home > Gestão > Gestão > O que são tecnologias disruptivas e como estão afetando o setor gráfico
twitter
Banner Facebook

Parceiros

O que são tecnologias disruptivas e como estão afetando o setor gráfico Imprimir E-mail
Escrito por Flávio Botana   
Sex, 05 de Novembro de 2010

Recentemente tive contato com alguns artigos e co­men­tá­rios sobre tec­no­lo­gias disruptivas e, ao analisá-​­los, fi­quei com a sensação de que a indústria gráfica vem sofrendo os seus efei­tos há algum tempo (talvez mesmo antes de o termo ter sido cria­do por Clayton M. Christensen e introduzido em seu artigo de 1995, Disruptive Tech­no­lo­gies: Catching the Wave) e de que ain­da somos um alvo interessante para essas futuras inovações. O tema me parece intrigante e acredito que deva ser acompanhado de perto pela indústria gráfica em geral.
Em pri­mei­ro lugar vamos entender o que são as tec­no­lo­gias disruptivas (e vamos ao Goo­gle — que certamente é uma inovação disruptiva).
Tecnologia disruptiva ou inovação disruptiva é um termo que descreve a inovação tecnológica, produto ou serviço que utiliza uma estratégia disruptiva, em vez de evo­lu­cio­ná­ria ou re­vo­lu­cio­ná­ria, para derrubar uma tecnologia existente dominante no mercado. As tec­no­lo­gias evo­lu­cio­ná­rias provocam me­lho­rias in­cre­men­tais nos produtos/serviços; as re­vo­lu­cio­ná­rias provocam grandes alterações; e as tec­no­lo­gias disruptivas des­troem o que existe, atendendo às mesmas exi­gên­cias dos clien­tes com diferenças bastante significativas, utilizando algo completamente diferente e novo.
Exemplos de tec­no­lo­gias disruptivas bem sucedidas não são mui­to comuns. Even­tual­men­te, uma tecnologia disruptiva domina um mercado, seja preen­chen­do um espaço não atendido pela tecnologia antiga ou ocupando lentamente um lugar no mercado, começando com um produto mais barato com desempenho in­fe­rior e, através de aper­fei­çoa­men­tos, finalmente se apossando do espaço dos líderes de mercado.
O exemplo clássico de tecnologia disruptiva é a máquina fotográfica digital em relação à máquina fotográfica tra­di­cio­nal com filme e revelação. Em um artigo da Wikipedia que fala sobre o tema são mostrados vá­rios exemplos de aplicações de tec­no­lo­gias disruptivas, e o que me chamou a atenção foi que três deles envolvem o nosso ramo (http://bit.ly/am0wow).
São eles:
Editoração eletrônica × editoração tra­di­cio­nal – Recordo-​­me que, no início dos anos 80, a dia­gra­ma­ção do texto fazia parte do processo gráfico. Eram os tempos das lau­das datilografadas…
Impressão digital × impressão offset – No começo, a opção dos dados va­riá­veis. De­pois, a possibilidade de impressão em cores com bai­xa qualidade e produtividade. Hoje, uma opção que via­bi­li­za produtos que em outras épocas não se­riam pos­sí­veis de serem produzidos de forma econômica.
E-​­book × livro impresso – É a virada que começa a ocorrer, e praticamente todos têm dúvidas quanto à sua amplitude, seus efei­tos e suas consequências na indústria de comunicação (editoras, gráficas, dis­tri­bui­do­ras, livra­rias). Sua importância pode ser ava­lia­da pelo número de artigos que estão sendo dedicados a esse tema e pela atenção que todos os interessados estão tendo em acompanhar passo a passo o desenvolvimento e a evolução do assunto.
Acredito que também po­de­ría­mos in­cluir aí a mudança nos processos de pré-​­impressão, que saí­ram dos sistemas óticos (lembram-​­se dos quartos escuros dos es­tú­dios?) para os escâneres que digitalizam as imagens, sendo que, a partir daí, todo o processo de retoque e montagem passou a ser digital também.
Outra coi­sa que também é necessário analisar é o efei­to des­trui­dor das tec­no­lo­gias disruptivas no am­bien­te existente. Se uma tecnologia disruptiva se impõe no mercado, ela provoca mudanças ra­di­cais em diversas dimensões:

Podem mudar modelos de negócio – É só ver a mudança do processo de co­mer­cia­li­za­ção de músicas, do CD para o iTunes.
Podem mudar as estruturas das empresas – Com a tecnologia da informação, não existem fron­tei­ras. O “departamento ao lado”, dentro da sua empresa, pode estar no mesmo prédio, na Índia ou na China.
Podem mudar as estruturas in­dus­triais das empresas – Novas tec­no­lo­gias quase sempre implicam novos equipamentos. Desaparecem fábricas velhas e surgem novas.
Podem mudar os perfis dos pro­fis­sio­nais requeridos – Profissões ficam obsoletas e surgem ou­tras novas, remunerações mudam e o sistema de ensino precisa se adaptar.
Pode mudar o mercado – Mudam-​­se hábitos, mudam os consumidores, muda o mercado.
Portanto, é de certa forma esperado que empresas ganhem mui­to (ou nasçam) e que ou­tras percam mui­to (ou morram) em função dessas tec­no­lo­gias. Ou que o ranking dessas empresas se altere radicalmente, privilegiando as com­pa­nhias pio­nei­ras e as inovadoras e penalizando as resistentes. Sem esquecer que a maio­ria das tec­no­lo­gias disruptivas não emplaca. Nesse caso, se um pio­nei­ro apostar todas as suas fichas numa tecnologia que não vinga, é ele quem morre.
O fato é que as tec­no­lo­gias disruptivas estão aí e não dá para fingir que elas não existem, pois o risco de elas afetarem profundamente vá­rios ramos de negócio não é pequeno. Particularmente a indústria gráfica, que faz parte do processo de comunicação de uma forma geral, pode ser ain­da mais atingida, pois é no mundo da comunicação que estão ocorrendo as grandes mudanças tecnológicas das últimas décadas.
Mas, dian­te disso, o que o empresário gráfico pode e deve fazer com relação às tec­no­lo­gias
disruptivas?
Em pri­mei­ro lugar, manter-​­se informado, pois o volume de informações que surge a todo momento é espantoso. É necessário se informar de tudo, ler vá­rias opi­niões sobre o mesmo tema e tentar, dentro do possível, fazer uma análise crítica para chegar a uma visão própria sobre o assunto, lembrando que, principalmente no que tange às ten­dên­cias, mui­to do que se fala podem ser estimativas, visões ou opi­niões que talvez não estejam apoia­das em fatos concretos. Deve-​­se tomar cui­da­do para não embarcar em ­ideias de gurus de oca­sião. Outro aspecto também importante é que, como se trata do futuro e de ten­dên­cias, elas podem mudar mui­to e rápido, então é fundamental acompanhar as informações e as suas mudanças.
Em segundo lugar, pensar sempre estrategicamente, porém sem dei­xar de in­cluir uma análise de risco para as decisões de longo prazo. O plano B passa a ser cada vez mais importante (e por que não pensar nos planos C, D etc?), pois não se pode ­apoiar toda a estratégia da empresa em apenas uma alternativa de futuro. Não se pode, também, só pensar no curto prazo, porque provavelmente algumas ações ne­ces­sá­rias para o futuro dei­xa­rão de ser tomadas. O importante é que as decisões estratégicas da empresa estejam sempre inseridas num cenário de incertezas, para que a ava­lia­ção de riscos seja bem fei­ta, e que pos­sí­veis correções de rota, fruto de mudanças tecnológicas, não venham a comprometer a saú­de da empresa.
Também não é menos importante se preo­cu­par em manter uma equipe tecnicamente atua­li­za­da e pronta para rea­gir, ou melhor, antever as novas tec­no­lo­gias, adaptando-​­se rapidamente a elas e tirando delas o pro­vei­to que o seu negócio pode obter da forma mais rápida possível.
É fato que as novas tec­no­lo­gias aparecem mui­to rápido e também desaparecem na mesma velocidade. Quem perde o trem da história corre o risco de não apro­vei­tar os be­ne­fí­cios que as novas tec­no­lo­gias podem trazer para os ne­gó­cios.
Para con­cluir, é imprescindível que o empresário gráfico esteja preparado e goste de mudanças. O perfil extremamente conservador tende a perder espaço no mundo das comunicações. O ou­sa­do cons­cien­te deve ser o perfil mais adequado para o am­bien­te que se aproxima.
Está claro que estamos e estaremos vivendo num mundo onde haverá mui­to mais perguntas do que respostas. O futuro está aí e é incerto. Podemos temê-​­lo ou nos preparar para enfrentá-​­lo. Esta será a escolha de cada um.

Flábio Botana é professor da Faculdade Senais de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na edição nº 74