústria, como também em atividades relacionadas ao universo da comunicação.

Uma das atividades atingidas é a produção gráfica, cujo papel vem sendo revisto, sobretudo em função da automação e desenvolvimento de novos sistemas na pré-impressão.

Para falar sobre essa nova postura do produtor gráfico e também sobre sua atuação no processo criativo, a revista Tecnologia Gráfica conversou com José Roberto Bezerra, produtor da AlmapBBDO, uma das maiores agências de publicidade do País, criada em 1993 a partir da já existente Almap, fundada na década de 1950.
Na AlmapBBDO, José Roberto está há 15 anos, desde que a empresa foi remodelada na década de 1990. No entanto, sua carreira teve início em 1976, quando ingressou no curso técnico de artes gráficas na Theobaldo De Nigris, época em que foi estagiário da Editora Abril.
Após obter o diploma, foi contratado pela agência publicitária Thompson como assistente de produção gráfica. Em seguida, ingressou na De Simoni Associados, onde foi produtor durante oito anos. O próximo, e grande passo profissional, foi a atuação de três anos na WGGK, hoje W/On Brasil, que também figura entre as mais importantes do segmento publicitário brasileiro.

Quando falamos de materiais que serão impressos em offset, principalmente, você concorda que o futuro do produtor gráfico apenas como uma “ponte” entre o criativo e a gráfica, responsável basicamente por supervisionar o andamento do trabalho, fechamento de arquivos e detectar problemas na saída da máquina, está com os dias contados?
José Roberto Bezerra
– Sim, ele não pode mais ser visto apenas como uma “ponte”, pois a qualidade visual depende muito do produtor gráfico. Antes da obtenção da qualidade impressa existe a preparação da imagem, que dependerá da sensibilidade visual do produtor, que precisa saber qual é o tipo de papel e de tecnologia em que o trabalho será impresso. Portanto, ele sempre será importante, pois contribuirá na otimização das cores e de todos os outros detalhes pertinentes à impressão. O criativo, por mais que entenda de imagens, fica distante da técnica e precisa de alguém que equilibre os processos técnicos e criativos.

Como a produção gráfica pode interferir no processo criativo?
JRB
– Muitas vezes, o criativo tem uma idéia fantástica e deseja passá-la para o papel, mas antes disso precisa da ajuda de um produtor gráfico para finalizá-la. Para auxiliá-lo, o produtor deve pesquisar, tendo em vista que seu trabalho é amplamente experimental. É necessário aliar novidade técnica com criatividade para encontrar o melhor papel para a impressão, a melhor tinta e o verniz ideal, por exemplo. Um aspecto importante no profissional é a persistência, ele nunca deve desistir e achar que aquilo não é possível, muito pelo contrário, é essencial se aproximar do criativo e, juntos, encontrarem o melhor caminho a ser seguido.

Qual é o papel do produtor gráfico hoje e quem é ele?
JRB
– O produtor gráfico é uma espécie de gerente de operações. Hoje, em uma agência de propaganda de grande porte, ele pode coordenar todos os departamentos voltados à produção, desde o orçamento até a finalização do produto. É um profissional que prepara imagens e participa da elaboração de projetos em suas mais variadas fases. Dessa forma, deixou de ser uma figura individualizada, como era antigamente, e se globalizou. Há cerca de 15 anos, tornou-se responsável não apenas pela qualidade gráfica, mas também por outras funções, que otimizaram e agilizaram o trabalho dentro da empresa. Só para se ter idéia de sua importância e responsabilidade, em uma agência o produtor é responsável pelo arquivamento de imagens, que constituem todo o material produzido em uma agência.

Qual seria a formação ideal para alguém que está entrando no mercado agora e quer atuar nessa área? Quais são os principais requisitos para que possa ser considerado um profissional completo, que atenda as demandas do mercado?
JRB
– Considero essa questão complicada porque as pessoas que ingressam nessa profissão são formadas na própria empresa ou são recomendadas por fornecedores. Poucos profissionais possuem formação técnica, eles costumam aprender com o dia-a-dia. Na verdade, acho que além da realização de cursos de capacitação, é determinante saber lidar com o ego e com a ansiedade das pessoas. O produtor não pode ser individualista, mas sim aberto a todas áreas. Além do mais, deve ter equilíbrio suficiente para liderar e gerenciar problemas. Às vezes, até possui boa formação, mas não sabe atuar na área, se desespera com os obstáculos e transmite isso aos demais, o que nunca pode acontecer.

Então, como um jovem, que esteja aspirando à profissão, pode se tornar um produtor gráfico?
JRB
– Acho que as empresas devem coordenar adequadamente os estágios. Quando fui estagiário assistia a palestras e passava por vários departamentos, até encontrar meu setor predileto. Assim, acho importante que o jovem vivencie todo o cotidiano do local e também tire proveito disso por meio da observação e do contato com diversas áreas. Essa pode ser uma maneira de iniciar uma carreira como produtor gráfico.

Como trabalha um produtor gráfico na Europa e nos Estados Unidos?
JRB
– Alguns estados norte-americanos trabalham com grupos. Geralmente, possuem equipes específicas para atender a um determinado número de contas, e esse mesmo pessoal possui grupos de mídia, de criação e de produção gráfica específicos para essas mesmas contas. No Brasil e na Europa também há divisão de grupos, mas a produção gráfica e a criação trabalham para todos os clientes da empresa. Assim, acho que nos Estados Unidos a importância de um produtor gráfico é um pouco menor porque as responsabilidades são mais divididas, há mais equipes. Além disso, os departamentos entregam o trabalho mais finalizado para o produtor. No exterior, quando se compra fotos, por exemplo, é mais comum o fotógrafo entregar a imagem mais construída, o trabalho mais retocado.

A partir dessa comparação, qual seria o modelo ideal de trabalho?
JRB
– O ideal seria o meio-termo disso, pois o produtor gráfico brasileiro tem uma responsabilidade muito grande, além de executar um trabalho muito exaustivo. Acho que se houvesse melhor planejamento nas fases anteriores, continuaria com responsabilidade, mas receberia conteúdos mais “redondos” em suas mãos. É preciso otimizar, mas estamos progredindo.

O conhecimento do processo gráfico e das novas possibilidades abertas pela tecnologia de impressão digital é fundamental para um produtor gráfico. Você vê a nova geração atenta a isso?
JRB
– Sim, vejo que estão atentos porque as tecnologias de impressão digital fazem parte do nosso dia-a-dia. Os produtores gráficos que não se atualizarem serão eliminados do mercado, como já vem acontecendo. Nosso trabalho é cada vez mais orientado a esse caminho, não há como fugir, tanto que até os clientes diretos optam por armazenar seus produtos em bancos de dados; essa tendência está totalmente ligada aos novos processos de impressão digital.

De maneira geral, como está o mercado de trabalho na área da produção gráfica? Há muitos profissionais desatualizados, que não costumam acompanhar as evoluções tecnológicas como um todo?
JRB
– Os produtores mais antigos com os quais mantenho contato se adaptaram às mudanças, principalmente às ligadas aos sistemas de pré-impressão, uma das etapas gráficas que mais sofreram alterações por causa dos novos recursos digitais. No entanto, esses profissionais atuam em agências de grande e médio porte. Nas menores, essa formação técnica é muito limitada, porque o trabalho, desde a criação até o produto final, é realizado sem muitos recursos técnicos.

Texto publicado na Edição 61