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“O balanço ambiental da produção de papel é amplamente favorável” Imprimir E-mail
Escrito por Elisabete Pereira   
Sex, 05 de Novembro de 2010

Para Alexandre Duckur, o desafio do segmento de papel é a reciclagem com menor geração de re­jei­tos. O executivo é diretor co­mer­cial do Grupo Bignardi, fabricante de papel que em 2008 ini­ciou a produção do papel offset reciclado. Nesse aspecto, ele afirma que o Brasil inovou, ao contrário de ou­tros paí­ses, nos ­quais a busca por pa­péis mais alvos implica em ­maior produção de re­sí­duos. “A indústria está empenhada em fomentar as melhores práticas am­bien­tais e ­apoia todas as ações do Estado no sentido de minimizar o impacto am­bien­tal de sua atividade e do consumo de sua produção”. Confira, a seguir, na entrevista do executivo para a revista Tecnologia Gráfica, o cenário, a expectativa de crescimento, a legislação e ou­tros temas relevantes para o setor. “O futuro é de­sa­fia­dor, mas cremos que o papel estará presente, assim como esteve desde que o homem se entendeu civilizado”.

Como o segmento evo­luiu desde o lançamento do papel reciclado no Brasil, em 2001?
Alexandre Duckur
– Desde seu lançamento, o papel reciclado para imprimir e escrever como conhecemos hoje experimentou um crescimento expressivo, atingindo algo como 10% do mercado em 2008, quando o total das vendas domésticas do produto não revestido foi da ordem de 1,192 milhão de toneladas.

De­pois da explosão da procura pelo produto, ela se estabilizou. Existe tendência de aquecimento? A demanda por papel reciclado voltará a crescer?
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– O consumo está estabilizado em nível in­fe­rior ao verificado em 2008. Não dispomos de estatísticas con­fiá­veis para afirmar qual é o volume ­atual, mas, mui­to em breve, a Bracelpa terá dados para embasar o tema. Entendo que a opção crescente pelo consumo cons­cien­te as­so­cia­da às ações da so­cie­da­de civil e do governo federal de fomento e estímulo ao consumo de produtos reciclados, a exemplo da Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos, farão com que a demanda cresça a patamares su­pe­rio­res aos do passado recente.

No auge da demanda, o preço do papel reciclado subiu e acabou atrain­do a atenção de falsificadores. Essa prática ilegal continua existindo?
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– Real­men­te, hou­ve absurdos. Tivemos até empresas de má-​­fé que “imprimiram” papel branco com as características e a cor do papel reciclado com o objetivo claro de enganar o consumidor. Cremos que tais atitudes são do passado. No presente, temos que enfrentar a classificação de não conformidade de alguns pa­péis que se apresentam como reciclados, mas que não cumprem o que dispõe a norma ABNT NBR 15755/2009, que define o que é papel reciclado.

O segmento de papel reciclado está consolidado?
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– O segmento já está consolidado, com vá­rios fabricantes e marcas estabelecidas. À medida que a so­cie­da­de com­preen­der melhor os be­ne­fí­cios da reciclagem dos re­sí­duos que ela própria gera, acabará optando por um consumo mais cons­cien­te, incrementando o uso de papel reciclado.

O que falta para a expansão da ca­deia de papel reciclado no Brasil?
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– Falta informação de boa qualidade e ampla divulgação. Há mui­tos mitos e desinformação circulando em todas as mí­dias. A alternativa é produzir con­teú­do de qualidade e permitir que a so­cie­da­de com­preen­da os be­ne­fí­cios da reciclagem para que possa fazer sua opção de forma cons­cien­te.

Como anda atualmente a demanda por papel offset reciclado?
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– Infelizmente, são pou­cas as empresas que produzem papel offset reciclado, segundo o que dispõe a NBR 15755/2009. Entre elas está a Bignardi, que rea­li­zou investimentos expressivos para estar entre as líderes desse segmento.

Você foi um dos integrantes da equipe que definiu a NBR 15755/2009, resultado de um trabalho do Comitê de Celulose e Papel da ABNT. Qual a sua ava­lia­ção do setor pós-​­norma?
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– Com a pri­mei­ra versão da norma NBR 15755/2009 o segmento deu um grande passo, porém in­su­fi­cien­te, visto que ain­da há no mercado pa­péis com classificação indevida, segundo a norma. A evolução do processo terá de passar por uma regulamentação, obrigando os fabricantes a serem certificados por entidades independentes, assegurando a opção do consumidor.

O uso do papel pardo e com fibras aparentes ain­da remete ao comprometimento com as questões am­bien­tais? Do ponto de vista técnico, o papel reciclado é mesmo am­bien­tal­men­te mais correto do que o papel de fibra virgem?
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– O papel reciclado presta relevantes serviços am­bien­tais para a so­cie­da­de porque ajuda diretamente na inserção so­cial de milhares de pes­soas que se dedicam à coleta e à tria­gem dos re­sí­duos sólidos gerados pela so­cie­da­de. Também contribui ativamente para a redução da disposição incorreta do lixo urbano e, por fim, cria uma ca­deia de valor econômico que motiva a so­cie­da­de a pesquisar e encontrar soluções para o ­maior desafio do nosso tempo: preservar os bio­mas na­tu­rais ain­da intactos, garantindo, assim, as futuras gerações. Portanto, não há porque se falar em mais ou menos correto em termos am­bien­tais. O papel reciclado é a sequência natural e uma das opções de que a so­cie­da­de dispõe para ­criar a ca­deia de valor que definirá, entre ou­tras coi­sas, o futuro das próximas gerações.

Como estão os esforços da indústria de celulose e papel no sentido de demonstrar que os pa­péis produzidos com fibras virgens também são am­bien­tal­men­te corretos?
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– Não devemos fomentar o con­cei­to do antagonismo entre os diferentes pa­péis. Ambos são produtos da mesma indústria, complementares entre si e produzidos a partir da mesma fibra, pro­ve­nien­te de florestas plantadas, que con­tri­buem ativamente para a minimização do aquecimento global pela fixação do carbono. O papel reciclado pode e deve ser a sequência natural para a disposição final do papel de fibra virgem.

O au­men­to do consumo de papel esbarra no au­men­to da área plantada. Como você vê a solução para essa equação?
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– A so­cie­da­de, ao consumir mais papel, demanda mais fibra virgem, que por sua vez exige mais ­­áreas para cultivo das fontes de fibras, que in­va­ria­vel­men­te competirão com as demandas por solo exercidas pelas de­mais culturas. O ciclo de expansão da produção de qualquer bem in­dus­trial passa pelo uso dos recursos na­tu­rais, no nosso caso, o solo, e não árvores ou florestas como equivocadamente se discute. Nossa indústria cultiva as fontes de fibras que usa, quer sejam árvores ou de­mais culturas, colhendo-​­as de forma sustentável, quando necessário, e mantendo sempre um equilíbrio har­mo­nio­so com o am­bien­te ao seu redor.

Para reciclagem, como os pa­péis são separados e ­quais os mais valorizados? Quem são os consumidores de pa­péis re­ci­clá­veis?
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– Os pa­péis recuperados pós-​­consumo são normalmente classificados segundo norma da ABNT, que se guia pelo tipo de fibra e con­teú­do presente no papel, pela densidade (carga) da impressão, pela quantidade de contaminantes presentes, entre ou­tros cri­té­rios. Exemplificando, os pa­péis com menor área impressa e oriun­dos de fibra virgem, tais como os pa­péis “sulfite” brancos, são os mais valorizados. No extremo oposto, podemos citar como exemplo de menor valor o papel jornal. Normalmente, as coo­pe­ra­ti­vas e, de­pois, os aparistas fazem a tria­gem e classificação dos pa­péis recuperados segundo seu valor econômico. O papel reciclado é frequentemente empregado em impressos pro­mo­cio­nais, re­la­tó­rios em­pre­sa­riais, ma­nuais técnicos, faturas co­mer­ciais, embalagens e sacolas, entre ou­tros, e es­pe­cial­men­te no uso do ex­pe­dien­te administrativo em empresas e bancos, principalmente na administração pública.

Qual é o principal consumidor de papel reciclado?
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– A administração pública e grandes corporações em­pre­sa­riais. Os governos, nos diferentes ní­veis, têm estimulado o uso do papel reciclado com o in­tui­to de estabelecer a ca­deia econômica que permitirá a expansão da reciclagem e, assim, a di­mi­nui­ção da geração de re­sí­duos. Por sua vez, as corporações o adotam como ferramenta de mar­ke­ting ins­ti­tu­cio­nal, entendendo que mui­to em breve as pes­soas terão ­maior cons­ciên­cia de sua ação no meio am­bien­te e acabarão por escolher as empresas também por esse quesito.

Em que medida a Política Na­cio­nal de Re­sí­duos Sólidos, que estabelece regras para a coleta seletiva e a responsabilidade sobre a destinação de re­sí­duos sólidos para vá­rios segmentos, vai favorecer a indústria de papel reciclado?
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– A PNRS con­tri­bui­rá fortemente para a regulamentação da atividade de reciclagem, qualquer que seja o segmento, amparando a inserção so­cial de milhares de pes­soas envolvidas na atividade de coleta, tria­gem e classificação dos re­sí­duos sólidos. Um dos seus pilares é a implantação da logística reversa, que significará, quando estiver difundida, uma ­maior oferta de matéria-​­prima a custo competitivo. Outro pilar importante é a desoneração fiscal dos produtos reciclados, resultando na elevação do consumo, via­bi­li­zan­do assim os grandes objetivos da lei, que são a minimização do impacto am­bien­tal dos re­sí­duos sólidos e a cria­ção de ver­da­dei­ras ca­deias econômicas, assim como vemos hoje na ca­deia do alumínio.
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Quais são hoje os prin­ci­pais de­sa­fios da indústria de papel?
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– A indústria de papel para imprimir e escrever vive um momento único em sua história secular. Está amea­ça­da de subs­ti­tui­ção pelos ­meios di­gi­tais de comunicação e tem de conviver com a des­con­fian­ça do consumidor em relação à sua sustentabilidade como atividade econômica. Esses de­sa­fios do nosso tempo só fazem justificar uma ação ampla e coor­de­na­da desse segmento in­dus­trial para demonstrar com clareza que o balanço am­bien­tal da produção de papel é amplamente favorável e o será cada vez mais à medida que a reciclagem dos pa­péis usados seja fortalecida e entendida como atividade complementar à produção de fibras virgens a partir de florestas plantadas e ou­tras culturas. O futuro é de­sa­fia­dor, mas cremos que o papel estará presente, assim como esteve desde que o homem se entendeu civilizado.

Do ponto de vista tecnológico, ­quais são os de­sa­fios? O que as empresas estão fazendo para reduzir o seu impacto am­bien­tal?
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– Em nosso segmento o desafio é a reciclagem com menor geração possível de re­jei­tos. Nesse quesito o Brasil inovou, visto que o papel reciclado produzido aqui gera um mínimo de re­jei­tos, ao contrário de ou­tros paí­ses, onde a busca por pa­péis mais alvos implica uma ­maior geração de re­jei­tos. Precisamos desenvolver tec­no­lo­gias ecoa­mi­gá­veis, de bai­xo impacto am­bien­tal, como a tecnologia de enzimas, que pode possibilitar um cla­rea­men­to do papel reciclado sem, contudo, produzir re­jei­tos. A indústria de papel está empenhada em fomentar as melhores práticas am­bien­tais e ­apoia todas as ações do Estado no sentido de minimizar o impacto am­bien­tal de sua atividade e do consumo de sua produção.

 

Texto publicado na edição nº 74